sexta-feira, 17 de junho de 2016

Profeta Miqueias, um camponês que clama por Justiça (Mq 1-3). por frei Gilvander Luís Moreira

Profeta Miqueias, um camponês que clama por Justiça (Mq 1-3)[1].
Gilvander Luís Moreira*

Canto da profecia de Miqueias
(Música: ‘Se calarem a voz dos profetas’- Cecília V. Castilho. Letra: Marysa M. Saboya)
2ª estrofe: MIQUÉIAS, UM PROFETA PARA HOJE
Hoje e sempre, o Poder tem mil faces: / As armas, força bruta,
O dinheiro e a falaz propaganda / Que muita gente escuta...
Como, então, enfrentar as mentiras / E a Verdade a muitos mostrar?
É difícil em meio às trevas, / Iluminar!

Refrão: Já Miqueias aponta o caminho: / Seguir com Deus Javé (Mq 6,8)
E encher-nos do Espírito Santo, que vem / E nos mantém de pé! (Mq 3,8)
Ser Profeta é estar com o povo / Erguendo sempre a voz
Em denúncia do mal e em anúncio / Do quê Deus faz por nós!

Introdução: Profecia é sussurro/cochicho de Deus.
Os oráculos proféticos, normalmente, são introduzidos ou finalizados com uma fórmula característica: “Assim disse Javé...” ou “Oráculo de Javé” (Jr 9,22-23). A expressão “ne’m YAHWEH”, em hebraico, geralmente traduzida por “Oráculo de Javé” ou “Palavra de Javé”, significa sussurro, cochicho de Deus no ouvido do profeta ou da profetisa. Para entender um cochicho, um sussurro, é preciso fazer silêncio, abrir os ouvidos, prestar muita atenção, estar em sintonia, ter proximidade, ser amiga/o. Logo, Deus não falava claramente aos profetas como nós, muitas vezes, pensamos. Deus fala hoje para - e em - nós, do mesmo modo que falava aos profetas e às profetisas dos tempos bíblicos. Deus cochicha (sussurra) em nossos ouvidos, sempre a partir da realidade do injustiçado, enfraquecido, oprimido, na trama complexa das relações humanas e estruturas sociais, políticas e econômicas.
Precisamos colocar nossos ouvidos e nosso coração pertinho do coração dos violentados, escutando-os, para que nossas palavras possam refletir algo da vontade do Deus da vida. Mais que fazer cursos de oratória, precisamos de cursos de “escutatória”. Para ouvir os clamores mais profundos dos injustiçados, é necessário conviver com eles. Assim agiram os profetas e as profetisas. O profeta Miqueias faz muitas denúncias veementes, mas também apresenta propostas de mudança para superação da injustiça que se abate sobre o país e sobre o povo. É o que estamos vendo na leitura de Mq 1 a 3, (artigos 2 e 3).
1. Profeta Miqueias, um camponês que clama por justiça.
Camponês de origem e comprometido na missão profética, Miqueias captou os sussurros/cochichos do Deus da vida no final do século VIII a.E.C., quando o território de seu povo estava sendo ameaçado e explorado, no Sul, e devastado, no Norte, pelos assírios imperialistas.
Para Miqueias, a cobiça e as injustiças sociais deixam Deus possuído por uma ira santa:
Ø São vocês os inimigos do meu povo: de quem está sem o manto, vocês exigem a veste” (Mq 2,8).
E HOJE?  - Os sem-terra, os sem-casa, a juventude empobrecida, de periferia e negra, as mulheres vítimas de violência, o meio-ambiente de hoje: todos sugados e espoliados.
Ø “Vocês expulsam da felicidade de seus lares as mulheres do meu povo” (Mq 2,9a).
E HOJE? - Milhares de meninas que são empurradas para a prostituição infanto-juvenil, coisificadas, profanadas no sagrado de seus corpos.
Ø “Vocês tiram dos filhos a liberdade que eu lhes tinha dado para sempre” (Mq 2,9b).
E HOJE? Cerca de trinta mil trabalhadores submetidos, ainda, à situação análoga à de escravidão no Brasil – conforme denuncia a Comissão Pastoral da Terra (CPT).          E mais de 50 mil jovens assassinados no Brasil anualmente, no meio da guerra civil não declarada, imposta pelo tráfico e não combatida pelo Estado e nem pela classe dominante de forma a superar as causas - violência estrutural com omissão de muita gente, algo que beira a cumplicidade com efeitos devastadores.
Após se libertar das garras dos faraós no Egito e marchar 40 anos pelo deserto, o povo oprimido da Bíblia conquista, pouco a pouco, as terras mais montanhosas da Terra Prometida, pois as planícies férteis estavam em mãos de grileiros: “os cananeus”, reis das cidades-estados. Os territórios foram sorteados fraternalmente, para que cada família tivesse o seu lote. Fizeram uma espécie de reforma agrária, de socialização da terra. Mas após alguns séculos, os enriquecidos, pouco a pouco, invadem cada vez mais os campos e os territórios. Assim, multidões de sem-terra foram jogados na miséria, impossibilitados de terem a sua parte na terra do povo de Deus.
Vindo do campo, o profeta Miqueias, ao chegar à capital – Jerusalém -, se defronta com os enriquecidos - políticos profissionais, empresários especuladores e religiosos funcionários do sagrado - e os acusa de roubar casas e campos para se tornarem latifundiários.
Ø Ai daqueles que, deitados em seus leitos de marfim, ficam planejando a injustiça e tramando o mal! É só o dia amanhecer, já o executam, porque têm o poder em suas mãos. Cobiçam campos, e os roubam. Tomam as casas do povo, oprimem o homem, sua família e sua comunidade; roubam a herança deles, a perspectiva de futuro” (Mq 2,1-2).
E HOJE, provavelmente Miqueias denunciaria que, como fruto da injustiça social, do capitalismo, da especulação imobiliária e da falta de reforma agrária, o déficit habitacional cresce nas cidades e, por isso, crescem as ocupações urbanas. Uma senhora, moradora de ocupação urbana, ameaçada de despejo, pegou o microfone e gritou: “Queremos moradia e não apenas o direito à moradia.” Esse grito nos faz pensar. Políticas habitacionais populares estão mais em discursos do que na prática. Mesmo com o Programa Minha Casa Minha Vida o déficit habitacional continua crescendo, por causa da especulação imobiliária que aumenta o preço dos aluguéis transformando-os em cruz pesadíssima, devido ao crescimento da população, a falta de reforma agrária e, pior, com o fortalecimento do agronegócio que continua expulsando o povo do campo para as periferias da cidade. Direitos fundamentais, como o de morar com dignidade, vêm sendo, há muito tempo, violados ou pouco atendidos.
Miqueias adverte, porém, que as injustiças não ficarão impunes. Nas entranhas da história – fatos e acontecimentos – Deus fará justiça (cf. Mq 3,12), mas, recordemos sempre: a justiça de Deus é a partir da misericórdia e do amor. Não é a justiça de certos fariseus e nem dos saduceus, que eram grandes proprietários de terra que seguiam a teologia da prosperidade. Miqueias mostra que a riqueza dos que detêm o poder na cidade se baseia na miséria de muitos e tem como alicerce a carne e o sangue do povo.
Ø Essa gente tem mãos habilidosas para praticar o mal: o príncipe exige, o juiz se deixa comprar, o grande mostra a sua ambição. E assim distorcem tudo. O melhor deles é como espinheiro, o mais correto deles parece uma cerca de espinhos! O dia anunciado pela sentinela, o dia do castigo chegou: agora é a ruína deles.”           (Mq 7,3-4).
No entanto, o profeta Miqueias anuncia, apesar de tudo, uma esperança:
Ø Em um campo em ruínas, na Samaria, uma plantação de vinhas – lavouras – será feita.” (Mq 1,6).
Também, HOJE, há ruínas e destruição, mas a VIDA se erguerá a partir dos escombros! 
2. Miqueias guarda memória subversiva: no início, estavam as mulheres lutadoras.
As mulheres parteiras do Egito – a Bíblia registra os nomes de duas: Séfora e Fuá (Ex 1,8-22) - diante de um Ato ditatorial (Medida provisória = “Decreto-Lei” do faraó) que mandava matar as crianças do sexo masculino, se organizaram, fizeram greve e resistiram com desobediência civil-religiosa-política. “Não vamos respeitar uma lei autoritária do império dos faraós. O Deus da vida quer respeito à dignidade humana e não concorda com a matança de crianças e com nenhuma opressão” - diziam em seus corações muitas Mulheres do “Sistema de Saúde” do Egito. Diz a Bíblia:
Ø “Deus estava com as parteiras. O povo se tornou numeroso e muito poderoso” (Ex 1,20).
Isto é, o povo crescia em quantidade e em qualidade. Miqueias foi um discípulo dessas mulheres parteiras do Egito, que, por rebeldia, viabilizaram não apenas o nascimento de Moisés, o libertador, e de muitas outras crianças, mas também, e principalmente, foram imprescindíveis para desencadear o processo de libertação do povo injustiçado.
E HOJE? São ainda legítimos herdeiros do Movimento das Parteiras do Egito: o Movimento das Mulheres Camponesas, a Marcha Mundial das Mulheres, as guerreiras das ocupações e o Movimento Feminista etc. O mesmo Deus que impulsionou as parteiras estava com as mil Mulheres da Via Campesina que expuseram a farsa da Aracruz Celulose em 08 de março de 2006[2] ao destruírem mudas de eucaliptos. Ontem, lutavam contra o império dos faraós; hoje, lutam contra o império das multinacionais.
3. Jesus de Nazaré, outro profeta Miqueias que se tornou Cristo.
Jesus, o galileu de Nazaré, se tornou Cristo, o ungido e filho de Deus. Camponês como o profeta Miqueias, Jesus de Nazaré deve ter feito muitos calos nas mãos, ao trabalhar no cabo da enxada e na carpintaria, ao lado de seu pai, José. Os evangelhos de Mateus (Mt 2,6) e de Lucas (Lc 2,3-7) fazem questão de dizer que Jesus nasceu em Belém, (Betlehem), em hebraico, “casa do pão” para todos), pequena vila do interior. “És tu, Belém, a menor entre as aldeias de Judá, mas é de ti que virá o Salvador”, diz o evangelho de Mateus (Mt 2,6), resgatando a profecia de Miquéias que dizia:  em Belém, o menor dos clãs de Israel, nasceria o Libertador/Salvador (cf. Mq 5,1).
Dizer que Jesus nasceu em Belém, cidade pequena do interior, é dizer nas entrelinhas que Jesus não nasceu na capital, Jerusalém e sim que Jesus vem do meio dos pequenos, é dizer que Jesus nasceu na “casa do pão” – na “padaria” – logo, é “pão da vida”- segundo o autor do quarto evangelho bíblico.
4. Miqueias nos passa a tocha da profecia
Miqueias se inspira nas mulheres lutadoras do passado, no movimento das parteiras. Miqueias se tornou fonte de inspiração para Jesus de Nazaré e para as primeiras comunidades cristãs, através dos evangelhos de Mateus e de Lucas.
E HOJE? Atualmente, também nós somos convidados/as carinhosamente e desafiados a sermos outras parteiras, outros Miqueias, outro Jesus de Nazaré.
Inspirados e inspiradas em Miqueias, podemos dizer que é um erro grave pensar que polícia irá resolver problemas sociais. Polícia é para resolver e reprimir crimes. As injustiças não se superam, de forma justa, com repressão. As lutas coletivas do povo pobre - que se expressa nas ocupações do campo e nas ocupações urbanas - são lutas por direitos constitucionais e como tais devem ser respeitadas. Os policiais, a partir de suas chefias e autoridades, devem ter sempre em mente que são também trabalhadores. Não estão obrigados a cumprir ordens contrárias à lei maior do país que é a Constituição e contra a Lei de Deus, que diz: Não matarás! Condenar pessoas pobres, portanto vulneráveis, a tamanha violência, como a retirada de suas casas, é o mesmo que condenar à morte: fere a ética, fere a dignidade de toda a humanidade, fere de morte o próprio Estado de Direito. Miqueias alerta a todos os/as funcionários/as do Estado, das instituições e das empresas:
“Não sejam meros instrumentos que fazem funcionar a máquina de moer vidas, que é o capitalismo. Ouçam suas consciências. Não se escondam simplesmente detrás do ‘se é ordem, tenho que cumprir’. Não abram mão da ética e da justiça!” Eis o que diria Miqueias, se estivesse, corporalmente vivo, no nosso meio.
O profeta Miqueias nos inspira para entendermos como a classe dominante se relaciona com os pobres: adora os pobres enquanto esses estão ajoelhados, de mãos estendidas, contentando-se com migalhas, e, no mundo do trabalho, oferecendo seu suor e sangue para construir tudo o que existe e faz funcionar a cidade. Mas quando os pobres se unem, se organizam, “metem o pé no barranco” e se rebelam - como fez o povo da Bíblia escravizado pelos imperialismos dos faraós no Egito, dos assírios, dos babilônios, dos persas, dos gregos e dos romanos, como fez Jesus de Nazaré ao pegar um chicote e expulsar os vendilhões do templo, como fez Zumbi dos Palmares, Dandara, Gandhi, Luther King, Che Guevara e tantos outros - os poderosos tremem de medo ao ver o seu edifício da opressão ameaçado de desmoronar como um castelo de areia.
O próprio fato de Miqueias fazer as denúncias já é um sinal de esperança, pois se ninguém denuncia as injustiças, elas vão se avolumando e se perpetuando. Logo, denunciar as injustiças é a antessala da construção de projetos de esperança. Venham todos, venham todas! Vamos participar das lutas coletivas por justiça e, assim, construir a justiça de Deus no mundo.

VAMOS REFLETIR?
1. Quais são as nossas propostas de ação que garantam a construção de um Brasil justo e de uma fé comprometida e engajada na vivência do direito, do amor e da solidariedade?
2. Como a espiritualidade de Miqueias pode nos inspirar e nos encher de coragem para denunciarmos as injustiças e anunciarmos a esperança do projeto de Deus?
3. O que fazer para nos engajarmos na desconstrução de uma cultura de violência e na construção de uma cultura de justiça e paz?








[1] Este artigo está publicado no livro MOREIRA, Gilvander Luís et alli. Em tempos difíceis, o profeta Miqueias aponta saídas: uma leitura do livro de Miqueias feita pelo CEBI-MG. São Leopoldo/RS: CEBI, 2016, p. 37-42.
* Frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutorando em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, do CEBI, de CEBs e do SAB; E-mail: gilvanderufmg@gmail.com    -    www.freigilvander.blogspot.com.br  - www.gilvander.org.br - http://www.twitter.com/gilvanderluis   -    facebook: Gilvander Moreira 
[2] Cf. o Vídeo-documentário Rompendo o Silêncio. As mudas passaram a falar. (Luta das mulheres da Via Campesina destruindo um viveiro de Mudas da Aracruz Celulose e povos indígenas do Espírito Santo lutando para resgatar suas terras invadidas pela Aracruz.)

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