quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

OCUPAÇÕES DA IZIDORA PROTESTANDO NA CIDADE ADMINISTRATIVA EXIGINDO QUE O GOVERNADOR PIMENTEL RECEBA SUAS LIDERANÇAS! LUTA CONTRA DESPEJOS!

OCUPAÇÕES DA IZIDORA PROTESTANDO NA CIDADE ADMINISTRATIVA EXIGINDO QUE O GOVERNADOR PIMENTEL RECEBA SUAS LIDERANÇAS! LUTA CONTRA DESPEJOS!

Belo Horizonte, MG, 14 de dezembro de 2016


Hoje, quarta-feira, dia 14 de dezembro de 2016, as ocupações da Izidora (Esperança, Rosa Leão e Vitória), de Belo Horizonte e Santa Luzia, MG, e os movimentos sociais Populares Brigadas Populares (BPs), Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) estão MANIFESTANDO AGORA NA PARTE DA TARDE na Cidade Administrativa, sede do governo de MG, para exigir que o Governador Pimentel, o Advogado Geral do Estado (Dr. Onofre) e Lígia, coordenadora da Mesa de Negociação, recebam uma Comissão de representantes das ocupações da Izidora e dos movimentos sociais. Passado quase 1 ano de insistência por parte das coordenações das ocupações e movimentos sociais, o Estado de Minas Gerais enfim retomou a Mesa de “Negociação” para tratar do conflito fundiário da Izidora – um dos sete maiores do mundo - (início de outubro de 2016, após o TJMG, dia 28/9/2016, determinar por 18 votos a 1 que o Estado pode fazer de forma truculenta e sem negociação as reintegrações de “posse” de Rosa Leão, Esperança e Vitória, ou seja, os despejos das comunidades da Izidora: cerca de 8.000 famílias (30.000 pessoas) com mais de 5.000 casas de alvenaria construídas em quase 4 anos de luta. Trata-se de três bairros irmãos em franco processo de consolidação. Ao visitar as comunidades da Izidora, o ex-presidente Lula disse e repetiu nas três comunidades: “Aqui não são mais ocupações, mas bairros. Não tem condições de pensar em derrubar essas casas aqui para fazer projeto Minha Casa Minha Vida. Precisa melhorar o que já está construído.” Lula assumiu o compromisso de falar com o governador Pimentel para receber uma Comissão das comunidades da Izidora em reunião.
Negociação entre aspas, pois o que estamos vendo de fato, não é negociação, e sim enrolação. De fato, recentemente a empresa Granja Werneck S/A e a Construtora Direcional apresentaram em Brasília petições no Superior Tribunal de Justiça (STJ), dizendo várias leviandades, calúnias e mentiras para tentar impedir que seja suspenso o despejo pelo STJ, assim como ocorreu em 25 de setembro de 2015. Já no último sábado, dia 09/12/2016, descobrimos que a Advocacia Geral do Estado (AGE), órgão de representação jurídica do Estado de Minas Gerais, apresentou petição ao STJ defendendo que o despejo seja realizado imediatamente. Isso é muito grave, é apostar em massacre e caos e não em uma solução justa, negociada e pacífica.
ISSO É MUITO GRAVE, POIS ACONTECEU CONTRARIAMENTE AO COMPROMISSO ASSUMIDO PELA COORDENADORA DA MESA, Sra. LIGIA MARIA ALVES PEREIRA, EM REUNIÃO DE NEGOCIAÇÃO DIA 07/12/2016, DE QUE A AGE NÃO SE MANIFESTARIA NO PROCESSO DO STJ CONTRARIAMENTE ÀS OCUPAÇÕES IZIDORA, MAS CONFORME O PROCESSO DE NEGOCIAÇÃO EM CURSO.
De forma resumida, dentre outras leviandades, em sua petição, a AGE diz o seguinte:
1)     Não há qualquer prova de que o Estado e a Polícia não cumprirão a lei e os direitos humanos no momento da reintegração de posse das Ocupações da Izidora e que, portanto, o mandado de segurança a favor da Izidora é baseado em meras suposições sem sentido; (Não é verdade isso, pois as Ocupações Maria Vitória, Maria Guerreira, Maria Bonita e Ocupação Temer Jamais foram despejadas pela PM e jogadas no olho da rua, pisando na dignidade humana, e as repressões da PM de MG às manifestações populares são provas cabais de que a PM de MG não está atuando em conformidade com os tratados internacionais.);
2)    Dizem que não houve qualquer ato concreto da Polícia Militar que pudesse ser considerado afrontoso a tratados internacionais, à legislação vigente ou à dignidade da pessoa humana; (Não é verdade essa posição, pois a atuação da PM de MG tem sido extremamente dura e cruel com as manifestações populares, conforme está registrado em inúmeros vídeos na internet.); e
3)    Foi negociada a realocação de diversas famílias em apartamentos do programa Minha Casa, Minha Vida que estão previstos para serem construídos na área a ser ocupada. (Essa proposta foi feita há 1,5 ano, mas o Estado não aceitou todos os pontos do processo de negociação que estava à baila. Atualmente as comunidades estão enraizadas em franco processo de consolidação. Não há como derrubar 5.000 casas dignas em bairros consolidados para construir 9 mil apartamentos de apenas 40 metros quadrados em prédios de 9 andares sem elevadores. Isso não é moradia digna e nem adequada. Inclusive o Estatuto da Cidade proíbe construir moradia popular destruindo outras moradias existentes na área.)
Isso, porém, não é novidade para nós, já que, em audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais dia 27/9/2016, o antigo coordenador da Mesa de “Negociação” do Estado, Sr. Alessandro, se comprometeu que a AGE não defenderia a realização do despejo na sessão de julgamento do TJMG, O QUE NÃO FOI CUMPRIDO. Estamos vendo que na realidade, o que o governador Pimentel está fazendo é, em aliança espúria com a empresa Granja Werneck S/A e a mega construtora Direcional, fingir que está negociando e tentar via judicial e extrajudicialmente construir um alicerce para possibilitar o despejo das 8.000 famílias das três comunidades da Izidora, o que inclui o uso de tática para desmobilizar as comunidades e sua rede de apoiadoras/es através da visita de representantes do Estado, Lígia e o ex-presidente Lula inclusive (com falas de representantes do Estado “tranquilizando” os moradores).
Assim, exigimos que o governador Pimentel, que já está concluindo metade de seu governo SEM TER RECEBIDO NENHUMA OCUPAÇÃO URBANA, receba uma COMISSÃO de lideranças das comunidades da Izidora + BPs + CPT + MLB, e que também DETERMINE À AGE A RETIRADA DA PETIÇÃO QUE PEDE A NÃO CONCESSÃO DA SUSPENSÃO DO DESPEJO.
Chega de Golpes contra a Izidora. Não aceitaremos despejo e muito menos ser enganados dessa forma. Lutaremos até o fim, pois enquanto morar dignamente for um privilégio, ocupar é um direito e um dever!

Assinam essa nota:
Ocupação Esperança
Ocupação Rosa Leão
Ocupação Vitória
Brigadas Populares – BPs
Comissão Pastoral da Terra - CPT
Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB).

 Contatos para maiores informações: Edna (31 981023297) e Rose (31 98941-2083); Charlene (31 98534-4911) e Gleice (31 98601-4525); Pastor Alberto (31 98683-9264) e Lu (31 99787-9859); Isabella (31 99383-2733) e Luiz (31 99227-1606); Frei Gilvander (31 99473-9000); Leonardo (31 99133-0983) e Thales (31 99486-6845).


domingo, 11 de dezembro de 2016

Povo indígena Aranã ressurgido: que beleza! Por frei Gilvander

Povo indígena Aranã ressurgido: que beleza!
Por frei Gilvander Luís Moreira


Li com alegria os manuscritos Educação, identidade e cidadania: uma leitura da ação política do povo ressurgido Aranã, de Vera Lúcia Soares de Araújo, freira, assessora do CEBI (Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – www.cebi.org.br ) e educadora. Texto fruto de dissertação de mestrado de Vera Lúcia em Educação na UNOESTE, em 2011. Texto que se tornou o livro ARAÚJO, Vera Lúcia Soares. A Sabedoria do Povo Aranã. Curitiba: Editora Appris, 2016.
Logo no início da leitura, recordei-me do livro O Renascer do Povo Tapirapé (1952-1954): diário das Irmãzinhas de Jesus, que trata do ressurgimento do povo Tapirapé, na Prelazia de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso. Recordei-me também do padre João Bosco Burnier que, após o soldado Ezy, na porta de uma cadeia em Ribeirão Cascalheira, MT, dar um soco fortíssimo no rosto dele e descarregar também no seu rosto um golpe de revólver e, num segundo gesto fulminante, o tiro fatal, no crânio, agonizando em um automóvel pelas estradas esburacadas do Xingu, antes de morrer em Goiânia no dia 12 de outubro de 1976, padre João Bosco lamentou com saudade comovedora ao bispo Dom Pedro Casaldáliga: “Sinto não ter tomado nota do que os índios (Tapirapé) falaram...” Ainda bem que as Irmãzinhas de Jesus, que convivem com os povos Tapirapés, desde 1952, em seus diários registraram muita coisa da vida do povo Tapirapé, parte publicado no livro O Renascer do Povo Tapirapé. E que beleza humanizadora que Vera Lúcia Soares de Araújo pesquisou e escreveu sobre o ressurgimento/emergência do Povo Indígena Aranã, em Minas Gerais.
No Brasil, ao longo de 516 anos, sob o signo do capital, os detentores dos poderes político e econômico têm feito uma das maiores sextas-feiras da Paixão ao massacrarem e dizimarem milhões de parentes nossos: os povos indígenas autóctones, os primeiros e legítimos herdeiros da terra Brasil, mas domingos de ressurreição estão sendo gestados com o ressurgimento/emergência de muitos povos indígenas. Em 1980 foram catalogados 18 povos indígenas ressurgidos. Os mais de cem povos indígenas que habitavam o estado de Minas Gerais hoje estão resumidos a apenas onze povos - Xacriabá, Aranã, Maxacali, Xucuru-cariri, Pataxó Hahahae, Pury, Pancararu, Krenak, Mokurin, Araxá e Kaxixó – na luta pelas suas terras para que sejam resgatadas e demarcadas de forma integral.
Escrevendo a partir do Povo Indígena Aranã, com resgate histórico e pedagógico do caminho trilhado pelo Povo indígena Aranã na sua luta por reconhecimento e resgate de seus direitos, Vera Lúcia apresenta, em linguagem simples e clara, o processo de luta por cidadania do Povo Aranã. Vera se ancora em vários documentos que sustentam a gradativa conquista de cidadania do Povo Aranã, tal como uma carta enviada a um representante do Estado, na qual o Povo Aranã revela cabeça erguida na defesa de seus direitos: “Como é do vosso conhecimento, o Povo Aranã, originário dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, está reivindicando do Estado o seu reconhecimento étnico.”
Em 2002, por ter sido extorquido de suas terras e ser sem-terra o Povo Aranã, o Conselho Indígena Aranã exigiu do Instituto de Terras do Governo de Minas Gerais a vistoria da fazenda Estacado por ser essa presumivelmente terra devoluta, e, assim, exigiu a liberação daquela fazenda para o Povo Aranã restabelecer sua aldeia. O resgate da terra do Povo Aranã continua um desafio a ser conquistado.
Enche-nos de esperança ao lermos no texto passagens que revelam a sabedoria, a coragem e a altivez do Povo Aranã, tal como: “O Povo Aranã luta para provar que está vivo e reaver suas terras que eram suas no passado. Luta bravamente para resgatar sua história, sua cultura, seus valores e resgatar a terra que lhe foi extorquida pelos colonizadores.”
O texto apresenta a educação política desenvolvida pelo Povo Aranã e, ao fazer esse resgate, pode ser fonte de inspiração para o ressurgimento de outros povos e culturas renegadas. Manoel Índio de Souza e seu filho Pedro Sangê, guardiães da memória dos antepassados, cultivadores da mística e da cultura aos atuais descendentes. Eis um exemplo eloquente da importância vital de se cultivar a memória.
Vera Lúcia nos indica o caminho das pedras - o segredo da mina – ao mostrar o caminho trilhado para o ressurgimento do Povo Aranã, caminho que passou pela convivência com o Movimento Indígena estadual e nacional, pesquisas históricas e antropológicas, muitos encontros de formação, reuniões semanais, assembleias periódicas, semanas indígenas anuais, visitas a outros parentes indígenas para troca de experiência e (re)conhecimento mútuo, participação em audiências, reivindicações a representantes do Estado etc. Que beleza revolucionária constatar no texto que o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) e o CEDEFES (Centro de Defesa Eloy Ferreira) foram imprescindíveis no ressurgimento do Povo Aranã, ao atiçar e acompanhar o processo de luta em busca de cidadania! A leitura dos manuscritos renovou em mim a esperança na luta em prol da construção de uma sociedade justa e solidária, que passa necessariamente pelo resgate de todas as culturas indígenas e demarcação de suas terras. O texto nos ajuda a respeitar e admirar a beleza que são as místicas e as culturas indígenas. Boa leitura do livro A Sabedoria do Povo Aranã.

Belo Horizonte, MG, 05/12/2015.

Gilvander Luís Moreira, frei carmelita.


Face: Gilvander Moreira III