terça-feira, 20 de abril de 2021

Torre de Babel e Bezerro de Ouro, na Bíblia e hoje. Por Frei Gilvander

 Torre de Babel e Bezerro de Ouro, na Bíblia e hoje. Por Frei Gilvander Moreira[1]



Na Bíblia encontramos narrativas de grandes projetos opressores, tais como a construção da Torre de Babel (Gen 11,1-9) e a construção de um bezerro de ouro (Ex 32,1-35). Olhemos um pouco para esses projetos na Bíblia na esperança de que possam inspirar posturas e compromissos na militância pela construção de uma sociedade justa e solidária diante dos grandes projetos de morte de hoje.

1 - Em uma cidade grande, uma Torre de Babel (Gênesis 11,1-9)

É obvio que não podemos encarar a narrativa bíblica de Gen 11,1-9 como se fosse um relato histórico, uma crônica jornalística de algo acontecido tal e qual está escrito. Esta é uma narrativa bíblica e, como tal, reflete a experiência de um povo escravizado, mas portador de uma fé libertadora. Prestemos atenção em alguns detalhes desta narrativa que nos diz: “o mundo inteiro falava a mesma língua, com o mesmo vocabulário” (Gen 11,1). Era uma espécie de ‘pensamento único’. Claro que isso nunca aconteceu em nenhum país do mundo e nem acontecerá. Sempre há uma enorme diversidade de línguas, culturas e formas de viver a vida. Não é preciso nem sair do Brasil para experimentar o esplendor das línguas e culturas regionais. Basta ir a regiões diferentes dentro do mesmo estado.

Mais à frente, diz a narrativa que construíram uma grande cidade e nesta almejavam edificar uma torre que pudesse acessar aos céus, uma espécie de templo que viabilizasse contato direto com o ser supremo. Queriam ser autossuficientes, independentes e queriam dominar. Mas o autor – ou autores e autoras - do livro de Gênesis faz – ou fazem - questão de dizer que Javé, o Deus solidário e libertador, não ficou inerte e nem assistindo de camarote o que acontecia. Ele desceu e descobriu o tendão de Aquiles deles: “Eram um só povo e falavam a mesma língua” (Gen 11,6). Ao detectar a presença deste pensamento único, da mesma ideologia, foi fácil inocular sementes de resistência, que naquele contexto se apresentaram como a diversificação das línguas que os levou a formar outros povos. Assim, a aquisição de novas línguas, culturas e diferentes formas de viver, conviver e lutar pelo bem comum bloqueou aquele megaprojeto de dominação que visava à onipotência e à autossuficiência de uma minoria enriquecida à custa da maioria escravizada.

Se olharmos bem à nossa volta, há muitas outras línguas e culturas sendo gestadas. Basta não alimentarmos o pensamento único na era do capitalismo neoliberal. Ao longo da história e atualmente, os grandes projetos são torres de Babel, mas terão pernas curtas, não irão adiante, porque estão recheados de mentiras e de contradições e também porque a luz e a força divina brilham no povo que está nas lutas coletivas jogando areia na engrenagem desses megaprojetos de morte. Entre estes, se destaca o 3º rodoanel de Belo Horizonte e região Metropolitana que é obra faraônica, autoritária, eleitoreira, ecocida, hidrocida, cavalo de troia, que, se construído, será Rodominério, RodoDesastre, RodoConurbação, RodoEspeculação etc. Por isso, este megaprojeto do rodoanel/rodominério exige rechaço implacável e não pode nem ser iniciado.



2 - Um Bezerro de Ouro como deus (Êxodo 32,1-6)

Após escapulir das garras do imperialismo egípcio, caminhando no deserto, sentindo a falta do líder Moisés, o povo, que já tinha amargado uns 500 anos debaixo do megaprojeto escravocrata dos faraós, escorregou e caiu feio na tentativa de manipular Javé, Deus solidário e libertador dos explorados. Pressionaram outra liderança já cooptada, Aarão: “Faça para nós um deus que caminhe à nossa frente” (Ex 32,1). As primeiras comunidades cristãs, sentindo as agruras dos templos de Jerusalém e de outros templos do império romano, e também sob o tormento da sinagoga enrijecida, ao fazer retrospectiva histórica, recordam que o povo “voltou” ao Egito ao dizer a Aarão: “Faça para nós deuses que nos guiem, porque não sabemos o que aconteceu com esse Moisés que nos tirou do Egito” (At 7,40). Projeto estúpido, pois como pode a criatura criar o criador? Queriam reduzir Javé a um ídolo, deus manipulável. Mas com o que seria feito o ídolo? “Tirem os brincos de ouro de suas mulheres, filhos e filhas, e tragam aqui” (Ex 32,2), bradou Aarão, em uma postura populista. Triste. Com o luxo da minoria dominante fizeram a estátua de um bezerro de ouro. Pior: saudaram o ídolo construído, mentindo: “Israel, este é o seu deus, que tirou você do Egito” (Ex 32,4). Desencadeou-se uma cascata de idolatria. Construíram altar diante do bezerro de ouro (Ex 32,5). Pararam de marchar no deserto rumo à terra prometida. Ofereceram holocaustos e sacrifícios. Ao invés de levantar para caminhar e lutar pelos seus direitos, o povo sentou-se, não para assembleiar-se, nem para uma celebração libertadora; levantou-se, não para marchar, mas para se divertir, “para comer e beber”, o que apregoa os sistemas de morte. Era a recaída no sistema do imperialismo egípcio. Era a reintrojeção e assimilação dos ídolos que tanto os oprimiam. O livro de Atos dos Apóstolos, na Bíblia, diz: “voltaram ao Egito” (At 7,39), ao fazer o bezerro de ouro e cultuá-lo em uma megaidolatria.

Há muitas narrativas bíblicas que versam sobre a rebeldia do povo durante a caminhada de libertação no deserto rumo à terra prometida. Inúmeras vezes o povo recai e resolve voltar ao modus vivendi do Egito opressor. Moisés intercede a Javé pedindo que perdoe o povo. Deus perdoa inúmeras vezes, mas a idolatria do bezerro de ouro é um divisor de águas na postura de Javé. Se antes da confecção do ídolo bezerro de ouro Javé sempre perdoava, agora, após o bezerro de ouro, Javé não perdoará mais, porque o povo se tornou cabeça dura. Inicia-se a profecia de julgamento, da ira de Javé. Logo, buscar manipular o Deus da vida, mistério de infinito amor, é algo inadmissível. É fechamento no egocentrismo. É o que fazem os que usam e abusam do nome de Deus para criar uma fachada de honestidade, mas com objetivos escusos de empurrar goela abaixo políticas genocidas que causam morte e retrocesso em todas as áreas, como as que reinam no Brasil atualmente.

No discurso mais radical e revolucionário de Atos dos Apóstolos, o diácono Estevão, na iminência de ser linchado, discursa se defendendo: “... Naqueles dias, construíram um bezerro, ofereceram um sacrifício ao ídolo e celebraram a obra de suas próprias mãos (At 7,41). Estevão cita a idolatria no deserto para afirmar que desde a origem o povo de Deus tem sido rebelde e propenso a voltar-se para ídolos.

Parte do povo da Bíblia não somente adorou um bezerro de ouro, mas também “hostes do céu” (cf. 1 Rs 22,19; Jr 7,18; 19,13; Nee 9,6 (LXX)), o que denota estrelas e outros corpos celestiais e alguns espíritos ou anjos que governam os seus movimentos (At 7,42). Sem lideranças autênticas a marcha libertária não prossegue. Moisés, possuído por uma ira santa, queima o bezerro de ouro e o transforma em pó. Com idolatria não se brinca. Militante que é apaixonado pela causa dos oprimidos e com eles comunga as lutas libertárias deve ter a grandeza de gritar quando a luta se desencaminha. “Quem estiver do lado de Javé, venha até mim” (Ex 32,26), bradou Moisés. Enfim, megaprojetos beneficiam o grande capital. O que beneficia o povo é pequenos projetos multiplicados aos milhares.[2]

20/04/2021

Obs.: Os vídeos nos links, abaixo, ilustram o assunto tratado acima, especificamente sobre um megaprojeto: o de se construir mais um Rodoanel em Belo Horizonte e Região Metropolitana.

1 – Frei Gilvander aponta brutal devastação socioambiental que Rodoanel causará em BH e RMBH - Vídeo 5

2 - "O Rodoanel/RODOMINÉRIO causará brutal devastação em Belo Horizonte e RMBH" (Alenice Baeta). Vídeo 2

3 - "Rodoanel será Rodominério para Vale S/A ampliar mineração." (Henrique Lazarotti - Vídeo 1 - 15/4/21

4 - Rodoanel - Rodominério - e seus impactos ao Meio Ambiente na Região Metropolitana de Belo Horizonte, MG.

5 - Live – RODOANEL, RODOMINÉRIO! Escassez hídrica e os Impactos do Rodoanel em BH e RMBH.

6 - LIVE 33 - IMPACTO DO RODOANEL EM BETIM E REGIÃO METROPOLITANA

7 – Audiência Pública na Comissão Externa da Câmara Federal que acompanha o Acordo da Vale S/A com o Governo de MG, audiência CONTRA o Rodoanel/Rodominério em Belo Horizonte e Região Metropolitana – 15/4/2021.

https://www.camara.leg.br/evento-legislativo/61001

 



[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente da CPT, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH e de Teologia bíblica no SAB (Serviço de Animação Bíblica), em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.com  – www.gilvander.org.br  – www.freigilvander.blogspot.com.br       –       www.twitter.com/gilvanderluis         – Facebook: Gilvander Moreira III

 

[2] Gratidão à Carmem Imaculada de Brito, doutora em Sociologia Política pela UENF, que fez a revisão deste texto.

terça-feira, 13 de abril de 2021

Rodominério, NÃO; Meio Ambiente, SIM! Por Frei Gilvander

 Rodominério, NÃO; Meio Ambiente, SIM! Por Frei Gilvander Moreira[1]

Vivemos um tempo perigoso. O capitalismo, máquina de moer vidas, está funcionando a todo vapor, triturando vidas de bilhões de pessoas e de outros seres vivos da biodiversidade. Estamos em tempos de fundamentalismos, de céus povoados de anjos e entidades, de demônios por todos os lados, de gritaria de deuses, de promessas, de busca insaciável de bênçãos, de necessidade de expiação, de moralismos, de religiões sem Deus, de salvações sem escatologia, de cristianismos light, de libertações que não vão muito além da autoestima. Enfim, tempos de autoajuda, de dar um jeitinho para ir empurrando a vida.

Clamores ensurdecedores brotam dos porões da humanidade. “Gemendo em dores de parto”, a mãe Terra clama para ser salva, pois está sendo crucificada impiedosamente pelos grandes projetos capitalistas. Medo, insegurança e instabilidade atingem a todos/as. Atualmente insiste em imperar uma mística antievangélica do descompromisso com os pobres e com a luta por justiça. Os pobres, além de empobrecidos, são marginalizados, injustiçados e acusados de serem os responsáveis primeiros pela sua situação de miséria. Inverte-se a realidade: os verdugos tentam parecer bons samaritanos. Pela ideologia dominante, as vítimas são consideradas vagabundas, irresponsáveis e bagunceiras.

Neste contexto dramático e no meio da mais letal pandemia dos últimos cem anos, o (des)governador de Minas Gerais anunciou recentemente o Projeto de construir o 3º rodoanel em Belo Horizonte e Região Metropolitana (RMBH). Belo Horizonte (BH) já tem dois: a Av. do Contorno e o Anel Rodoviário. Com cerca de 6 milhões de pessoas, BH e as 34 cidades que conformam sua região metropolitana constituem a terceira maior aglomeração urbana do país, representando em torno de 40% da economia e 25% da população do estado de Minas Gerais. Se for construído, o rodoanel será na prática rodominério para a Vale S/A e outras mineradoras ampliarem mineração em BH e RMBH e poderá estrangular o abastecimento público de água em Belo Horizonte e RMBH, pois passaremos da crise hídrica ao colapso e exaustão hídrica para 6 milhões de pessoas.

A previsão é que o rodoanel tenha 100,6 quilômetros, pista dupla (autoestrada ‘da morte’, de “1º mundo”), com quatro alças: Norte, Sul, Oeste e Sudoeste. O governo de MG investirá 4,5 bilhões de reais, dinheiro oriundo da Vale S/A mediante o Acordão do Governo Zema com a mineradora ignorando a dor e os direitos das comunidades atingidas na bacia do rio Paraopeba pelo crime/tragédia da Vale a partir de Brumadinho, MG. Preveem-se cinco anos de obras para construí-lo mediante concessão para uma grande empresa, via Parceria Público-Privada (PPP) para construir, implantar, operar e manter durante décadas. Serão desapropriados terrenos e imóveis em uma faixa de 170 a 400 metros de largura, mais ou menos, em uma extensão de mais de 100 quilômetros. Serão milhares de desapropriações, que serão paulatinas, uma alça de cada vez. A 1ª desapropriação será em 2023, ou seja, após as eleições de 2022. Projeto eleitoreiro. Para evitar adensamento populacional ao lado, o rodoanel terá acessos reduzidos, só de oito em oito quilômetros. Ou seja, na prática, o rodoanel (rodominério) será uma ‘muralha’ com mais de 100 quilômetros de extensão que irá sitiar, confinar, ilhar ou separar centenas de bairros em 13 municípios da RMBH. Eis um “critério de seleção da empresa construtora: Menor valor de contrapartida pelo poder concedente, o Estado”. Critério capitalista que privilegia as maiores empresas.

Desde 2007, já houve várias licitações para construir este rodoanel, alças Norte e Oeste, mas foram todas anuladas. Por que não esperar o fim da pandemia para discutir com o povo este megaprojeto? Dizem que “o traçado proposto é uma diretriz, podendo a concessionária modificá-lo, na hipótese da evolução dos projetos indicar soluções de melhor viabilidade.” Absurdo! A empresa construtora poderá definir o trajeto, onde passar, o que afetar ou não. Isso é liberdade total para os interesses do grande capital. Está previsto “preço quilométrico de pedágio por câmeras: R$ 0,35/Km.” Ou seja, para percorrer os 100,6 quilômetros do rodoanel, um automóvel pagará R$35,21 de pedágio. Futuramente este valor aumentará, provavelmente. Dizem que terá “menos 10% de emissão de CO2”. Mentira. Se aumentará o trânsito, como diminuirá a emissão de CO2?

O projeto do rodoanel ignora que todas as cidades da Região Metropolitana de BH já foram conectadas por ferrovias com linhas de trens de passageiros transportando o povo até a capital mineira. Para melhorar os problemas de mobilidade o justo e necessário é resgatar as linhas de trens entre as 34 cidades da RMBH e restabelecer o transporte de passageiros via trens entre todas as cidades da RMBH reconectando-as com BH, ampliar o metrô para a RMBH e superar as injustiças reinantes no transporte público através de ônibus. Não é ético usar dinheiro da reparação de um crime/tragédia que matou 273 pessoas, o rio Paraopeba e violentou brutalmente milhares de pessoas e comunidades para construir infraestrutura que vai beneficiar o grande capital. E, acima de tudo, a reparação do crime da Vale S/A precisa ser para fortalecer as condições de vida: fazer saneamento, produção de alimentos saudáveis de forma agroecológica e indenizar os/as atingidos/as de forma integral. Descentralizar a megalópole é o caminho, o que exige preservar o meio ambiente.

O projeto do Rodoanel ignora o caráter imprescindível do Parque Estadual Serra do Rola Moça para o estado, para os municípios e para a biodiversidade. Ignora e sacrifica mananciais que abastecem BH e RMBH. Sacrificará milhares de famílias que vivem da agricultura familiar. Violentará fauna, flora, nascentes, cachoeiras, Mata Atlântica, cerrado com campos rupestres, cavernas, áreas de proteção ambiental e agredirá patrimônio histórico, arqueológico e cultural, como sítios arqueológicos, cavernas com pinturas rupestres, cemitérios, entre outros. Comunidades quilombolas também serão afetadas. Assim, o projeto do rodoanel (Rodominério) é obra faraônica, autoritária, eleitoreira, ecocida, hidrocida, cavalo de troia etc. Por isso, o projeto do rodominério exige rechaço implacável e não pode nem ser iniciado.

A chegada de um grande projeto é sempre envolvida por campanha publicitária espetacular que anuncia estar chegando à região uma alavanca de desenvolvimento social, geradora de emprego e que não irá causar grandes males à já tão sofrida natureza, à biodiversidade e às pessoas. Chefes da política, da economia e até da religião são cooptados e muita gente seduzida. Assim, o povo acolhe esses grandes projetos como se fossem benfeitores que trarão emprego e melhorias sociais, mas, logo, descobre que se geram poucos empregos e, não raras vezes, em condições análogas à de escravidão. Acontece o que ensina a Fábula do Escorpião e o Sapo, que narra: Um escorpião pede a um sapo que o leve através de um rio. O sapo tem medo de ser picado durante a viagem, mas o escorpião argumenta que não há motivo para o sapo temer tal traição, pois se picasse o sapo, esse afundaria e o escorpião da mesma forma iria junto afogar.  O sapo concorda e começa a carregar o escorpião, mas no meio do caminho, o escorpião, de fato, aferroa o sapo, condenando ambos. Quando perguntado por quê, o escorpião responde que esta é a sua natureza. Isso mesmo: a natureza do capitalismo é aferroar vidas o tempo todo e cada vez com mais veneno. O funcionamento do capitalismo exige expansão, crescimento sem limites. Isso é impossível, pois a natureza precisa de tempo para se recuperar das agressões. A mercadoria, base da acumulação do capital, destrói o ambiente e explora os trabalhadores. Portanto, não dá mais para acreditar que na nossa caminhada na vida o capitalismo seja a melhor companhia.

As cidades, a partir das metrópoles, estão se tornando cidades empresas com muitos megaprojetos que são verdadeiras torres de Babel. A gula especulativa das grandes empresas e dos seus acionistas parece não ter fim. Os pobres estão sendo expulsos para as periferias das periferias. A história, a cultura e a dignidade humana vão sendo tratoradas para dar lugar a arranha-céus, outras torres de Babel. Faz bem recordar que Deus criou, nas ondas da evolução, tudo em seis dias e no sétimo dia descansou. Conta-se que alguém teria perguntado a Deus porque ele resolveu descansar após o sexto dia. Deus teria dito que já tinha criado tudo com muito amor e para o bem da humanidade e de toda a biodiversidade. Quando viu que faltava criar a cidade, o Deus criador concluiu que era melhor descansar.

A estrutura de violência e de exclusão está fragmentando as multidões, deixando as pessoas em cacos. É hora de recompor os cacos em um grande e articulado mosaico.  É hora de reintegrar as nossas forças e energias vitais para superarmos o sistema do capital e construirmos uma sociedade do Bem Viver, com justiça agrária, justiça urbana, justiça socioambiental, justiça social e justiça geracional. Tudo isso exige: “Rodominério, NÃO; Preservação ambiental, SIM!”[2]

13/04/2021

Obs.: Os vídeos nos links, abaixo, ilustram o assunto tratado acima.

1 - Rodoanel - Rodominério - e seus impactos ao Meio Ambiente na Região Metropolitana de Belo Horizonte, MG.

2 - Live – RODOANEL, RODOMINÉRIO! Escassez hídrica e os Impactos do Rodoanel em BH e RMBH.

3 - LIVE 33 - IMPACTO DO RODOANEL EM BETIM E REGIÃO METROPOLITANA



 



[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente da CPT, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH e de Teologia bíblica no SAB (Serviço de Animação Bíblica), em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       www.twitter.com/gilvanderluis        – Facebook: Gilvander Moreira III

 

[2] Gratidão à Carmem Imaculada de Brito, doutora em Sociologia Política pela UENF, que fez a revisão deste texto. 

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Brasil na UTI: e agora? Por Frei Gilvander

 Brasil na UTI: e agora? Por Frei Gilvander Moreira[1]



É tempo de Páscoa, mas o Brasil continua afundado em uma das maiores sexta-feira da paixão da nossa história. Sob as boas energias da Páscoa, que é passagem da escravidão para a libertação de todas as correntes, com a alegria da presença de Jesus Cristo ressuscitado no nosso meio, em nós, nos empobrecidos e em todos/as os/as crucificados/as da história, em todas as forças de vida, temos que seguir a luta pela salvação do povo brasileiro. A quaresma de 2021 passou, mas a quarentena que a pandemia requer precisa continuar e com maior rigor. A Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021 terminou, mas tornou-se necessário encararmos de forma permanente a luta para que o tema “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” se torne uma realidade perene no nosso conviver social.

Escrito cerca de 40 anos após os acontecimentos, no Evangelho de Marcos, na Bíblia, em Mc 15,33-41 podemos encontrar uma cena altamente eloquente: Jesus de Nazaré crucificado. “Escuridão sobre toda a terra”. Jesus exclama: “Eloi, Eloi, lamá sabactâni?”, que quer dizer: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” [...] “Jesus lançou um forte grito, e expirou. A cortina do santuário se rasgou de alto a baixo, em duas partes. Um oficial do exército, que estava bem na frente da cruz, viu como Jesus havia expirado, e disse: “De fato, esse homem era mesmo Filho de Deus!””. De fato, condenaram um justo e inocente, que de tão humano se tornou Filho de Deus, à pena de morte, sob crucifixão – a pena mais execrável imposta pelo Império Romano -, após processo falso, sob a presidência de juízes suspeitos e parciais, em duas instâncias: 1) uma religiosa, sob Caifás, sumo-sacerdote, que presidia o sinédrio - um tipo de senado religioso, administrativo e jurídico – dominado por saduceus, os grandes invasores de terra da época que expropriavam os camponeses empurrando-os para a miséria; 2) e uma instância política, sob Pilatos, governador imposto pelo Imperialismo Romano, que “lavou as mãos”, mas pela neutralidade impossível ficou com as mãos suja de sangue, pois “entregou Jesus para ser crucificado”.



Com essa trama brutal dos podres poderes da época, só podia mesmo resultar em “noite escura sobre toda a terra”. Por ter se tornado sumamente humano, Jesus Cristo sente o horror da crueldade que lhe era imposta e clama: ‘Por que está acontecendo isso comigo? Meu Deus me abandonou?’ Eis uma experiência profundamente humana. Quando uma tragédia se abate sobre nós, as primeiras perguntas são: Por que isso? Tem a mão de Deus nisso? Entretanto, precisamos afastar e banir a interpretação bíblico-teológica que chega ao absurdo de afirmar que Jesus Cristo teria sido crucificado, porque Deus quis para nos salvar da condenação após a morte. Esta afirmação é absurda e execrável, por vários motivos: 1) Um Deus que quisesse a morte do seu filho seria um deus sádico e masoquista, não seria Deus, Pai e Mãe de infinito amor; 2) Não podemos espiritualizar e negar a trama histórica acontecida, que diz que Jesus foi condenado à morte, torturado e crucificado, porque pelo seu ensinamento libertador e por sua práxis transformadora, ele consolava quem estava sendo injustiçado/a e, assim, incomodava muito os opressores que eram titulares dos poderes religioso, político e econômico; 3) Jesus Cristo se tornou servo sofredor e doou sua vida por amor ao próximo, testemunhando que o caminho para construirmos uma verdadeira Páscoa inclui necessariamente doar a vida pelo próximo colocando em prática a lógica do amor e os princípios da misericórdia e da indignação contra toda e qualquer injustiça. Isso desmascara os opressores e exploradores.

A ressurreição de Jesus Cristo atesta que faz história e aponta o caminho justo a seguir quem se doa ao próximo construindo uma sociedade justa, solidária, (macro)ecumênica, sustentável ecologicamente e respeitosa quanto à imensa diversidade cultural. Por outro lado, foi, é e sempre será jogado na lata de lixo da história os opressores e exploradores, os que adoram na prática o ídolo capital. Nas entrelinhas, Jesus crucificado pergunta: “Meu Deus, meu Deus, para que me abandonaste?” Diante desta pergunta, nas entranhas da história, o Deus de infinito amor responde: ‘Não te abandonei. Os opressores te condenaram à morte cruel, mas eu estou contigo, porque te amo imensamente assim como amo todos/as os/as outros/as bilhões de filhos/as. Desta brutalidade surge um sinal: que todos/as sigam o seu exemplo, vivendo e lutando como você, meu amado filho viveu e lutou’.

“A cortina do templo se rasgou”. Ou seja, o projeto de Jesus rompeu radicalmente com o projeto dos podres poderes acumpliciado com o Império Romano. E também não há mais separação entre história profana e história da salvação. Há uma única história e é nas entranhas da história que o divino age e está ressuscitado no nosso meio. Por fim, é olho-no-olho, cara-a- cara, que até um ser humano usado para reproduzir a escravidão e a superexploração do Império Romano, um soldado, concluí: “Realmente, este crucificado é Filho de Deus!”



O povo brasileiro continua afundado em uma das maiores sexta-feira da paixão da nossa história. Mais de 340 mil irmãos e irmãs nossos já foram crucificados pela covid-19 e pela política de morte genocida em curso no Brasil. “Eu não consigo mais respirar”, clamam pedindo socorro milhares de irmãos e irmãs nossos entubados ou na fila de espera por uma UTI. A espada de dor da fome voltou a golpear milhões de corações de mães que ouvem seus filhos pedindo pão e não têm para lhes oferecer. O coronavírus está sendo letal para milhões em todo o mundo. Quem tem fome tem pressa, pois a fome mata como uma bomba que implode a pessoa por dentro e impõe morte lenta. Em 2,3 anos, com a política de morte do inominável antipresidente, o povo brasileiro empobreceu a níveis de “50 anos” atrás. Ai de quem negar os sinais dramáticos da brutalidade da pandemia da covid-19 e do desgoverno dos fascistas e genocidas que se apossaram do poder no Executivo Federal e está também em cerca de 70% do Congresso Nacional e com tentáculos no Supremo Tribunal Federal (STF), em empresários que adoram o ídolo capital e em pessoas cegadas por fake news disseminadas por fundamentalistas que dizem defender abstratamente a família, mas não praticam o que dizem, estão matando milhões de famílias aos poucos, de muitas formas!

Os sinais são alarmantes. O número de mortos pela covid-19 e de difusão do contágio segue aumentando dia a dia. Só em março último, foram 66 mil mortos no Brasil, número maior do que o número de vítimas no mesmo período em 109 países. Já ultrapassamos a média de 3 mil mortos por dia. E os dados oficiais de hospitais brasileiros apontam que o número de mortes por covid-19 já pode ter passado de 443 mil, quase 120 mil a mais que as estatísticas divulgadas pelo desgoverno federal. A mesma estimativa aponta que morrem cerca de 4 mil pessoas por dia no país. Pelos registros oficiais, com apenas 3% da população mundial, o Brasil tem 33% das mortes por dia no mundo.  Pesquisa da Universidade de Washington e de vários pesquisadores brasileiros, entre os quais o neurocientista e professor catedrático da Universidade Duke (EUA) Miguel Nicolelis, prevê para abril 100 mil mortos pela covid-19 podendo chegar em julho de 2021 com quase 600 mil mortos. Estão em falta vários tipos de remédios necessários para cuidar dos milhares que estão internados em UTIs. Assim, de abril a junho poderemos ter cerca de 300 mil mortos, o que levará o Brasil ao colapso funerário e a um ponto de não retorno da pandemia. Segundo o professor Miguel Nicolelis, esse colapso funerário resultará em contaminação do solo, do subsolo, dos lençóis freáticos, podendo eclodir muitas outras doenças epidêmicas gravíssimas. Todos os alertas dos cientistas têm se cumprido.

Repudiamos com veemência a decisão do ministro Nunes Marques, do STF, de 03 de abril, que determinou a abertura de igrejas para cultos/celebrações, fazendo, assim, uso político do Judiciário para favorecer interesses econômicos de grupos, inclusive religiosos, amparado em falsas e grosseiras motivações constitucionais. A liberdade de culto não pode comprometer outros direitos como a saúde e a vida das pessoas. Malditos os falsos religiosos que abusam da fé dos pobres para se enriquecerem, estão mais interessados no dízimo do que em cuidar espiritualmente das pessoas. Caso o plenário do STF não casse a decisão injusta do ministro Nunes teremos um aumento do contágio e daqui a 15 dias veremos o aumento do número de pessoas com covid-19 e de mortos. Prescrever que haja cultos com apenas 25% da capacidade das igrejas é medida insana, porque no 1º dia após a decisão vimos pelo Brasil afora centenas de igrejas lotadas. As prefeituras e a Polícia Militar não têm efetivo suficiente para fiscalizar todas as igrejas. O descontrole da pandemia exige com urgência o que já foi feito em vários países bem governados: lockdown nacional rígido de pelo menos 30 dias, sem aglomerações, com circulação apenas de atividades essenciais, com fechamento de portos, aeroportos, rodovias e rodoviárias. Tornou-se questão de vida ou morte: evitar aglomerações, levar a sério as medidas sanitárias de distanciamento social e corporal, uso correto de máscaras, higienização das mãos com frequência, vacinação de pelo menos 2 milhões de pessoas por dia, auxílio emergencial justo e digno, de, pelo menos, 600 reais para mais de 60 milhões de pessoas até o fim da pandemia, políticas públicas que garantam a vida das micro, pequenas e médias empresas. Quem no desgoverno federal e no Congresso Nacional determinou o fim do Auxílio Emergencial de 600 reais em dezembro de 2020 e a recriação somente de uma migalha de 250 reais apenas após três meses sem nenhum auxílio está sendo cúmplice do genocídio do povo e está com as mãos encharcadas de sangue. Não dá mais para tolerarmos a cumplicidade de 70% dos deputados/as e dos/as senadores/as e de parte do STF com o genocídio protagonizado pelo desgoverno federal. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e o presidente da Câmara Federal, Arthur Lira, ao não colocarem em votação os mais de 60 pedidos de impeachment do antipresidente, estão sendo cúmplices do genocídio em curso. O STF também está tolerando o intolerável: política de morte que viola com requintes de crueldade a Constituição Federal. Na prática, o Congresso Nacional e o STF estão tentando servir a dois senhores: o mercado idolatrado (interesses do grande capital) e a vida do povo, oferecendo apenas migalhas para a parte mais empobrecida da população e bilhões para os banqueiros, por exemplo. Com medidas paliativas, a pandemia seguirá se agravando e matando massivamente. O Evangelho de Mateus registra que para Jesus Cristo “ninguém pode servir a dois senhores. Vocês não podem servir a Deus e ao capital” (Mt 6,24).

Enfim, quanto mais continuar só com vacinação a conta gotas, sem auxílio emergencial justo e digno e sem lockdown sério, só aumentarão os milhares de mortos; podendo chegar a mais de 1 milhão. E a quem está resistindo, sugiro já ir treinando e se acostumando a viver com pouco, de forma simples e austera, pois nunca mais será possível voltar ao “normal capitalista de antes”. Precisamos voltar ao estilo de vida dos povos originários, dos indígenas, Povos e Comunidades Tradicionais: conviver de forma respeitosa com a natureza e cultivar um estilo de vida simples.[2] Eis a condição para a humanidade não ser extinta da nossa única Casa Comum, o planeta Terra.

07/04/2021

Obs.: Os vídeos nos links, abaixo, ilustram o assunto tratado acima.

1 - “Brasil à beira de colapso funerário, do ponto de não retorno da pandemia”, alerta Miguel Nicolelis

2 - Live - FRATERNIDADE E DIÁLOGO: LUTA PELA VIDA. Feliz Páscoa com vacina, já! E Fora, Bolsonaro!

3 - Saúde e Educação em Tempos de Pandemia. Vacina, Já! Auxílio Emergencial, já! Fora, Bolsonaro, já!

4 - Margareth Dalcomo, da Fiocruz: "Teremos o março mais triste de nossas vidas." 14/3/2021

5 - "Não tenho ar": o desespero de brasileiros na semana mais letal da pandemia - Fantástico - 07/3/2021

6 - Bolsonaro é “imoral” e “genocida”, afirma o Padre Adauto Tavares, da Paraíba, em missa – 04/03/2021



 

 

 



[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente da CPT, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH e de Teologia bíblica no SAB (Serviço de Animação Bíblica), em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       www.twitter.com/gilvanderluis        – Facebook: Gilvander Moreira III

 

[2] Gratidão à Carmem Imaculada de Brito, doutora em Sociologia Política pela UENF, que fez a revisão deste texto.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Páscoa em tempos de pandemia. Por Frei Gilvander

 Páscoa em tempos de pandemia. Por Frei Gilvander Moreira[1]



 

Com quase 3 mil por dia, já ultrapassando no Brasil 312 mil mortos pela pandemia da covid-19, potencializada pela política de morte (necropolítica), planejada e executada para ser genocida, sob coordenação do antipresidente e de todo o desgoverno federal com a cumplicidade da maioria dos senadores e deputados/as, e do Supremo Tribunal Federal (STF), o povo brasileiro está afundado em uma das mais brutais “sexta-feira da paixão” da história do Brasil. Como celebrar a Páscoa de Jesus Cristo e nossa páscoa em meio a milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas? Como e onde encontrar forças e luzes para construirmos um domingo de ressurreição com condições de vida digna para todos/as? Como ter esperança de uma nova aurora em meio a tantas trevas?

Para encontrarmos forças e luzes para superarmos a gravíssima noite escura do capitalismo, da pandemia e do desgoverno fascista precisamos de vários instrumentos. Entre eles um se destaca: o de reconhecer as mais profundas lições da história.  Vejamos: segundo o Evangelho de Mateus, em Mt 2,1-12, após driblar o rei Herodes e encontrar o menino Jesus nascido na periferia, no meio dos marginalizados, os magos “seguiram por outro caminho”, não o caminho que passava pelo rei Herodes, opressor, repressor, sanguinário, genocida. Não podemos ser contaminados pelos complexos da impotência e da pequenez, disseminados pela ideologia dominante, que levam as pessoas a dizerem: “Não podemos fazer nada. Só Deus pode. Não temos poder de mudar esta situação!” Podemos transfigurar a realidade de morte, sim, muito mais do que às vezes pensamos. Em um contexto de grande opressão e de superexploração, onde as pessoas justas e inocentes são violentadas e veem os injustos tramando todo tipo de mal, há pessoas justas que tendem a passar para o lado dos opressores. Na Bíblia, o Salmo 72 no versículo 15 alerta: “Mas se eu falar como eles, se eu pensar e agir como eles, estarei traindo os nossos pais”, nossos ancestrais, os profetas, as profetisas, os/as mártires. É hora de nos voltarmos para os Povos Originais – indígenas -, Comunidades Tradicionais e para os Movimentos Sociais Populares que apontam o caminho: nos irmanarmos aos injustiçados/as e participar de suas lutas por todos os direitos. Perceber que há luz não apenas no fim do túnel, mas no meio do túnel também. É hora de ouvir e levar a sério as orientações e os alertas dos/as infectologistas/os, dos/as epidemiologistas e das pessoas que de fato estão construindo uma sociedade justa.

Há quase 2.000 anos ecoa uma notícia revolucionária dada em primeira mão por Maria Madalena, “apóstola dos apóstolos”, mulher que amava muito, era muito solidária e lutava contra toda e qualquer injustiça. Irradiando alegria, a partir do túmulo de Jesus de Nazaré, Maria Madalena saiu correndo e anunciando por todos os cantos e recantos: “Jesus está vivo, ressuscitou!” A Ressurreição de Jesus marca a vida das comunidades, animando-as no sentido de que o poder da morte não tem a última palavra. Bateram em ferro frio os chefes dos podres poderes da religião, da política e da economia, ao pensar que condenando Jesus de Nazaré à pena de morte, poriam fim ao movimento popular e religioso de fraternidade real, testemunhado e ensinado pelo Galileu da periferia da Palestina. Celebrar a Páscoa de Jesus de Nazaré é momento oportuno para revigorar nossa fé no Deus da vida, fé na humanidade, fé nos oprimidos e explorados, fé na Mãe Terra, na irmã água, em todas as fontes de vida e fé em nós mesmos. É também momento propício para celebrarmos todas as lutas do passado e do presente. Lutas por direitos fundamentais. Lutas que demonstram que só perde quem não se compromete com a realização dos desafios coletivos por direitos ou simplesmente desiste da luta. Quem persevera na luta dos Movimentos Sociais Populares conquista direitos, mais cedo ou mais tarde. O preço da liberdade é a vigilância constante.

O sentido da Páscoa não pode ser privatizado por expressões religiosas que desencarnam a fé cristã e amputam a dimensão social da fé judaico-cristã. A fé na ressurreição de Jesus Cristo não garante apenas vida após a morte. É preciso não esquecer que a Páscoa Judaica, origem da Páscoa Cristã, diz respeito à libertação dos povos escravizados no Egito pelo imperialismo dos faraós. Páscoa é passagem da escravidão para a libertação, nos vários aspectos da vida humana. Por isso, Páscoa envolve reunir os injustiçados, atravessar os “mares vermelhos”, marchar rumo à terra prometida – terra partilhada, democratizada e socializada – e enfrentar os grileiros e especuladores de terra lutando para conquistá-la. A Páscoa cristã atesta que Jesus de Nazaré, mesmo sendo inocente e justo, foi condenado pelos podres poderes da religião, da economia e da política à pena de morte, mas ressuscitou e está vivo em nós e em todos/as que lutam pela construção do Reino de Deus a partir do aqui e do agora. O sonho ensinado e testemunhado por Jesus de Nazaré jamais será morto. Os opressores serão jogados na luta de lixo da história. Entrará para a história quem “combater o bom combate” e perseverar na fé de Jesus Cristo, colocando em prática a dimensão social do Evangelho.

A igreja é constituída por uma grande unidade na diversidade e muitas vezes com graves contradições internas. Lamentavelmente, estamos colhendo as consequências de 34 anos de pontificado de João Paulo II e Bento XVI que incentivaram a privatização da fé, a adoção de espiritualismos, dogmatismos, moralismos marcados pela desencarnação da fé cristã e amputação da dimensão social do Evangelho de Jesus Cristo. Essas posturas religiosas empurraram o povo para os braços dos fascistas e genocidas, para políticas de morte. Por outro lado, graças a Deus, nosso querido papa Francisco coordena e anima a igreja no sentido da missão libertadora, (macro)ecumênica e transformadora, reafirmando a Opção pelos Pobres, a inculturação e animando o compromisso de todas as pessoas de boa vontade com a construção de uma sociedade do Bem Viver e Conviver. As Encíclicas Laudato Sí (Louvado Sejas) e Fratelli Tutti (Todos/as somos irmãos/ãs) apontam o rumo: compromisso com construção uma sociedade justa economicamente, o que passa pela superação do capitalismo, que é uma máquina de moer vidas; uma sociedade com sustentabilidade ecológica, o que passa necessariamente por colocar em prática o princípio da Ecologia Integral garantindo, assim, condições objetivas que garantam a preservação de todos os biomas.

Com a ressurreição de Jesus ficou decretado que as utopias jamais morrerão, os sonhos de libertação jamais serão pesadelos, a luta dos oprimidos e injustiçados será sempre vitoriosa (ainda que custe muito suor e sangue) e as forças da Vida terão sempre a última palavra. Por mais cruéis que sejam, todas as tiranias, opressões, corrupções e guerras passarão.  O papa Francisco tem claramente anunciado a defesa da vida que passa pela superação do capitalismo, “sistema de morte”.[2] 

 31/03/2021

Obs.: Os vídeos nos links, abaixo, ilustram o assunto tratado acima.

1 - Sentido da Páscoa: as utopias jamais passarão! Frei Gilvander rumo ao XV Intereclesial das CEBs

2 - Palavra Ética, na TVC/BH, c/ Frei Cláudio van Balen: Deus, Páscoa e Religião. 12/04/14

3 - Na missa de Páscoa do Padre Nelito Nonato Dornelas, em Abre Campo, MG, 05/2/2021: amor, justiça e fé

4 - Dom Pedro Casaldáliga, o Profeta que viveu e lutou entre nós, faz sua Páscoa definitiva - 08/8/2020

5 - Dom Vicente em missa de Páscoa no Córrego do Feijão, Brumadinho/MG. Vídeo 2. 21/4/19



 

 

 

 



[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente da CPT, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH e de Teologia bíblica no SAB (Serviço de Animação Bíblica), em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       www.twitter.com/gilvanderluis        – Facebook: Gilvander Moreira III

 

[2] Gratidão à Carmem Imaculada de Brito, doutora em Sociologia Política pela UENF, que fez a revisão deste texto.

 

sábado, 27 de março de 2021

“Mataram Irmã Dorothy”, mas ela vive em nós, na luta pela Amazônia. Por Frei Gilvander

“Mataram Irmã Dorothy”, mas ela vive em nós, na luta pela Amazônia. Por Frei Gilvander Moreira[1]

Irmã Dorothy Stang


Outro dia fui convidado para apresentar um “filme de combate” para um site[2] do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação Social da UFMG[3].  Feliz com o convite, decidi apresentar o Documentário “Mataram Irmã Dorothy”, com direção de Daniel Junge e narração de Wagner Moura, exibido na Discovery e disponibilizado no Youtube e é sobre ele que agora escrevo aqui. Apresento o Documentário “Mataram Irmã Dorothy” por vários motivos expostos a seguir.

Por ser documentário que registra a brutal injustiça agrária e socioambiental que campeia e se reproduz cotidianamente no Brasil, com devastação crescente dos biomas, entre os quais a Floresta Amazônica, e expropriando e expulsando camponeses/as para as periferias das grandes cidades, as novas senzalas. O Documentário “Mataram Irmã Dorothy” registra que em uma manhã de sábado, dia 12 de fevereiro de 2005, irmã Dorothy Stang, uma idosa de 73 anos, foi assassinada à queima-roupa, com sete tiros, por jagunços de latifundiários grileiros de terra no município de Anapu, no oeste do Pará, na Amazônia. Um consórcio de fazendeiros pagou 50 mil reais aos jagunços pela execução de Irmã Dorothy, uma anciã indefesa, que portava apenas uma Bíblia em um embornal. Segundo um sobrevivente e testemunha, ela teria lido um versículo bíblico para os jagunços antes de eles a assassinarem: “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mt 5,6).

Apresento este documentário, porque é uma amostra da cumplicidade do Estado com a violência que campeia no Brasil. Interessante observar as manobras asquerosas feitas pelos fazendeiros mandantes e por seus advogados, que, com acusações absurdas, tentam transformar a vítima Irmã Dorothy em algoz. As cenas de julgamento apresentadas no documentário são amostras de como o judiciário brasileiro trata os crimes das pessoas assassinadas, enquanto defendem com intrepidez os direitos humanos fundamentais. Por exemplo, um dos fazendeiros mandantes do crime foi condenado a 30 anos de cadeia no 1º júri popular. Um ano após, em novo julgamento, esse mandante foi inocentado. E, após titânica luta por justiça, dia 07 de abril de 2009, o julgamento que tinha inocentado o fazendeiro Vitalmiro foi anulado.

O Documentário “Mataram Irmã Dorothy” é muito importante também, porque mostra a longa história de luta da Irmã Dorothy, desde 1967, sendo anjo da Amazônia, uma guia na luta pela terra e guerreira na defesa da Floresta Amazônica. Irmã Dorothy dava força aos posseiros sem terra e denunciava os grileiros que estavam devastando a Amazônia. Em 2009, 1/5 da Floresta Amazônica já tinha sido devastada. Diretora de Saúde Pública e Meio Ambiente da Organização Mundial da Saúde (OMS), a médica María Neira afirma que a pandemia do coronavírus é mais uma prova da perigosa relação entre os vírus e os desmatamentos. Em livro, diz ela: “Os vírus do ebola, sars e HIV, entre outros, saltaram de animais para seres humanos depois da destruição de florestas tropicais.”

O Documentário também mostra a mística e a espiritualidade mais profunda que orientava a atuação da Irmã Dorothy. Para ela, “andar na Floresta Amazônica era como andar nos braços de Deus.” O Documentário revela o infinito amor que Irmã Dorothy tinha para com a Floresta Amazônica e para com os/as camponeses/as que tinham sede de justiça, de terra, de pão e de liberdade. O Documentário “Mataram Irmã Dorothy” apresenta também o pioneirismo da proposta defendida por Irmã Dorothy: a criação do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS), que prescrevia que se podia produzir em 20% do lote no Assentamento, mas exigia-se a preservação de 80% deste. Se esse modelo já era sensato, necessário e justo, agora muito mais com o avanço do desmatamento na era de necropolítica, de “passar a boiada”, conforme acontece no desgoverno do antipresidente genocida Jair Bolsonaro. O desmatamento na Amazônia continua em níveis inaceitáveis.

No Documentário “Mataram Irmã Dorothy” está também um pouco da história do 1º PDS, eloquentemente chamado de Assentamento Esperança, com 600 famílias de posseiros sem-terra que assumiam com afinco o trabalho para produzir alimentos saudáveis em 20% do lote, com a condição de preservar os 80% restantes garantindo, assim, a preservação da Floresta Amazônica. Os testemunhos são muito eloquentes, como o de um camponês que exclama: “Com 55 anos de vida, é o meu 1º lote. Agradeço em primeiro lugar a Deus e depois à Irmã Dorothy.” Muito nos diz também o fato da serraria ser o símbolo do município de Anapu. “Acham que serraria é a vida do município”, denunciava Irmã Dorothy.

Marcante também neste documentário de combate é a postura do Procurador do Ministério Público Federal (MPF), Felício Pontes, que acolhia sempre as denúncias feitas pela Irmã Dorothy e continua atuando de forma idônea e aguerrida para que a justiça agrária se implantasse na região de Anapu. Digno de nota ainda no Documentário é a coragem demonstrada por Irmã Dorothy, que enfrentava de cabeça erguida os latifundiários grileiros de terra e não desistia mesmo diante das inúmeras ameaças de morte. Ela dizia sempre: “Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar”. Irmã Dorothy tombou na luta, foi martirizada, mas se tornou semente de justiça agrária e por preservação da Floresta Amazônica. Irmã Jane Dwer continua a missão da Irmã Dorothy, denunciando: “Houve um consórcio de latifundiários para matar Irmã Dorothy e silenciá-la.”

No Documentário “Mataram Irmã Dorothy” causa repulsa e indignação a postura venal e covarde de Américo Leal, advogado dos latifundiários grileiros. Sem escrúpulo nenhum, com requintes de calúnias e mentiras, defendia que a Irmã Dorothy era a responsável pela sua própria morte. Só faltou ele dizer: “Peço ao júri que condene a 30 anos de prisão a Irmã Dorothy, morta com sete tiros à queima-roupa.” Antes de ser assassinada, Irmã Dorothy “deu nome aos bois’ e apontou quem eram os latifundiários que a ameaçavam. Destemida e cheia de esperança, Dorothy dizia: “Se cai um, mil se levantam.” Mataram não apenas uma pessoa, mas uma bandeira. Irmã Dorothy era cidadã do mundo. Entretanto, Dorothy não foi apenas sepultada, foi semeada e plantada na mãe terra e, agora em vida plena, vive em milhares de militantes na luta pela terra e pela preservação da Floresta Amazônica.

Irmã Dorothy defendia a Amazônia, por amor e porque sabia que lá encontra-se a principal fonte produtora de chuvas em grande parte da América do Sul. O xamã David Kopenawa, do Povo Yanomami, no livro A Queda do Céu, de leitura imprescindível, pergunta: “Será que os brancos não sabem que se acabar com a floresta, acabará com a água e sem água não há vida?” Na Amazônia há muita água no subsolo em aquíferos, no solo, nos rios, lagos e igarapés. Cada árvore centenária da Amazônia exala na atmosfera, por dia, mais de mil litros de água na forma gasosa, como a Sumaúma, uma das maiores árvores da Amazônia. Em toda Amazônia, as árvores com raízes profundas colocam no ar mais de 20 bilhões de toneladas de água por dia. Na atmosfera sobre território da Pan-Amazônia, se formam os rios aéreos voadores. Com as correntes de vento, a umidade produzida no processo de evapotranspiração forma os imensos rios aéreos voadores que, empurrados pelas correntes de ventos, criam as condições objetivas para que aconteçam chuvas no sudeste e no sul do Brasil, no Uruguai, no Paraguai e na Argentina. Esses rios aéreos voadores produzidos na Amazônia transportam uma quantidade maior de água do que os rios que estão na superfície do solo amazônico.

Conhecer de forma profunda a Amazônia se tornou uma necessidade para amarmos e defendermos de forma intransigente a sua preservação. Se não interrompermos com urgência a devastação ambiental da Amazônia, a desertificação da Amazônia causará a desertificação de grande parte do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, o aumento assustador da temperatura e o colapso d’água em várias regiões do Planeta Terra, o que tornará a vida humana impossível no Planeta Terra, nossa única Casa Comum. Imagine o que será da humanidade com a quantidade de dióxido de carbono jogada na atmosfera sem ter a floresta amazônica para absorver!

Enfim, esta minha modesta apresentação do Documentário “Mataram Irmã Dorothy” é apenas um aperitivo. Se você assistir a este documentário, você não será mais o/a mesmo/a, se tornará mais comprometido/a com lutas justas e necessárias. Irmã Dorothy dizia sempre: “A morte da Floresta é o fim da nossa vida”.[4] 

27/03/2021

Obs.: Os vídeos nos links, abaixo, ilustram o assunto tratado acima.

1 - Mataram Irmã Dorothy - Documentário

2 - Homenagens marcam os 16 anos do assassinato da Irmã Dorothy Stang

3 - Celebração dos 10 anos de martírio da Ir. Dorothy Stang

4 - DOROTHY STANG: A LUTA PELO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL | AMBIENTALISTA DA SEMANA | Marcela Miranda



 

 



[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente da CPT, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH e de Teologia bíblica no SAB (Serviço de Animação Bíblica), em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       www.twitter.com/gilvanderluis        – Facebook: Gilvander Moreira III

 

[3] Universidade Federal de Minas Gerais.

[4] Gratidão à Carmem Imaculada de Brito, doutora em Sociologia Política pela UENF, que fez a revisão deste texto.