terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Traduções da Bíblia da LXX para Línguas Antigas e o Latim. Por frei Gilvander

Traduções da Bíblia da LXX para Línguas Antigas e o Latim. Por frei Gilvander Moreira[1]



Ao longo da história, a Bíblia judaica e a cristã passaram por muitas traduções. Existem diversas traduções antigas da Bíblia da LXX, a Septuaginta, nas várias línguas faladas nas comunidades cristãs, sendo que as principais são: Vetus Latina; Copta; Armena; Siríaca Filossenianae Palestinense.

A tradução Vetus latina ou Antigo Latim foi feita para atender aos cristãos da parte Ocidental do Império Romano, que sentiam a necessidade de uma tradução da Bíblia grega para o latim. O problema é saber se a expressão ‘Vetus Latina’ refere-se às duas recensões, africana e Romana, da mesma tradução? Ou trata-se de duas traduções independentes? Pois, Cipriano, por volta do ano 258 da Era Cristã, cita a Bíblia da mesma forma, e o mesmo é feito por Novaciano, por volta do ano 257, mas não se trata da mesma tradução. Os beneditinos de Beuron estão trabalhando desde 1951 numa edição crítica, para saber o que resta da ‘Vetus Latina’.

A tradução Copta tem duas versões, uma do norte (setentrional) e outra do sul (meridional). Estas traduções tiveram seu início depois do ano 200 da Era Cristã e foram feitas em base ao texto da tradução da LXX. A tradução Armena segue a tradução Esapla, de Orígenes, levando também em conta a tradução Siríaca Peshita. A tradução Siríaca Filosseniana, do século VI, recebeu este nome por causa do bispo Filosseno, dela existem alguns fragmentos. A tradução Siríaca Palestinense surgiu por volta do ano 600 Era Cristã e segue o texto da tradução Esapla, de Orígenes, e, no século VII surgiu outra sob o mesmo nome. Todas estas versões da Bíblia cristã foram importantes para reconstruir o texto do Primeiro Testamento grego e, por meio dele o texto hebraico-aramaico.

E as traduções da Bíblia da LXX para o Latim? O latim[2] era a língua falada pelo povo no império romano. Por isso, era necessário que a Bíblia fosse traduzida para que o povo tivesse acesso para a sua leitura pessoal, bem como pudesse servir para a catequese e para a liturgia das pessoas cristãs. Foi, então, que a partir do II século da Era Cristã, quando também a religião cristã se propagava entre os povos de língua latina, houve um novo impulso para a sua tradução.

A tradução Vetus Latina é a forma genérica de falar de todas as traduções antigas que foram feitas tanto do Primeiro, quanto do Segundo Testamento bíblico, anteriores à tradução da Vulgata, que foi feita por São Jerônimo (nasceu em 342 e morreu no ano de 420). Para o Primeiro Testamento foi feita de uma versão da LXX e para o Segundo Testamento do grego. Ao longo dos anos houve muitas traduções da Bíblia para o latim, o que podemos deduzir pela variedade do vocabulário e estilo entre um livro e outro da Bíblia, ou ainda entre um conjunto de livros ou outro.

A importância da tradução Vetus Latina está na possibilidade de reconstrução crítica do Segundo Testamento do texto grego, e por ter servido para a formação da Vulgata. São Jerônimo não traduziu os livros deuterocanônicos do Primeiro Testamento[3], eles entraram na Vulgata pela Vetus Latina, bem como os Salmos e o Segundo Testamento que apenas foram revisados.

Há um número limitado de códices que conservam fragmentos parciais do texto da tradução Vetus Latina, do Segundo Testamento. Estes são indicados com as letras minúsculas do alfabeto latino. Os mais importantes são: o Códice k, do século V-VI que contém os Evangelhos Mateus e Marcos e é conservado em Turim na Itália; o Códice a do século IV e V, talvez o mais antigo manuscrito latino dos evangelhos; O Códice e Palatino do século V, Códice b Verona do século V e Códice f de Bescia do século VI. São muito importantes estes códices porque servem para reconstruir o texto da tradução Vetus Latina, também citações de Santos Padres como Cipriano e Ambrósio.

Os Beneditinos de Beuron na Alemanha fizeram uma edição completa da tradução Vetus Latina, sob o mesmo título. Recolheram todos os testemunhos dos Códices, lecionários litúrgicos e todas as citações dos antigos escritores eclesiásticos até Carlos Magno, no ano 800 da Era Cristã. A obra foi editada em dois Tomos. Ela contribuiu muito com os seus numerosos índices, que abriram possibilidade ao estudo de novos enfoques, novas ideias teológicas, a formação de uma terminologia eclesiástica, na construção de uma história do texto bíblico grego e também na formação da Vulgata.

Tradução da Vulgata, palavra que vem do latim e significa ‘aquilo que é do uso público’, muito divulgada. É assim conhecida a Bíblia que foi traduzida para o latim, em grande parte por São Jerônimo, dos textos massoréticos e partes da Vetus Latina. O latim era a língua falada e entendida pelo povo em geral. Mas, nos dois primeiros séculos da era cristã, o nome Vulgata ou Vetus Latina, indicava o texto da LXX, por ser muito difundida.

A Vulgata para o Primeiro Testamento integrou os cinco livros deuterocanônicos: Baruc, Eclesiastes, Sapienciais, I e II Macabeus mais os fragmentos dos livros de Ester 10,4-16,24 da Vetus Latina, corrigidos segundo o texto da LXX; e de Daniel 3,24-94; 13-14 que também é da Vetus Latina, mas corrigido segundo o texto de Teodozião.

O saltério vem da tradução Vetus Latina e foi corrigido por São Jerônimo segundo o texto grego da Esapla, de Orígenes. Os livros de Tobias e Judite foram traduzidos por São Jerônimo do aramaico; e todos os demais livros do Primeiro Testamento foram traduzidos igualmente por São Jerônimo do texto hebraico, e parte dos livros de Daniel 2,4b-7,28 e Ester 4,8-6,18; 7,12-26 do aramaico. Para o Segundo Testamento, tanto os Evangelhos como os demais escritos foram corrigidos provavelmente por São Jerônimo, da Vetus Latina, sobre o texto grego.

A Vulgata carrega uma dúplice autoridade: crítica porque de fato, é obra autêntica de São Jerônimo, reproduz com exatidão o sentido dos textos nas línguas originais. E a autoridade jurídica lhe advém das autoridades competentes que o aprovaram. O Concílio de Trento (de 1545 a 1563) reconheceu a sua autoridade[4]. Esta se difundiu na Igreja romana a partir do século VII. Em 1590, a Vulgata recebeu a sanção oficial do papa Sisto V. No final do papado de Paulo VI, foi elaborada uma nova tradução da Bíblia: a Neo-vulgata.

Conhecer um pouco da história das traduções da Bíblia ajuda-nos no processo de interpretação, pois leva-nos a perceber que “a Bíblia não foi ditada por Deus”, mas passou por um intenso e complexo processo de criação, de atualizações, teve e tem muitas versões. Isto nos leva à necessidade de descobrirmos a vontade de Deus não na letra fria, mas buscando o seu espírito e acreditando que o Deus da vida, o que foi testemunhado pelos profetas e profetisas, fala hoje a nós também na trama da história e dos acontecimentos, nas ondas das relações humanas, sociais e ecológicas. Portanto, interpretar os textos bíblicos de forma fundamentalística e literalista pode muitas vezes torturar os textos bíblicos para se tirar conclusões totalmente contraditórias com o que Deus quer para todos/as a partir dos injustiçados/as: vida e liberdade em abundância (Jo 10,10). Enfim, está completamente errado quem invoca versículos bíblicos isolados para discriminar pobres, pessoas LGBTQIA+, estrangeiros/as, negros/as etc. O Deus da vida não quer discriminação de ninguém. Aprendamos a respeitar, a amar e a admirar a dignidade de todas as pessoas e de todos os seres vivos da biodiversidade nos irmanando na luta pela construção de uma sociedade justa economicamente, solidária socialmente, responsável ecologicamente, democrática politicamente, com respeito à imensa pluralidade cultural e religiosa, garantindo, assim, um futuro menos difícil para as próximas gerações.

06/02/2024

Obs.: As videorreportagens nos links, abaixo, versam sobre o assunto tratado, acima.

1 – Um Tom de resistência - Combatendo o fundamentalismo cristão na política

2 - Bíblia: privatizada ou lida de forma crítica libertadora? Por frei Gilvander, no Palavra Ética

3 - Deram-nos a Bíblia. “Fechem os olhos!” Roubaram nossa terra. Xukuru-Kariri, Brumadinho/MG. Vídeo 5

4 - Agir ético na Carta aos Efésios: Mês da Bíblia de 2023. Por frei Gilvander (Cinco vídeos reunidos)

5 - Andar no amor na Casa Comum: Carta aos Efésios segundo a biblista Elsa Tamez e CEBI-MG - Set/2022

6 - Toda a Criação respira Deus: Carta aos Efésios segundo o biblista NÉSTOR MIGUEZ e CEBI-MG, set 2022

7 - Chaves de leitura da Carta aos Efésios, segundo o biblista PEDRO LIMA VASCONCELOS e CEBI/MG –Set./22

8 - Estudo: Carta aos Efésios. Professor Francisco Orofino

9 - Carta aos Efésios: Agir ético faz a diferença! - Por frei Gilvander - Mês da Bíblia/2023 -02/07/2023

10 - Bíblia, Ética e Cidadania, com Frei Gilvander para CEBI Sudeste

11 - Contexto para o estudo do Livro de Josué - Mês da Bíblia 2022 - Por frei Gilvander - 30/8/2022

12 - CEBI: 43 anos de história! Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos lendo Bíblia com Opção pelos Pobres



[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG. Autor de livros e artigos. E “cineasta amador” (videotuber) com mais de 6.000 vídeos de luta por direitos no youtube, canal “Frei Gilvander luta pela terra e por direitos”. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       www.twitter.com/gilvanderluis        –     Facebook: Gilvander Moreira III

[2] É uma língua indo-européia, da qual se originaram: o português, espanhol, francês, italiano, romeno entre outras. O latim era inicialmente falado no Lascio, região da Itália, e gradativamente expandiu-se sendo falada em todo império romano, há documentos que o comprovam desde o século VII antes da Era Cristã.

[3] Sãos os livros da Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, I e II Macabeus.

[4] A Vulgata foi aprovada na IV seção do Concílio de Trento, 8 de abril de 1546 com o Decretum de Editione et usu Sacrorum Librorum.

Nenhum comentário:

Postar um comentário