Blog do frei Gilvander Luís Moreira
Gilvander é frei e padre da Ordem dos carmelitas, Doutor em Educação pela FAE/UFMG; bacharel e licenciado em Filosofia pela UFPR, bacharel em Teologia pelo ITESP/SP, mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas, em Minas Gerais.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
JESUS INICIA SUA MISSÃO PÚBLICA SE APROXIMANDO DOS ÚLTIMOS E COM ELES IRRADIA JUSTIÇA (Mt 4,12-23) - Por frei Gilvander
JESUS INICIA SUA MISSÃO PÚBLICA SE APROXIMANDO DOS ÚLTIMOS E COM ELES IRRADIA JUSTIÇA (Mt 4,12-23) - Por frei Gilvander Moreira[1]
Jesus chamando os primeiros discípulos. Reprodução Redes Virtuais
Nos dois primeiros capítulos do Evangelho de Mateus fala-se das origens
de Jesus. Mateus 1-2 é para explicar para as comunidades cristãs oriundas
principalmente da cultura judaico-semita Marcos 1,1, isto é, para dizer que
“Jesus é o Cristo, Filho de Deus, Messias”, mas não messias conforme esperado
pelos saduceus – “messias da ideologia da prosperidade” -, pelos fariseus –
“messias legalista” - e nem pelos chefes dos sacerdotes - “messias da pureza
cultual” - , mas um Messias que vem do meio do povo marginalizado, “gente da
gente”, que só nasceu porque houve gente, principalmente mulheres, que rompeu
com o lugar que a sociedade patriarcal e machista lhes impunha. Um Messias que
provoca o pânico no poder estabelecido e nos Herodes de plantão, apenas por ter
nascido. Um Messias que refaz o caminho do povo libertando-se da escravidão do
imperialismo egípcio e que convoca seus seguidores e suas seguidoras a fazer o
mesmo caminho libertador.
Inspirando-se na caminhada libertadora dos povos oprimidos no deserto em
busca da terra prometida, em Mateus 3,1-12, temos a atuação do profeta João
Batista, chamando à conversão e ao acolhimento do “reino dos céus que está
próximo”, batizando e animando para a prática da justiça. Jesus embarca na
missão proposta por João Batista, pede para ser batizado e é confirmado por
“uma voz do céu” como Filho muito amado.
Em Mateus 4,1-11, Jesus, por “quarenta dias”, supera as grandes
tentações e diz um não contundente à idolatria do poder, à visão mágica segundo
a qual com um poder não humano se resolveria em um passe de mágica a fome do
povo e refuta com firmeza também a idolatria religiosa que mente ao dizer que “pessoas
ungidas” são protegidas de forma especial por Deus.
Em sintonia com o exposto acima, em Mt 4,12-23, Evangelho do Terceiro
Domingo do Tempo Comum (Ano A), se narra como foi o início, onde e como Jesus
iniciou sua missão pública. Antenado com os acontecimentos da realidade “ao
saber que o profeta João Batista tinha sido preso, Jesus voltou para a
Galileia, deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, à beira-mar, nos confins de
Zabulon e Neftali” (Mt 4,12-13). Um acontecimento político, a prisão de um
profeta, ato repressor do Estado, foi o que deu o estalo na consciência de
Jesus de que era chegada sua hora de arregaçar as mangas e abraçar pra valer a
bandeira empunhada pelo profeta João que acabara de ser preso e, segundo
pesquisas arqueológicas e informações do historiador Flávio Josefo, provavelmente
jogado algemado em uma prisão de segurança máxima.
Jesus poderia ter fugido como outros discípulos de João fugiram, mas, ao
contrário, envolvido por uma ira santa, Jesus viu a voz de Deus o chamando
naquela repressão político-militar que tentava abafar um movimento popular
religioso que se dedicava lutar por justiça social e combater as desigualdades
socioeconômicas.
Jesus não se faz neutro diante dos conflitos políticos e socioeconômicos
da sociedade. Jesus se posiciona ao lado de quem luta por justiça, mesmo
sabendo que poderá ser preso como foi o mestre João Batista. Jesus não aceita
as desculpas religiosas levantadas por pessoas que se dizem religiosas e que
são cúmplices das opressões políticas e das explorações econômicas.
Jesus não inicia sua missão pela capital, pela classe dominante, nem
pela pequena burguesia eufemisticamente chamada de “classe média”, nem pelos
religiosos de várias matizes. Jesus sabe que seria “bater em ferro frio”, pois
em uma sociedade desigual, que cultua a mentira que é a meritocracia, “quem
está na sombra” curtindo algum privilégio, não vai, por iniciativa própria,
partilhar a sombra com quem se queima no sol escaldante. Jesus vai para a
“beira-mar”, nos “confins...”, se aproxima e começa a conviver com
trabalhadores manuais artesanais, pescadores, que conquistam o pão cotidiano com
o próprio suor do trabalho.
Jesus tece aliança com as pessoas que estavam marginalizadas, na
“Galileia das Nações/gentios”, considerados “povos das trevas”. Ao conviver e
reconhecer a dignidade destas pessoas, Jesus é compreendido como “uma grande
luz”. Esta convivência desperta seguimento e, por outro lado, desperta o ódio e
a intolerância de quem ganha ao manter o povo explorado nos “confins”.
Este Evangelho acontece atualmente pelo mundo afora, por exemplo, com o
padre Júlio Lancellotti no meio do povo em situação de rua na capital de São
Paulo. Padre Júlio, luz para o povo da rua, mas execrado por quem insiste em
violar e pisotear na dignidade de milhares de pessoas forçadas a sobreviver nas
ruas por muitos motivos.
Qual a mensagem de Jesus neste início de missão? “Convertei-vos, porque
o Reino dos Céus está próximo” (Mt 4,17). Se Jesus tivesse absorvido a
ideologia dominante, diria: “Abandonem o movimento de João Batista, pois vocês
podem ser presos e terem o mesmo destino dele. Cultivem a pureza, pois o mundo
está acabando, o julgamento está chegando.” Entretanto, ouvindo a voz divina
nas entranhas dos acontecimentos, Jesus intui no meio de gravíssimo conflito e
de crise existencial inclusive que era hora de fazer autocrítica, mudar o jeito
de pensar e de agir, se libertar do que aprisionava e se irmanar na construção
do reinado divino. Este era o apelo a ser seguido.
Jesus descobre que é ignorância agir sozinho e procura construir seu
movimento inspirando-se em parte no movimento popular religioso de João
Batista. No meio do povo trabalhador, convivendo, Jesus chama dois, Pedro e
André, que eram pescadores artesanais. A partir do mundo deles Jesus propõe: Venha
comigo e vamos juntos “pescar” pessoas para o reinado divino. Estes o seguem
imediatamente. O mesmo se deu com outros dois irmãos, Tiago e João, que
deixando o barco e seu pai, seguem Jesus.
A expressão “pescar homens...”, à primeira vista, tem tom pejorativo,
pois insinua fazer proselitismo e fisgar o outro para “meu barco”, minha
igreja, minha religião. E pior, se pensarmos que a pesca implica sempre na
morte dos peixes. Mas exegeticamente não é este o sentido proposto pelo
Evangelho de Mateus. Na maioria das pessoas bíblicas envolvendo acontecimento
no mar, normalmente, o mar é considerado o lugar das forças do mal. Assim
sendo, “pescar pessoas” retirando-as do “mar” indica salvar as pessoas de
lógicas e estruturas opressoras e exploradoras, ou seja, libertá-las para
participar de uma sociabilidade com justiça, respeito, amor e paz. Não é buscar
oásis no mundo, mas transformar o mundo criando relações humanas e sociais
justas, éticas, solidárias, de justiça e paz, de empatia pelo outro
principalmente pelos mais enfraquecidos/as.
Assim, a partir dos últimos e com eles, Jesus ensina nas sinagogas da Galileia
periferizada, anuncia o reinado divino e cura doenças e enfermidades.
Atualizando, podemos dizer que “de onde menos se espera” vem libertação,
amorosidade, respeito, ética, empatia, solidariedade, amor gratuito... Podemos
perceber este Evangelho de Mt 4,12-23 acontecendo no meio dos Povos Indígenas,
no meio dos Povos Tradicionais, Quilombolas, no Povo em situação de rua, nos
povos das favelas, de ocupações urbanas e camponesas, em mulheres vítimas de
violência, em pessoas com orientação homoafetiva vítimas de homofobia, em
pessoas de Terreiros de Candomblé, de Umbanda...
Enfim, no meio de pessoas discriminadas, muitas vezes a luz divina
brilha e o amor divino é testemunhado. É preciso termos a sensibilidade de
captar esta luz no meio de tantos que são empurrados para “as trevas”. Eis o
caminho que liberta e salva. Jesus e os primeiros pescadores nos deram o
exemplo. Feliz quem segue neste caminho de contramão do que é hegemônico e
enaltecido pelos arautos do status quo opressor.
A opção revolucionária de Jesus pelos
excluídos, desprezados, "impuros", indica para a defesa da vida, para
a luta pela libertação de todos os males que ferem a dignidade de filhos e
filhas de Deus. Seguir Jesus implica em comprometer-se com essa causa. Que
tenhamos a coragem necessária de assumir verdadeiramente nossa missão de
cristãos.
20/01/2026, dia de São
Sebastião.
terça-feira, 14 de outubro de 2025
DEUS OUVE O CLAMOR DA VIÚVA INJUSTIÇADA (Lc 18,1-8). Por frei Gilvander
DEUS OUVE O CLAMOR DA VIÚVA INJUSTIÇADA (Lc 18,1-8). Por frei Gilvander Moreira[1]
Reprodução Redes VirtuaisA parábola da viúva
perseverante na luta por justiça, exclusiva do Evangelho de Lucas, pode ser
dividida assim: a) introdução redacional de Lucas, que apresenta o porquê da
parábola (Lc 18,1); b) a parábola (Lc 18,2-5); c) aplicação da parábola feita
por Jesus (Lc 18,6-8a); d) interrogação, atribuída a Jesus, sobre o desafio de
manter a fé (Lc 18, 8b).
“Orar sempre, sem nunca desistir” (Lc 18,1). Jesus já havia dito aos discípulos: “Peçam, e lhes será dado! Procurem, e
encontrarão! Batam, e a porta será aberta para vocês!” (Lc 11,9). Entretanto,
pedir o quê? Como? Procurar o quê? Como? Bater em quais portas? Estas questões
fazem toda a diferença no jeito de orar e de lutar por justiça.
As primeiras pessoas
cristãs sentiam as mesmas dificuldades que muitas vezes sentimos: oramos e não
obtemos o que pedimos! Qual era o núcleo da oração das primeiras pessoas cristãs?
O que pediam? A resposta está em Lc 11,2-4 na Oração do Pai Nosso: “Pai, santificado seja o teu nome. Venha o
teu Reino. Dá-nos a cada dia o pão de amanhã…”
Na prática, porém, a
vinda do Reino divino e sua implantação demoravam. A primeira geração cristã
pensava que a vinda definitiva do reinado divino seria para aqueles dias. Pouco
a pouco, as comunidades tiveram de descobrir que Deus parecia tardar e isso não
significava que Deus tinha abandonado o seu projeto ou que nunca viria
manifestar no mundo a sua justiça.
Nesse Evangelho, Jesus
promete que Deus fará justiça e realça as pessoas que são as eleitas ou
escolhidas de Deus. Como ele estava falando da viúva pobre, se subtende que
essas pessoas preferidas do Amor Divino não se destacariam por ser dessa ou
daquela nação ou etnia ou raça, e sim por serem as que, em todos os recantos do
mundo, são injustiçadas.
Houve quem abandonasse a
fé como hoje há pessoas que desistem
de acreditar em Deus diante de tanta injustiça, guerra e violência que se abate
sobre justos e inocentes, como milhares de mulheres, mães e crianças palestinas
assassinadas no brutal genocídio perpetrado com requintes de crueldade pelo
governo sionista de Israel. Jesus nos mostra, por meio de uma parábola, a
necessidade de orar sempre de forma correta, sem jamais esmorecer. E o conteúdo
central dessa parábola, identificado com o desejo da viúva, é que seja feita
justiça. No texto grego do evangelho, a raiz ‘justiça’ aparece cinco vezes, o
que demonstra de forma enfática que a oração verdadeira é aquela que está
colada umbilicalmente com a luta por justiça.
A pessoa injustiçada tem a fé inabalável de que será
atendida (Lc 18,2-5). A parábola mostra que pessoas oprimidas e opressoras habitam a mesma
cidade. O juiz injusto e a viúva injustiçada está na mesma cidade. Na
perspectiva do Evangelho de Lucas, isso só acontecia nas cidades, pois nas
aldeias camponesas as viúvas eram respeitadas e protegidas. Vale recordar que
na Bíblia em inúmeras passagens “a viúva e os órfãos” são os mais injustiçados
na sociedade.[2]
De um lado, temos um juiz injusto, que não temia a Deus e não tinha consideração
para com as pessoas (Lc 18,2). No caso em questão, temer a Deus significava
aplicar a Lei que impedia as injustiças contra as viúvas (Ex 22,21-22; Dt
24,17). Ter consideração para com as pessoas era não fazer distinção no
julgamento, favorecendo o opressor em detrimento da viúva e do pobre. O juiz
devia ser imparcial: “Todos são iguais perante a lei e têm a mesma dignidade”,
diz a nossa Constituição e está também na Bíblia e em todas as Constituições de
países que se dizem democratas.
Do outro lado, temos uma
viúva – símbolo das pessoas mais desprotegidas contra a ganância dos doutores
da Lei (cf. Mc 12,40 e repetição em Lc 20,47: “Os doutores da Lei exploram as viúvas e roubam suas casas, e para
disfarçar fazem longas orações”) – que se dirigia insistentemente ao juiz
pedindo justiça contra quem a injustiçava (Lc 18,3). Quer no Primeiro
Testamento bíblico, quer no tempo de Jesus, a viúva não tinha um defensor
legal, ficando assim à mercê de juízes injustos (Is 1,23; 10,2; 2Sm 14,4ss). As
leis que ordenavam defender as viúvas nunca foram levadas a sério. Não
esqueçamos que os doutores da Lei eram peritos em legislação, a
intelectualidade da época. Privatizando o conhecimento, os doutores da Lei
gozavam de poder para dominar muita gente.
A força da viúva está na
insistência, a ponto de azucrinar a vida do juiz. Este, não por causa da
coerência de seus princípios, nem pela consciência da responsabilidade de sua
função, decide fazer justiça à viúva. E o faz por duas razões: está cansado da
amolação e quer evitar o escândalo de um tapa na cara em pleno tribunal ou em
praça pública (Lc 18,5). Destemida na luta por justiça, a viúva tinha acampado
na porta do tribunal e de lá estava decidida a não sair enquanto não lhe fosse
conferida justiça. A oração da viúva era clamor por justiça.
Muito em breve, Deus fará justiça a seus eleitos (Lc
18,6-8a). A
intervenção de Jesus visa aplicar a parábola aos ouvintes. Jesus chama a
atenção para o gesto do juiz injusto que fez justiça para se ver livre da
amolação da viúva. Se só por causa disso acabou fazendo justiça, quanto mais
Deus, que se interessa pela causa das pessoas oprimidas! De fato, Deus é o
protetor das viúvas (Ml 3,5), afirma e reafirma os profetas e as profetisas
inúmeras vezes na Bíblia. As pessoas mais exploradas da sociedade escravocrata,
as viúvas, portanto, têm a quem recorrer: “Não
oprimam nenhuma viúva ou órfão… se clamar a mim, escutarei o seu clamor”
(Ex 22,21-22), alerta Deus, mistério de infinito amor, por meio da profecia
bíblica.
Jesus diz que Deus fará
justiça “aos escolhidos”, ou eleitos. Essas pessoas eleitas são as perseguidas que
não perdem a fé no mistério de amor que as envolve, encontram em Deus aquele
que lhes faça justiça muito em breve. Esse clamor por justiça era peculiar aos
primeiros cristãos e cristãs, envolvidos/as em perseguições por causa de sua fidelidade
ao Evangelho de Jesus Cristo, ao reino divino (cf. Ap 6,10: “Até quando, ó Senhor santo e verdadeiro,
tardarás a fazer justiça, vingando o nosso sangue contra os habitantes da
terra?”). Deus vem ao encontro do pedido insistente dos oprimidos que
perseveram na fé (dia e noite), fazendo-lhes justiça em breve (Lc 18,8a; cf.
Eclo 35,18-19, onde está presente a mesma idéia da imediata intervenção de Deus
em favor dos oprimidos). “A súplica do
pobre penetra as nuvens e o pobre não sossega, enquanto ela não chegar até a
Deus. Ele não desiste, até que o Altíssimo intervenha para fazer justiça aos
justos. O Senhor não terá paciência com os injustos, enquanto não quebrar as
costas dos cruéis... até quebrar o cetro dos injustos. A misericórdia é
bem-vinda no templo da aflição, como as nuvens de chuva no tempo da seca” (Eclo 35,17-24).
É difícil manter-se na luta por justiça (Lc 18,8b). Tal como agiu a viúva, assim deve ser a
pessoa cristã: perseverar na luta por justiça e na oração incessante para que
Deus intervenha, fazendo justiça aos injustiçados/as, salvando-os. Mas a
parábola termina com uma interrogação desafiadora: Quando o Filho do Homem
voltar, para fazer justiça, encontrará fé sobre a terra? Encontrará pessoas que
se mantiveram fiéis a Jesus, na luta pela justiça do reinado divino e na oração
perseverantes? A pergunta é uma admoestação severa: é difícil manter-se na
luta. É preciso crer com garra, conservando-se prontos para a doação da vida no
compromisso com as causas dos pobres, pois, tanto naquele tempo (cf. 2Ts 2,3;
Mt 24,12[3])
como hoje, muitos são tentados a desanimar.
Finalmente, a expressão
de Lc 18,8b pode ainda ser entendida assim: será que somos pessoas de fé, ao
ponto de reconhecer a presença da justiça de Deus agindo já em nosso meio ainda
sob os solavancos das injustiças? Ou temos fé só para a vinda do Filho do Homem
no final dos tempos? Não será agora a hora de sentirmos que Deus está fazendo
justiça às pessoas empobrecidas que não perdem a fé em Deus? Essa fé se
expressa nas conquistas de lutas concretas por direitos e pelo bem comum, lutas
travadas por pessoas e grupos organizados contra a impunidade dos grandes
criminosos, assim como a injustiça e a violência que se abatem sobre os mais
empobrecidos e violentados?
“Não estou nunca sozinho. Deus está sempre comigo”, me disse sorrindo o papai José
Moreira de Souza quando eu, estando na Itália para estudar hermenêutica bíblica,
disse a ele que estava preocupado porque ele estava vivendo sozinho lá na roça.
Oxalá cultivemos a oração como encontro amoroso com Deus, mas colada com a luta
por justiça, o que faz irromper sinais do reino divino no nosso meio.
Infelizmente, atualmente, um crescente
número de pessoas alimentam suas devoções particulares, oram a Deus desejosos
que se coloque a serviço de seus interesses e se esquecem de quem vive em
situação de injustiça, de exclusão, de sofrimento. Esta prática é uma
contradição gritante com o ensinamento e a práxis de Jesus Cristo. Jesus de
Nazaré subverteu a ordem religiosa, social, política e econômica, defendendo a
dignidade humana, colocando a vida acima da lei, dos ritos. É anticristão
praticar a cultura do individualismo, da indiferença diante da realidade que
provoca tantas mortes e violências.
A exemplo da viúva desta parábola, possamos
cultivar espiritualidade libertadora, que nos anima para a luta necessária por
condições dignas de vida para todas as pessoas e toda a criação, que nos faz
“buscar o Reino de Deus e a sua justiça”. Eis o caminho bom e santo a ser
seguido.
14/10/2025
Obs.: As videorreportagens nos links, abaixo, versam
sobre o assunto tratado, acima.
1
- VIÚVA DO EVANGELHO QUE CLAMA POR JUSTIÇA: AVÓ MARLENE, NA OCUPAÇÃO-BAIRRO
ELIANA SILVA/MLB Vídeo 14
2
- Helba, viúva do fiscal Nelson: "São muitas provas que condenaram Antério
Mânica. 4 mandantes livres"
3 - Deuteronômio 24,17-22: "Deixe para o órfão, a viúva e o migrante". Rosa e Frei Gilvander – 2 - 3/9/2020
4 - Viúva do Evangelho e o Juiz no Acampamento Maria da Conceição, do MST, em Itatiaiuçu, MG. Vídeo 6
5
- Viúva e luta pela Justiça: Homilia de frei Gilvander/131a Festa N. Sra.
Rosário/Airões/MG. Vídeo 7
6
- Ocupação Nelson Mandela, Serra/BH/MG: Viúva e mãe de 6 filhos clama por
moradia digna . 29/12/14
7
- Chacina dos fiscais em Unaí: Entrevista com a viúva
do Ailton, Marlene e filha Rayanne. 18/01/2013
[1] Frei e padre da Ordem
dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em
Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese
Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT,
CEBI e Ocupações Urbanas; autor de livros e artigos. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br
– Canal no You Tube: https://www.youtube.com/@freigilvander
– No instagram: @gilvanderluismoreira – Facebook:
Gilvander Moreira III – No https://www.tiktok.com/@frei.gilvander.moreira
[2] Cf.
Gn 21,1; Ex 22,22; Lev 18,25; Dt 10,18; Dt 24,17; Dt 24,21; Dt 27,19; Nm 16,29;
Sl 68,5; Sl 94,6; Sl 109,9; Sl 146,9; Jó 22,9; Jó 24,3; Lm 5,3; Prov 23,10; Rt
1,14; Jr 49,11; Is 10,2; Os 9,9; Ez 22,7; Zc 7,10; Mal 3,5; Mt 25,36; Lc
1,43.68.77; Jo 14,18; Tg 1,27; e inúmeras outras vezes.
[3] “A
maldade se espalhará tanto, que o amor de muitos se resfriará.”
quarta-feira, 8 de outubro de 2025
DOS TRABALHADORES O VINHO BOM, NO 6O DIA: CRIAÇÃO DA NOVA HUMANIDADE (Jo 2,1-11) - Por Gilvander
DOS TRABALHADORES O VINHO BOM, NO 6O DIA: CRIAÇÃO DA NOVA HUMANIDADE (Jo 2,1-11) - Por Gilvander Moreira[1]
No dia 12
de outubro de 2025, o Evangelho proposto para a celebração nas comunidades
cristãs é Jo 2,1-11, “Bodas de Caná”, que integra a seção Livro dos Sinais (Jo
1,19-12,50), o primeiro dos sete sinais que estão no Evangelho de João dos
capítulos dois ao onze. Sinais e não milagres. Nos Evangelhos de Mateus, Marcos
e Lucas há relatos de muitos milagres, mas o Evangelho de João relata sete
sinais, que é algo “como sinal de trânsito” que nos aponta para algo mais
profundo.
Os
sinais se manifestam em situações de carência – falta de vinho, falta de pão,
falta de visão... – e devem ser compreendidos na perspectiva de encontrar
respostas para aquelas perguntas sobre o contexto das comunidades do Quarto
Evangelho. É possível que para escrever o Livro dos Sinais (Jo 1 –12) as
comunidades cristãs do Quarto Evangelho tenham usado um “Evangelho dos sinais”,
conhecido também por Marcos, mas perdido ao longo do tempo. Este “Evangelho dos
sinais” conteria “milagres” de Jesus presentes nos dois evangelhos: a cura de
um paralítico, a “multiplicação” dos pães, Jesus andando sobre as águas, a cura
de um cego.
Conforme
frei Carlos Mesters, “o Evangelho de João não tira fotografias, mas RAIO X com
os olhos da fé, do coração: mostra os ossos invisíveis da fé que sustenta todos
e tudo.” O Quarto Evangelho vê o mais profundo. “A essência é invisível aos
olhos humanos”, já dizia o grande filósofo Aristóteles.
No
Quarto Evangelho a
liderança das mulheres se destaca (Cf. Jo 2,5: a mãe de Jesus; 11,20-29: Marta
e Maria, irmãs de Lázaro; 12,3: Maria, irmã de Lázaro; 19,25-27: a mãe de
Jesus, Maria, a mulher de Cléofas e Maria Madalena; 20,16-18: Maria Madalena). As
comunidades do Quarto Evangelho mantinham o espaço para a importante
participação das mulheres, característica respaldada também em Mc 15,40-41; At 16,11-15; Rm 16,1-16. Lugar onde se dá o encontro com Jesus, o poço é um
ponto estratégico das aldeias na Palestina. Lugar de partilha dos recursos, do
encontro entre as mulheres, das conversas matutinas.
Se
no Evangelho de Mateus é o apóstolo Pedro que reconhece por primeiro Jesus como
“o messias, o senhor, salvador”, no centro do Evangelho de João está a confissão
messiânica de Marta (Jo 11,27: “Sim, Senhor. Eu acredito que tu és o Messias, o
Filho de Deus que devia vir a este mundo.”), confissão igual à de Pedro em Mt
16,16.
Devemos
enfatizar que para compreendermos Jo 2,1-11, “Bodas de Caná”, faz bem
reconhecer a relevância das mulheres no Evangelho de João: Maria está no início
e no fim. Em Jo 2,3 e 4 aparece claramente uma evolução na fé que vai desde a
desconfiança de Jesus a respeito dos judeus (Jo 2,23-42). No centro da
confrontação entre Jesus e os judeus aparece outra mulher, a que deve ser
apedrejada por adultério. No centro de João está a confissão de Marta (Jo
11,27). No final do ministério público de Jesus, está outra mulher, Maria de
Betânia. Com um gesto profético, ela unge os pés de Jesus (Jo 12,1-11). O seu
gesto foi repetido pelo próprio Jesus na última ceia (Jo 13,1-16). Tem ainda
outro grupo de mulheres (Jo 19,25-27). Maria Madalena é a mulher da busca
incansável. A credencial para ser apóstolo é ter visto o Senhor ressuscitado e
ter sido enviado a anunciá-lo (1 Cor 9,1-2; 15,8-11; Gl 1,11-16). Por isso,
desde o começo da tradição apostólica, Maria Madalena recebeu o título de
apóstola dos apóstolos. É bom conferir as diferenças entre as conversas de
Jesus com Nicodemos e com a samaritana. Esta é mulher, anônima, desprezada
socialmente e marginalizada. Ela não procura Jesus diretamente, mas é uma
mulher com sede de vida, disposta a ter uma água que não seja a água parada no
poço. Sente-se atraída pela proposta de Jesus, crendo, aceitando e reconhecendo
nele o Messias. A conversa com a samaritana acontece em plena luz do dia.
Por que
falta vinho na festa em CANÁ? (Cf. Jo 2,4) Por causa do vinho muito sangue foi
derramado naquela região (cf. Jz 9,12-13; I Sam
8,14; I Rs 21) devido ao
aprisionamento da terra nas mãos
de poucos. A
realidade é de escassez, de carência. A solução aparece a partir da intervenção
de uma mulher, pelo trabalho dos servos (pequenos e insignificantes) e a
solidariedade de Jesus. É na mão dos serventes que a água se torna vinho.
Depois da festa em Caná, cidade da periferia da Palestina, Jesus vai à festa da
Páscoa em Jerusalém e lá ele “estraga” a festa ao expulsar os vendilhões do
Templo (cf. Jo 2,13-22). Este episódio, segundo os Evangelhos de Mateus, Marcos
e Lucas, é o que precipita a decisão de assassinar Jesus. Mas já segundo Jo
11,45-54, o que precipitou a decisão de sacrificar Jesus foi a ressurreição de
Lázaro, Jesus se revelando como fonte de vida. Quem gera vida deve ser
assassinado, não pode ser tolerado, concluem os adversários “judeus”. Seis
talhas de pedra significam as seis festas judaicas e recordam a Lei em
“pedras”.
Na Bíblia
casamento significa a realização do íntegro relacionamento entre Deus e o povo,
as núpcias definitivas. Desde Oséias (Os 2,21-22). Jeremias também aponta para
a esperança de um casamento íntegro (Jr 31,1-4) com esta novidade: será a
mulher que seduzirá o marido (Jr 31,17-22). O casamento em Caná quer mostrar
que Jesus é o verdadeiro noivo que veio para o tão esperado casamento, trazendo
um vinho gostoso e abundante.
Numa Comunidade Eclesial de Base (CEB), alguém
comentou: “Jesus transformou muito vinho. Foram 600 litros. Será que beberam
tudo?” Uma mulher respondeu repentinamente: “O
vinho novo é Jesus com seu projeto e nós continuamos tomando até hoje. É quem
sustenta nossas vidas.”
Nas
Bodas de Caná, Deus se faz presente no meio do povo e com esse povo celebra a
vida, a partilha, suas alegrias e suas necessidades. E foi uma mulher,
Maria, que, atenta, sensível e confiante na ação do filho, mostrou a Jesus a
necessidade do momento: "Eles não têm mais vinho!" E disse ainda aos
que estavam servindo: "Façam o que Ele mandar."
Como
Maria, estamos também atentos à realidade para reconhecer as necessidades do
nosso tempo, de tantos irmãos e irmãs? Necessidades que podem ser supridas se
colocarmos em ação o projeto de vida nova que Jesus propõe. Foi assim nas Bodas
de Caná: Jesus inaugurou um tempo novo, tendo como protagonistas de
transformação da realidade os pequenos. E houve abundância... "Eu vim para que todos tenham vida e
vida em abundância” (Jo 10,10).
08/10/25
terça-feira, 7 de outubro de 2025
ELOY FERREIRA DA SILVA: 41 ANOS DO SEU MARTÍRIO EM DEFESA DOS CAMPONESES POSSEIROS NA LUTA PELA TERRA - Por frei Gilvander
ELOY FERREIRA DA SILVA: 41 ANOS DO SEU MARTÍRIO EM DEFESA DOS CAMPONESES POSSEIROS NA LUTA PELA TERRA - Por frei Gilvander Moreira[1]
Eloy Ferreira da Silva, mártir da luta em defesa dos camponeses posseiros em Minas Gerais.Dia 16 de dezembro de 2025, celebraremos
41 anos do martírio de Eloy Ferreira da Silva. Necessário se faz resgatarmos quem
foi Eloy e continua sendo, agora em vida plena e em nós na luta pela terra,
pela reforma agraria e pela demarcação dos territórios dos Povos Indígenas e
Tradicionais.
Como dirigente sindical, viveu
intensamente o apoio à luta de organização e resistência dos posseiros do município
de São Francisco e da região norte e noroeste de Minas Gerais. Eleito Delegado
Sindical do Distrito de Serra das Araras, em 1978, ele liderou a resistência
dos posseiros contra os invasores e grileiros de terra. Presidente do Sindicato
dos Trabalhadores/as Rurais de São Francisco, desde 1981, Eloy Ferreira da
Silva era uma das lideranças mais combativas no norte e noroeste de Minas
Gerais, conhecido e respeitado em todo o estado.
As ameaças de
morte que Eloy sofreu foram muitas. Foram constantes por parte dos grileiros e
até do Juiz de Direito da cidade, que várias vezes o ameaçou psicologicamente.
“Trabalhador
rural não é covarde”, dizia Eloy, que denunciava as pressões, os despejos e
as queimas de casas a todas as entidades que podiam dar algum apoio. Combatia
toda violência que recaia sobre os camponeses posseiros: “Nossa arma é união, organização e a verdade”,
Eloy sempre dizia.
Praxedes Ferreira da Silva, posseiro
sobrinho de Eloy Ferreira da Silva, assassinado no município de São Francisco,
em 28 de outubro de 1978. Eloy sentia a dor pelo assassinato do seu sobrinho
Praxedes. Eloy se indignava diante de toda e qualquer injustiça e violência. Eloy
não arredava o pé da luta pelos direitos dos camponeses posseiros. As ameaças
seguiam aumentando. Até que dia 16 de dezembro de 1984, Eloy Ferreira da Silva foi barbaramente
assassinado e se tornou mais um mártir da luta pela terra e pela Reforma Agrária.
Este assassinato atingiu não só o Eloy,
mas também a organização do povo camponês. Atingiu um líder que doou sua vida
como Jesus Cristo para que os pobres deixem de ser escravizados pelos
poderosos.
Eloy era um homem de fé profunda. A todo
momento ligava sua luta à libertação dos hebreus escravizados no Egito, sob o
imperialismo dos faraós. “Deus está do
nosso lado” era a fé que animava sua luta. Eloy buscava praticar a
utopia cantada no Cântico de Maria no Evangelho de Lucas: “Os poderosos serão derrubados dos seus tronos e os pobres serão
elevados. Os ricos serão despedidos de mãos vazias e os famintos serão saciados”
(Lc 1,52-53).
Eloy Ferreira da Silva foi martirizado
aos 54 anos, deixando a esposa e 10 filhos, também ameaçados pelos mesmos grileiros.
O norte e noroeste de Minas Gerais são
territórios de ocupação muito antiga. Havia muitas áreas cheias de posseiros
morando em terras devolutas. Nas décadas de 1970 e 1980, as grandes empresas e
o latifundiário descobriram o norte e noroeste de Minas Gerais, regiões dos
maiores latifúndios e dos maiores conflitos de terra do estado de Minas Gerais.
A monocultura do eucalipto e a pecuária extensiva de gado cresceram muito sob o
poder de fazendeiros e empresários mandando jagunços e capangas pisar em cima
dos camponeses posseiros. Isso com a cumplicidade do Estado.
Na Fazenda Vereda Grande, no município
de São Francisco, moravam 36 famílias de posseiros muito antigos. O maior
latifundiário de Minas Gerais, Antônio Luciano, tentou se apoderar dessas terras,
desviando o Rio Urucuia. Os posseiros impediram a entrada dos tratores e
exigiram uma posição do Governo de Minas Gerais. O INCRA desapropriou a fazenda
do pretenso dono em 1983. Mesmo com a desapropriação, o grileiro Antônio
Luciano continuou a pressionar e ameaçar os posseiros.
Ao lado da posse da família de Eloy
Ferreira da Silva, começa a fazenda Menino, megalatifúndio de 90 mil hectares, invadida
por grileiros que ameaçavam a posse de 220 famílias camponesas posseiras. Junto
com os posseiros, os sem-terra da região exigiram do governo que desarmasse os jagunços
dos grileiros. Em vez disso, o delegado especial fiscalizava a organização dos
posseiros e trabalhadores sem-terra. Os posseiros Januário Emídio dos Santos e José Natal
Romão foram assassinados dia 14 de novembro de 1990, na Fazenda Menino, no
município de Arinos, próximo de onde Eloy Ferreira tinha sido assassinado seis
anos antes.
Exigir que na Fazenda Menino haja PAZ e
TRABALHO para os Sem Terra da região é uma porção do legado extraordinário de
luta pela terra que ELOY deixou para nós. Graças à luta de Eloy Ferreira da
Silva na Fazenda Menino estão assentadas centenas de famílias de camponeses que
estavam sem-terra.
A Comissão Pastoral da Terra (CPT/MG) divulgou
um pequeno livro sobre a luta de Eloy Ferreira da Silva. ELOY: MORRE UMA VOZ,
NASCE UM GRITO, livro lançado pela SEGRAC, de autoria de Luiz Chaves, Luiz
Araújo e Jô Amado. Só em 1985 foram assassinados 16 lavradores na luta pela
terra em Minas Gerais.
Dona Luzia, viúva de Eloy dizia; “Eloy
vinha sempre lutando do lado dos pobres. Até deixou o que era dele mesmo mais
afastado para se doar aos pobres. Ele ajudou, ajudou...”. E a batata quente da
luta camponesa está em nossa mão. É dever ético continuarmos a luta pela terra,
por reforma agrária, pela demarcação dos territórios dos Povos Indígenas de
todas as Comunidades Tradicionais. Eloy Ferreira da Silva, presente em nós na
luta por direitos, sempre!
É evidente o quanto é sofrida a luta
pelo direito à terra, dom de Deus, direito de todos os camponeses e
camponesas, e o quanto é necessário intensificar a regularização
fundiária e promover a Reforma Agrária, com desapropriação das terras ociosas,
sem função social.
No vídeo “Assassinato
de Eloy Ferreira da Silva - Tribunal Nacional dos Crimes do Latifúndio”
está o relato do crime bárbaro que ceifou a vida de Eloy Ferreira da Silva, no
link abaixo.
[1]
Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em
Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel
em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto
Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI e Ocupações Urbanas; autor de
livros e artigos. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br
– Canal no You Tube: https://www.youtube.com/@freigilvander – No instagram:
@gilvanderluismoreira – Facebook: Gilvander Moreira III – No https://www.tiktok.com/@frei.gilvander.moreira
quarta-feira, 24 de setembro de 2025
COM DEUS, ABRAÃO E LÁZARO; O RICO, NÃO (Lc 16,19-31). Por Frei Gilvander
COM DEUS, ABRAÃO E LÁZARO; O RICO, NÃO (Lc 16,19-31). Por Frei Gilvander Moreira[1]
Reprodução Redes Virtuais.A
parábola do rico e de Lázaro (que com maior propriedade deveria ser chamada “a
parábola dos seis irmãos ricos”) está no Evangelho de Lucas na seção que vai de
Lc 9,51 a 19,27, que é a viagem de Jesus e seus discípulos/as a Jerusalém, e é exclusiva
de Lucas, não está nos Evangelhos de Mateus, Marcos e nem de João. Nessa
“viagem” teológico-catequética são apresentados os riscos e as exigências do
ser cristão. A viagem de Jesus é, portanto, o caminho das comunidades, cujas
opções e riscos são os mesmos do mestre galileu. A parábola é, pois, um convite
ao discernimento e ao compromisso com o projeto libertador de Jesus Cristo. É
uma provocação. É como um “flash” do final da caminhada. A viagem de Jesus
culmina em Jerusalém, onde Jesus será condenado à pena de morte pelos poderes
político-econômico-religioso, mas ressuscitará vitorioso no terceiro dia.
Como agir para possuir essa vida em
plenitude? Qual será o fim de quem não aceita viver e conviver partilhando, mas
só acumulando bens, insistindo em se enriquecer? A parábola se divide em duas
partes: Lc 16,19-22 e Lc 16,23-31.
Em Lc
16,19-22, se mostra que a opção de Deus
é pelos pobres. Começa-se descrevendo duas situações
contrastantes. De um lado, o rico (= plousios, em grego) que esbanja
luxo e requinte nas roupas finas e elegantes (literalmente: púrpura e linho,
que eram artigos de luxo importados da Fenícia e do Egito) e no teor de vida
(banquetes diários). De outro lado, Lázaro, que tem seu ponto de mendicância
junto à porta do rico. A situação do pobre é de total marginalidade: está
coberto de feridas (considerado impuro, cf. Jó 2,7-8) e faminto. Tinha
necessidade de matar a fome com o que caía da mesa do rico (Lc 16,21), isto é, “não as migalhas que caíam no chão, mas
pedaços de pão que se usavam para limpar os pratos e enxugar as mãos e que
depois se atiravam para debaixo da mesa. Como Lázaro queria saciar a fome com
aquilo!”[2] Lázaro é considerado um “cão”, impuro como os
cães que vêm lamber-lhe as feridas (Lc 16,21).
Ferido no corpo e na dignidade, brutalmente
excluído, ele encontra solidariedade em Deus. De fato, é o único, em todas as
parábolas, a ter nome. O nome Lázaro significa “Deus ajuda”. Deus optou por
ele.
A morte
nivela todos/as, mas o pós-morte é bem diferente: Lázaro é levado pelos anjos para
junto de Abraão (Lc 16,22), isto é, torna-se íntimo daquele que foi solidário
com o mais fraco (cf. Gn 13,5-12). Na parábola, Abraão representa Deus, pai e
mãe de infinito amor, que acolhe os empobrecidos, por amor e porque se comove
com o sofrimento deles (Ex 3,7-9).
Em Lc 16,23-31 nos é narrado que os ricos cavam para si
um abismo intransponível. A situação se inverteu: o rico está em
tormentos e Lázaro junto de Abraão, na glória. Inicia, então, um diálogo entre
Abraão e o rico. Este, por três vezes, chama Abraão de pai (Lc 16,24.27.30) e Abraão
o reconhece como filho (Lc 16,25). Contudo, a filiação não é suficiente para
obter a salvação. Importa, antes, uma prática que espelhe a misericórdia e a
solidariedade testemunhada por Abraão. Em Gen 18,1-15 narra-se Abraão sendo
hospitaleiro com três homens, acolhendo-os e partilhando com eles o que tinha:
acolhida, água e pão.
O rico
faz dois pedidos. O primeiro é que Lázaro molhe a ponta do dedo para refrescar
a língua do rico (Lc 16,24). Grande ironia: Para quem estava acostumado a
grandes banquetes diários, basta agora uma gota d’água! O pedido é recusado
porque “há um grande abismo entre nós:
por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vocês, e
nem os daí poderiam atravessar até nós” (Lc 16,26). O único poder que Deus
tem é o de amar. Não é Deus que cria o inferno. Ao se escravizar na lógica do
enriquecimento, o rico mata em si a capacidade de amar.
Pergunta-se:
quem construiu a impossibilidade de comunhão entre o rico e Lázaro, a não ser o
próprio rico que o ignorou todos os dias? (cf. Lc 14,13-14: “Quando você der uma festa, convide os
pobres, estropiados, coxos, cegos; você será feliz, então, porque eles não têm
com que retribuir. Você, porém, será recompensado na ressurreição dos justos”).
É oportuno lembrar que esse rico leva à radicalidade o sistema econômico das
cidades subserviente aos interesses do império romano escravocrata, no tempo de
Jesus. Baseado na concentração e na acumulação de bens, esse sistema gerava uma
massa de excluídos: mendigos, prostitutas, desempregados, bandidos que saqueiam
para não morrer de fome. Ao passo que o sistema econômico das aldeias, no
campo, com origem ancestral de povos e comunidades tradicionais, baseado na
solidariedade e na partilha, impedia que alguém caísse na marginalidade e
exclusão. A economia de Francisco e Clara proposta por movimento criado pelo
papa Francisco está em profunda sintonia com o modelo de economia proposto no
Evangelho de Lucas: economia da partilha e da solidariedade, da cooperação e
não da competição.
É muito
importante perceber um detalhe na resposta de Abraão: ele se dirige ao rico na
terceira pessoa do plural: vocês… não poderiam atravessar… Isso denota que o
rico não está só. Outros o precederam no projeto de acumular bens gananciosamente.
Além da acumulação de riqueza pela exploração da força de trabalho do
trabalhador pagando salário injusto, do lucro exorbitante no comércio, o rico
também, muitas vezes, herdou riqueza, que passa de pai para filho. Sempre houve
ricos cujo caminho jamais cruzou com o dos pobres. Todos tiveram o mesmo destino!
O segundo
pedido é que Lázaro seja enviado aos cinco irmãos do rico como testemunho, para
que não tenham o mesmo fim (Lc 16,28). Abraão responde dizendo que a Lei e os
Profetas são suficientes para convencê-los (Lc 16,29). De fato, a Lei e os
Profetas (isto é, todo o Antigo Testamento) exigiam igualdade e fraternidade
entre todos/as. E Lázaro não era certamente o único pobre a aguçar-lhes a
consciência (cf. Dt 15,11: “Abra a mão em
favor do seu irmão, do seu indigente e do seu pobre na terra onde você mora”.
Portanto, os cinco irmãos não têm desculpas.
O rico
não se convence. Crê sejam necessários sinais extraordinários, como a
ressurreição de um morto, para que os irmãos se convertam (Lc 16,30). A
resposta de Abraão é taxativa: a ressurreição de um morto não será capaz de
sensibilizar os ricos, se não forem sensíveis aos apelos de Moisés e dos
Profetas. A afirmação insinua que a própria ressurreição de Jesus será para
eles inútil, caso não abram a mão e o coração ao necessitado. É bom recordar
que parte dos fariseus acreditavam na ressurreição, mas os saduceus não
acreditavam na ressurreição. Por isso se empanturravam acumulando bens e poder,
gozando vida no luxo à custa da exploração do povo. A Teologia da
Prosperidade e do Domínio contam essa parábola ao inverso. Diz que havia o rico
e o pobre. E Deus abençoava e fazia festa com o rico e desconhecia e ignorava
Lázaro. Dizer isso não é fazer teologia, mas reproduzir ideologia que mascara a
realidade de exploração envolta nas relações sociais entre ricos e pobres. Que
Deus seria esse? Um ídolo. De que lado a Igreja e todos nós devemos nos
colocar? Obviamente, ao lado de quem defende a construção de uma sociedade com
justiça econômica que viabilize condições de vida digna para todas as pessoas e
para todos os seres vivos, sem relações de opressão e exploração.
Estarão,
portanto, os hodiernos irmãos do rico irremediavelmente perdidos? Eis, então,
que voltamos ao tema da viagem de Jesus a Jerusalém, que nos diz que é
necessário discernimento. De fato, permanecendo insensíveis, como os
gananciosos fariseus, “amigos do dinheiro” (cf. Lc 16,14), seu caminho jamais
se identificará com o de Jesus, e não participarão do Reino divino. Mas se
assumirem as opções de Jesus, partilhando seus bens, como fez o administrador que
se tornou justo, o da parábola de Lc 16,1-13, possuirão a vida (cf. o ideal da
comunidade cristã em At 2,42-47: a partilha de bens leva à vida para todos/as;
At 5,1-11: ambição e acúmulo geram morte). É preciso discernir e se posicionar no
acolhimento e defesa dos empobrecidos, já, antes que seja tarde.
Atualizando
esta parábola para nossa realidade atual, observamos que o sistema capitalista
induz, seduz e atrai como imã as pessoas para absolutizarem a propriedade
privada capitalista e viver correndo atrás de acumular riqueza e poder, o que
exige explorar a classe trabalhadora e camponesa pagando salários injustos,
comercializando com preços exorbitantes, sonegando impostos e naturalizando o
direito de herança, tudo isso como mecanismos que reproduzem as brutais
desigualdades socioeconômica levando à concentração de riqueza e poder em 1% da
população e deixando 99% cada vez mais injustiçado e excluído. O rico da
parábola integra esta lógica que desumaniza as pessoas e cria um abismo
intransponível entre os pobres e ricos. A parábola de Lc 16,19-31 diz nas entrelinhas
que acumulação de bens não tem a bênção de Deus, é algo totalmente
contraditório com o projeto de Evangelho de Jesus Cristo. Por isso com Deus
estão Abraão e Lázaro; o rico, não.
É
preciso abrir os olhos para ver a realidade que nos cerca, e os nossos ouvidos
para ouvir o clamor de tantos "Lázaros" feridos, sofredores,
excluídos, injustiçados, humilhados, superexplorados! É isto que Deus, mistério
de infinito amor, espera de nós, como exigência da fé: a opção pelos
pobres, a luta pela vida com dignidade para todas as pessoas, assim como fez
Jesus.
24/09/25.
[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação
pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em
Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto
Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI e Ocupações Urbanas; autor de
livros e artigos. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br
– Canal no you tube: https://www.youtube.com/@freigilvander – No instagram:
@gilvanderluismoreira - Facebook: Gilvander Moreira III – No https://www.tiktok.com/@frei.gilvander.moreira
[2] J.
Jeremias, As parábolas de Jesus, Paulus, São Paulo, 5ª ed., 1986, p.
185.

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