terça-feira, 9 de junho de 2020

Inibir lutas necessárias é erro político grave. Por Frei Gilvander


Inibir lutas necessárias é erro político grave
Por Gilvander Moreira[1]

Manifestação em Brasília, dia 07/6/2020. Foto: Reprodução/Twitter/George Marques
O dia 07 de junho de 2020, um domingo, poderá entrar para a história do povo brasileiro como o dia do início das lutas massivas e organizadas que puseram fim ao desgoverno federal de Jair Bolsonaro genocida, ao fascismo, ao racismo e à engrenagem capitalista superexploradora, machista, homofóbica, ecocida, etnocida e antiecológica. Houve lindas e inspiradoras manifestações populares em vinte capitais. Lutas por: “Fora Bolsonaro, em defesa da Democracia e pelo resgate de todos os direitos sociais, trabalhistas e ambientais”; “Fora fascistas”, “Basta de Racismo e de violência contra as juventudes negras e da periferia”; tudo isso foi ouvido dia 7 de junho em alto e bom som país afora. Gritos de luta irradiaram energia revolucionária e a marcaram para sempre, tais como: “Recua, Fascista, é o Poder Popular que Tá na Rua”; “Terrorista é quem tem Gabinete do Ódio”; “O Diabo Veste Farda”; “Eu não Consigo Respirar” ou “Ei, Burgueses, a Culpa é de vocês”; “Nenhum passo atrás, ditadura nunca mais!”; “Vidas Negras Importam!”; “Democracia!” ...

Nos dias anteriores a 7 de junho, fiquei indignado ao ver e ouvir lideranças que se dizem de esquerda com discursos rasos inibindo o povo de ir para as ruas lutar por direitos. Alegavam riscos de contágio pelo novo coronavírus, risco de apanhar da polícia, risco do antipresidente usar as manifestações como pretexto para “não deixar a democracia respirar”. Uns alegando que “não queremos mais mártires”. Enfim, tentando meter medo no povo e inibir a ida às ruas para as lutas tão necessárias e urgentes. É triste ver que há lideranças que já erraram tanto e que seguem repetindo os erros, o que traz como consequência o descrédito do povo que acaba por se enfiar debaixo do espinheiro que é um desgoverno fascista. Não é apenas ilusão, mas erro político grave acreditar em “bananeira que já deu cacho”. As lideranças devem ir aonde o povo está. O povo se antecipou e foi para as ruas, chama para as ruas, lugar onde historicamente se decidem os rumos de suas vidas.
É muito suspeito o discurso que diz "não queremos mais mártires". Ouvi muito esta cantilena no meio de quem é da classe alta, da elite ou da pequena burguesia (classe média), mas que dizem ter boas intenções e práticas assistenciais. Já ouvi muito “não queremos mais mártires” na boca de pessoas com análises moderadas e posturas políticas moderadas. De forma não confessada quem diz assim tem a ilusão de que apenas com eleições e negociações institucionais conquistaremos a superação do capitalismo, essa máquina de moer vidas, com todas as suas formas de matar. Aliás, toda pessoa cristã é discípula de um mártir: Jesus Cristo, martirizado pelo conluio dos podres poderes da política, da economia e da religião. Quem é de esquerda é discípulo de Che Guevara, Rosa Luxemburgo e tantos outros camaradas martirizados pelos opressores. Dom Pedro Casaldáliga disse mil vezes: “Feliz de um povo que não esquece e honra seus mártires”. Não é possível acontecer ressurreição sem passar pela sexta-feira da paixão. As primeiras comunidades cristãs também tiveram que rechaçar os que queriam só uma teologia da glória que negava o Jesus Cristo Crucificado. Em uma sociedade capitalista organizada para reproduzir a desigualdade social não acontecem mudanças profundas sem mártires. É duro, mas é a realidade. Como nos resguardar dizendo não querer novos mártires se o martírio está sendo o cotidiano do povo negro, do povo indígena, de mulheres e de toda classe superexplorada deste país? Como honrar os milhares de mártires da pandemia da Covid-19, resultado do descaso com a saúde pública que o desgoverno Bolsonaro e a necropolítica agravam cotidianamente? E quem mais está morrendo? Lembremo-nos de “um hino de luta”: “A Carne”, música cantada lindamente por Elza Soares, de autoria de Marcelo Yuka, Seu Jorge e Ulisses Cappelletti.

(...) “De algum antepassado da cor

Brigar sutilmente por respeito
Brigar bravamente por respeito
Brigar por justiça e por respeito (Pode acreditar)

De algum antepassado da cor

Brigar, brigar, brigar, brigar, brigar
Se liga aí

A carne mais barata do mercado é a carne negra

Na cara dura, só cego que não vê
A carne mais barata do mercado é a carne negra” (...)

Por posturas que não vão além de políticas compensatórias, não apenas desconfio, mas tenho certeza de que diante de tanta superexploração, os/as moderados/as estão sendo cúmplices da reprodução da violência estrutural e da superexploração. Em uma sociedade desigual, os omissos não são apenas omissos, são cúmplices e coniventes com os sistemas opressivos. Quem fica na inação “esperando o momento propício, sem riscos”, pela omissão, faz a pior “ação”: se torna cúmplice da reprodução da violência. É grande ilusão pensar que é possível lutar por direitos sem correr riscos. Impossível conquistar a superação do sistema de morte sem lutas arriscadas. Antigamente, as pessoas que inibem lutas por direitos eram chamadas de “pelegas”, as que amortecem a fricção da luta de classe, em analogia ao couro colocado sobre os arreios para tornar o assento do cavaleiro confortável. Sem lutas massivas e arrojadas não acontecerá a superação do autoritarismo e de todas as violências estruturais. Só posturas institucionais serão sempre tímidas e paliativas. O fascismo e o nazismo cresceram na Europa graças também a posturas conciliadoras de partidos e movimentos sociais que ficavam com excesso de cautela. Em meus trinta anos de luta por direitos sociais, nunca vi nenhuma conquista de direitos acontecer sem lutas arrojadas. Ao contrário, já vi muitas posturas moderadas atrapalharem muito as lutas. Uma liderança popular que se diz de esquerda não tem o direito de inibir lutas, pois quem inibe lutas necessárias por direitos está jogando ao lado dos opressores. Basta de posturas moderadas! São cúmplices de opressão, repito. Manter todas as precauções para não se contaminar com o novo coronavírus, sim, é necessário, mas jamais deixar de lutar por todos os direitos com organização e afinco. Enfim, sem lutas massivas e arrojadas nas ruas e em todos os cantos e recantos, nas periferias e na floresta, quem continuará sendo martirizado é o povão, a mãe Terra, os biomas e toda a biodiversidade.
Leia o que diz Darcila Rodrigues, mulher negra e lutadora: “É difícil respirar, principalmente quando o relato de grande parte do povo, insiste em se calcar na ótica da classe média. Dia 06 de junho último, ouvi diversos "conselhos" para que o povo não saísse às ruas sob o pretexto de proteção contra a pandemia do novo coronavírus. No entanto, o povo já foi obrigado a ir para as ruas para trabalhar e a levar o vírus para suas casas e comunidades.  Só a classe média e alta pode, de fato, fazer quarentena. O povo tem sido empurrado para se aglomerar nos ônibus coletivos e metrôs, porque está sendo obrigado a ir trabalhar para produzir principalmente para os empresários. O povo já tão violentado tem sido atraído para se aglomerar nas portas da Caixa Econômica Federal para receber uma migalha de auxílio emergencial de 600 reais, que para milhões de pessoas não chega. Ir às ruas no dia 7 de junho, não foi um gesto suicida, foi um gesto de dignidade, um pouco  do que ainda resta  para aquela parte do povo que sabe o que é luta, o que é dor, fome, injustiças e as sentem no próprio corpo a necessidade de conquistar direitos. Esta mesma parcela do povo que tem sua força ancorada na esperança de que um dia possa respirar, pois a cada dia de nossas vidas nos tiram o ar pisando no nosso pescoço de muitas formas. Tristemente só compreende isso quem de fato sofre, pois os alienados que se entendem por classe média, mesmo tendo um pé depositado em sua jugular,  já se adaptaram ao ar rarefeito, a uma vida limitada de ar e de sonhos. Pensam só em sobreviver.”
Margarida Alves, martirizada a mando de latifundiários da monocultura da cana de açúcar, dizia sempre: “É melhor morrer na luta do que morrer de fome”. O sangue de George Floyd, de João Pedro, do menino Miguel, dos milhares de brasileiros/as que estão sendo mortos de mil formas pela necropolítica reinante precisa continuar circulando nas nossas artérias, suas vozes devem se expressar agora e sempre por meio daquelas e daqueles que se comprometem com as lutas pela superação do sistema do capital, isso para adiarmos o fim do mundo.
Observando todas as medidas de segurança para evitar o contágio do novo coronavírus, o povo deve, sim, seguir se manifestando com coragem e compromisso até depois de conseguir a derrubada deste desgoverno genocida e a implementação de outro governo justo economicamente, democrático politicamente, solidário socialmente, responsável ambientalmente e respeitador da diversidade cultural presente no nosso país. Enfim, inibir lutas necessárias é um grave erro político, pois “as mães negras não aguentam mais chorar. Chega!”. “Enquanto houver opressão e repressão haverá luta!” “Quantos outros não foram filmados?” Em vários pontos do planeta Terra este grito marcou definitivamente as manifestações antifascistas de junho de 2020: “Vidas Negras Importam!”[2]

09/6/2020.

Obs.: Os vídeos nos links, abaixo, ilustram o assunto tratado acima.
1 - Domingo no Brasil é marcado por protestos em 20 capitais


2 - #CaféComBoulos | Por que fui às ruas neste domingo?



3 - FOMOS ÀS RUAS E O MUNDO NÃO SE ACABOU



4 - Roda de conversa entre Leonardo Péricles, da UP, e Glauber Braga








[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       www.twitter.com/gilvanderluis        –     Facebook: Gilvander Moreira III
[2] Gratidão à Carmem Imaculada de Brito, que fez a revisão deste texto.


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