quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

FRATERNIDADE E MORADIA, TEMA DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2026, COM O LEMA “ELE VEIO MORAR ENTRE NÓS” (Jo 1,14)

FRATERNIDADE E MORADIA, TEMA DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2026, COM O LEMA “ELE VEIO MORAR ENTRE NÓS” (Jo 1,14)

CÍRCULO BÍBLICO elaborado por frei Gilvander Moreira[1]


1 – Acolher todos/as e todes. Canto inicial e oração inicial.

2 – FATO DA VIDA

No Brasil continua existindo e se reproduzindo uma brutal Injustiça Habitacional. Segundo a Fundação João Pinheiro (2023), o déficit habitacional brasileiro ultrapassa 5,8 milhões de moradias, concentrando-se nas regiões metropolitanas. O número de sem-moradia “cresceu 4,2% em comparação com 2019” (CF 2026, nº 30). Acima de 30% da população sobrevive em favelas e assentamentos precários. Cerca de 11 milhões de pessoas sobrevivem em favelas (IBGE, 2022), com infraestrutura inadequada. Há também desigualdade regional: as regiões Norte e Nordeste concentram 60% do déficit habitacional, apesar de terem apenas 42% da população. Em muitas capitais, famílias de baixa renda gastam mais de 50% do orçamento com aluguel. A população em situação de rua está crescendo muito. Estima-se que cerca de 330 mil pessoas esteja em situação de rua, em “2024, um aumento de 25% em relação a dezembro de 2023” (CF 2026, nº 43).

“Entre 2010 e 2022, o número de favelas dobrou e o número de habitantes [nelas] cresceu em 40%” (texto-base da CF 2026, nº 55). De 30 a 40% da população carrega o peso da cruz do aluguel ou da humilhação que é sobreviver de favor em casa de parente. Muita gente clama: “O aluguel come no nosso prato todos os dias. Muitas vezes temos que tirar alimento da boca dos nossos filhos para pagar aluguel.” “Sobreviver de favor em casa de parente é humilhação o tempo todo. Não temos liberdade pra nada. As crianças não podem brincar, pois incomodam quem é dono da casa. Não podemos convidar uma pessoa amiga para nos visitar. Vivemos amontoados.” “Uma pessoa/família sem moradia é como um pássaro que voa, voa, se cansa e não tem um ninho para se assentar.

3 – O que a Bíblia nos diz sobre o direito à moradia

O Lema bíblico "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (João 1,14) nos mostra que o Deus da vida, solidário e libertador, por amor assumiu nosso corpo como sua moradia. Largou o céu (Ap 21,1-5) e veio morar conosco. Logo, toda pessoa é sagrada, é “imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,27), é “templo do Espírito Santo” (1Cor 6,19).  E a dignidade humana é o princípio basilar da nossa Constituição Federal de 1988 que deve ser respeitado. A falta de moradia ou a precariedade da moradia avilta, viola e pisoteia a dignidade humana.

Na Bíblia, há inúmeras passagens proféticas que nos mostram que nós discípulos/as de Jesus Cristo, que nasceu sem-teto e ao final de sua missão nos alerta “eu era estrangeiro e vocês me receberam eu sua casa” (Mt 25,35), temos que lutar para que ninguém fique sem moradia digna e adequada, conforme nos exortou o papa Francisco: “Nenhuma pessoa sem moradia...”

"Não oprimirás o estrangeiro... porque fostes estrangeiros na terra do Egito" (Êx 23,9). “Ai daqueles que juntam casa com casa e emendam campo a campo, até que não sobre mais espaço e sejam os únicos a habitarem no meio de país...” (Is 5,8). Ou seja, a brutal cruz que é imposta sobre mais de 30% da população brasileira não é por acaso e não por irresponsabilidade pessoal ou preguiça do povo, mas trata, sim, de um projeto capitalista de acumulação de riqueza e poder nas mãos de uma minoria. Milhões são forçados a sobreviverem sem moradia digna e adequada para que uma minoria lucre muito com aluguel e com a especulação imobiliária. 

Solidariedade libertadora não pode se limitar a doação de roupas, alimentos ou pequenas ajudas, é preciso incluir necessariamente compromisso com a luta para que as pessoas sem moradia conquistem moradia digna e adequada. A conquista da moradia é base que sustentará a luta para se conquistar outros direitos.

A Bíblia apresenta a moradia não apenas como abrigo físico, mas numa visão integral como espaço de dignidade, segurança e desenvolvimento familiar. Isto é, para que a moradia seja digna e adequada é preciso estar em ambiental saudável, com acesso a saneamento, transporte público de qualidade, educação e saúde pública, cultura, lazer.

4 – MOMENTO DE REFLEXÃO

Não podemos normalizar a financeirização da moradia, que é um bem essencial à vida, um direito humano fundamental, inscrito no art. 6º da Constituição Federal, desde o ano de 2.000.

 

1)      Qual minha/nossa história sobre moradia? Nasci sem-casa? Vivo de aluguel? Ou em que tipo de casa vivo? E nossa responsabilidade ética sobre Moradia adequada para todos/as? Como é a situação de moradia do povo da minha comunidade, bairro e cidade?

2)      O que devemos fazer e como para que a Campanha da Fraternidade de 2026 sobre Moradia fortaleça a luta dos sem-teto por moradia adequada? Você conhece e participa de algum dos Movimentos Sociais que lutam por moradia (Por exemplo, Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), Movimento dos Sem Teto (MTST) ou outro movimento)?

 

5 – MÃOS À OBRA

1)      Que compromisso vamos assumir a partir deste Círculo Bíblico?

6 – Oração final e agradecimento a todos/as pela participação.

 



[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI e Ocupações Urbanas; autor de livros e artigos. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       Canal no You Tube: https://www.youtube.com/@freigilvander      –    No Instagram: @gilvanderluismoreira – Facebook: Gilvander Moreira III – No https://www.tiktok.com/@frei.gilvander.moreira

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

JESUS INICIA SUA MISSÃO PÚBLICA SE APROXIMANDO DOS ÚLTIMOS E COM ELES IRRADIA JUSTIÇA (Mt 4,12-23) - Por frei Gilvander

JESUS INICIA SUA MISSÃO PÚBLICA SE APROXIMANDO DOS ÚLTIMOS E COM ELES IRRADIA JUSTIÇA (Mt 4,12-23) - Por frei Gilvander Moreira[1]


Jesus chamando os primeiros discípulos. Reprodução Redes Virtuais

Nos dois primeiros capítulos do Evangelho de Mateus fala-se das origens de Jesus. Mateus 1-2 é para explicar para as comunidades cristãs oriundas principalmente da cultura judaico-semita Marcos 1,1, isto é, para dizer que “Jesus é o Cristo, Filho de Deus, Messias”, mas não messias conforme esperado pelos saduceus – “messias da ideologia da prosperidade” -, pelos fariseus – “messias legalista” - e nem pelos chefes dos sacerdotes - “messias da pureza cultual” - , mas um Messias que vem do meio do povo marginalizado, “gente da gente”, que só nasceu porque houve gente, principalmente mulheres, que rompeu com o lugar que a sociedade patriarcal e machista lhes impunha. Um Messias que provoca o pânico no poder estabelecido e nos Herodes de plantão, apenas por ter nascido. Um Messias que refaz o caminho do povo libertando-se da escravidão do imperialismo egípcio e que convoca seus seguidores e suas seguidoras a fazer o mesmo caminho libertador.

Inspirando-se na caminhada libertadora dos povos oprimidos no deserto em busca da terra prometida, em Mateus 3,1-12, temos a atuação do profeta João Batista, chamando à conversão e ao acolhimento do “reino dos céus que está próximo”, batizando e animando para a prática da justiça. Jesus embarca na missão proposta por João Batista, pede para ser batizado e é confirmado por “uma voz do céu” como Filho muito amado.

Em Mateus 4,1-11, Jesus, por “quarenta dias”, supera as grandes tentações e diz um não contundente à idolatria do poder, à visão mágica segundo a qual com um poder não humano se resolveria em um passe de mágica a fome do povo e refuta com firmeza também a idolatria religiosa que mente ao dizer que “pessoas ungidas” são protegidas de forma especial por Deus.

Em sintonia com o exposto acima, em Mt 4,12-23, Evangelho do Terceiro Domingo do Tempo Comum (Ano A), se narra como foi o início, onde e como Jesus iniciou sua missão pública. Antenado com os acontecimentos da realidade “ao saber que o profeta João Batista tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia, deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, à beira-mar, nos confins de Zabulon e Neftali” (Mt 4,12-13). Um acontecimento político, a prisão de um profeta, ato repressor do Estado, foi o que deu o estalo na consciência de Jesus de que era chegada sua hora de arregaçar as mangas e abraçar pra valer a bandeira empunhada pelo profeta João que acabara de ser preso e, segundo pesquisas arqueológicas e informações do historiador Flávio Josefo, provavelmente jogado algemado em uma prisão de segurança máxima.

Jesus poderia ter fugido como outros discípulos de João fugiram, mas, ao contrário, envolvido por uma ira santa, Jesus viu a voz de Deus o chamando naquela repressão político-militar que tentava abafar um movimento popular religioso que se dedicava lutar por justiça social e combater as desigualdades socioeconômicas.

Jesus não se faz neutro diante dos conflitos políticos e socioeconômicos da sociedade. Jesus se posiciona ao lado de quem luta por justiça, mesmo sabendo que poderá ser preso como foi o mestre João Batista. Jesus não aceita as desculpas religiosas levantadas por pessoas que se dizem religiosas e que são cúmplices das opressões políticas e das explorações econômicas.

Jesus não inicia sua missão pela capital, pela classe dominante, nem pela pequena burguesia eufemisticamente chamada de “classe média”, nem pelos religiosos de várias matizes. Jesus sabe que seria “bater em ferro frio”, pois em uma sociedade desigual, que cultua a mentira que é a meritocracia, “quem está na sombra” curtindo algum privilégio, não vai, por iniciativa própria, partilhar a sombra com quem se queima no sol escaldante. Jesus vai para a “beira-mar”, nos “confins...”, se aproxima e começa a conviver com trabalhadores manuais artesanais, pescadores, que conquistam o pão cotidiano com o próprio suor do trabalho.

Jesus tece aliança com as pessoas que estavam marginalizadas, na “Galileia das Nações/gentios”, considerados “povos das trevas”. Ao conviver e reconhecer a dignidade destas pessoas, Jesus é compreendido como “uma grande luz”. Esta convivência desperta seguimento e, por outro lado, desperta o ódio e a intolerância de quem ganha ao manter o povo explorado nos “confins”.

Este Evangelho acontece atualmente pelo mundo afora, por exemplo, com o padre Júlio Lancellotti no meio do povo em situação de rua na capital de São Paulo. Padre Júlio, luz para o povo da rua, mas execrado por quem insiste em violar e pisotear na dignidade de milhares de pessoas forçadas a sobreviver nas ruas por muitos motivos.

Qual a mensagem de Jesus neste início de missão? “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 4,17). Se Jesus tivesse absorvido a ideologia dominante, diria: “Abandonem o movimento de João Batista, pois vocês podem ser presos e terem o mesmo destino dele. Cultivem a pureza, pois o mundo está acabando, o julgamento está chegando.” Entretanto, ouvindo a voz divina nas entranhas dos acontecimentos, Jesus intui no meio de gravíssimo conflito e de crise existencial inclusive que era hora de fazer autocrítica, mudar o jeito de pensar e de agir, se libertar do que aprisionava e se irmanar na construção do reinado divino. Este era o apelo a ser seguido.

Jesus descobre que é ignorância agir sozinho e procura construir seu movimento inspirando-se em parte no movimento popular religioso de João Batista. No meio do povo trabalhador, convivendo, Jesus chama dois, Pedro e André, que eram pescadores artesanais. A partir do mundo deles Jesus propõe: Venha comigo e vamos juntos “pescar” pessoas para o reinado divino. Estes o seguem imediatamente. O mesmo se deu com outros dois irmãos, Tiago e João, que deixando o barco e seu pai, seguem Jesus.

A expressão “pescar homens...”, à primeira vista, tem tom pejorativo, pois insinua fazer proselitismo e fisgar o outro para “meu barco”, minha igreja, minha religião. E pior, se pensarmos que a pesca implica sempre na morte dos peixes. Mas exegeticamente não é este o sentido proposto pelo Evangelho de Mateus. Na maioria das pessoas bíblicas envolvendo acontecimento no mar, normalmente, o mar é considerado o lugar das forças do mal. Assim sendo, “pescar pessoas” retirando-as do “mar” indica salvar as pessoas de lógicas e estruturas opressoras e exploradoras, ou seja, libertá-las para participar de uma sociabilidade com justiça, respeito, amor e paz. Não é buscar oásis no mundo, mas transformar o mundo criando relações humanas e sociais justas, éticas, solidárias, de justiça e paz, de empatia pelo outro principalmente pelos mais enfraquecidos/as.

Assim, a partir dos últimos e com eles, Jesus ensina nas sinagogas da Galileia periferizada, anuncia o reinado divino e cura doenças e enfermidades.

Atualizando, podemos dizer que “de onde menos se espera” vem libertação, amorosidade, respeito, ética, empatia, solidariedade, amor gratuito... Podemos perceber este Evangelho de Mt 4,12-23 acontecendo no meio dos Povos Indígenas, no meio dos Povos Tradicionais, Quilombolas, no Povo em situação de rua, nos povos das favelas, de ocupações urbanas e camponesas, em mulheres vítimas de violência, em pessoas com orientação homoafetiva vítimas de homofobia, em pessoas de Terreiros de Candomblé, de Umbanda...

Enfim, no meio de pessoas discriminadas, muitas vezes a luz divina brilha e o amor divino é testemunhado. É preciso termos a sensibilidade de captar esta luz no meio de tantos que são empurrados para “as trevas”. Eis o caminho que liberta e salva. Jesus e os primeiros pescadores nos deram o exemplo. Feliz quem segue neste caminho de contramão do que é hegemônico e enaltecido pelos arautos do status quo opressor.

A opção revolucionária de Jesus pelos excluídos, desprezados, "impuros", indica para a defesa da vida, para a luta pela libertação de todos os males que ferem a dignidade de filhos e filhas de Deus. Seguir Jesus implica em comprometer-se com essa causa. Que tenhamos a coragem necessária de assumir verdadeiramente nossa missão de cristãos.

20/01/2026, dia de São Sebastião.

 

 

terça-feira, 14 de outubro de 2025

DEUS OUVE O CLAMOR DA VIÚVA INJUSTIÇADA (Lc 18,1-8). Por frei Gilvander

DEUS OUVE O CLAMOR DA VIÚVA INJUSTIÇADA (Lc 18,1-8). Por frei Gilvander Moreira[1]

Reprodução Redes Virtuais

A parábola da viúva perseverante na luta por justiça, exclusiva do Evangelho de Lucas, pode ser dividida assim: a) introdução redacional de Lucas, que apresenta o porquê da parábola (Lc 18,1); b) a parábola (Lc 18,2-5); c) aplicação da parábola feita por Jesus (Lc 18,6-8a); d) interrogação, atribuída a Jesus, sobre o desafio de manter a fé (Lc 18, 8b).

“Orar sempre, sem nunca desistir” (Lc 18,1). Jesus já havia dito aos discípulos: “Peçam, e lhes será dado! Procurem, e encontrarão! Batam, e a porta será aberta para vocês!” (Lc 11,9). Entretanto, pedir o quê? Como? Procurar o quê? Como? Bater em quais portas? Estas questões fazem toda a diferença no jeito de orar e de lutar por justiça.

As primeiras pessoas cristãs sentiam as mesmas dificuldades que muitas vezes sentimos: oramos e não obtemos o que pedimos! Qual era o núcleo da oração das primeiras pessoas cristãs? O que pediam? A resposta está em Lc 11,2-4 na Oração do Pai Nosso: “Pai, santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. Dá-nos a cada dia o pão de amanhã…”

Na prática, porém, a vinda do Reino divino e sua implantação demoravam. A primeira geração cristã pensava que a vinda definitiva do reinado divino seria para aqueles dias. Pouco a pouco, as comunidades tiveram de descobrir que Deus parecia tardar e isso não significava que Deus tinha abandonado o seu projeto ou que nunca viria manifestar no mundo a sua justiça.

Nesse Evangelho, Jesus promete que Deus fará justiça e realça as pessoas que são as eleitas ou escolhidas de Deus. Como ele estava falando da viúva pobre, se subtende que essas pessoas preferidas do Amor Divino não se destacariam por ser dessa ou daquela nação ou etnia ou raça, e sim por serem as que, em todos os recantos do mundo, são injustiçadas.

Houve quem abandonasse a fé como hoje há pessoas que desistem de acreditar em Deus diante de tanta injustiça, guerra e violência que se abate sobre justos e inocentes, como milhares de mulheres, mães e crianças palestinas assassinadas no brutal genocídio perpetrado com requintes de crueldade pelo governo sionista de Israel. Jesus nos mostra, por meio de uma parábola, a necessidade de orar sempre de forma correta, sem jamais esmorecer. E o conteúdo central dessa parábola, identificado com o desejo da viúva, é que seja feita justiça. No texto grego do evangelho, a raiz ‘justiça’ aparece cinco vezes, o que demonstra de forma enfática que a oração verdadeira é aquela que está colada umbilicalmente com a luta por justiça.

A pessoa injustiçada tem a fé inabalável de que será atendida (Lc 18,2-5). A parábola mostra que pessoas oprimidas e opressoras habitam a mesma cidade. O juiz injusto e a viúva injustiçada está na mesma cidade. Na perspectiva do Evangelho de Lucas, isso só acontecia nas cidades, pois nas aldeias camponesas as viúvas eram respeitadas e protegidas. Vale recordar que na Bíblia em inúmeras passagens “a viúva e os órfãos” são os mais injustiçados na sociedade.[2] De um lado, temos um juiz injusto, que não temia a Deus e não tinha consideração para com as pessoas (Lc 18,2). No caso em questão, temer a Deus significava aplicar a Lei que impedia as injustiças contra as viúvas (Ex 22,21-22; Dt 24,17). Ter consideração para com as pessoas era não fazer distinção no julgamento, favorecendo o opressor em detrimento da viúva e do pobre. O juiz devia ser imparcial: “Todos são iguais perante a lei e têm a mesma dignidade”, diz a nossa Constituição e está também na Bíblia e em todas as Constituições de países que se dizem democratas.

Do outro lado, temos uma viúva – símbolo das pessoas mais desprotegidas contra a ganância dos doutores da Lei (cf. Mc 12,40 e repetição em Lc 20,47: “Os doutores da Lei exploram as viúvas e roubam suas casas, e para disfarçar fazem longas orações”) – que se dirigia insistentemente ao juiz pedindo justiça contra quem a injustiçava (Lc 18,3). Quer no Primeiro Testamento bíblico, quer no tempo de Jesus, a viúva não tinha um defensor legal, ficando assim à mercê de juízes injustos (Is 1,23; 10,2; 2Sm 14,4ss). As leis que ordenavam defender as viúvas nunca foram levadas a sério. Não esqueçamos que os doutores da Lei eram peritos em legislação, a intelectualidade da época. Privatizando o conhecimento, os doutores da Lei gozavam de poder para dominar muita gente.

A força da viúva está na insistência, a ponto de azucrinar a vida do juiz. Este, não por causa da coerência de seus princípios, nem pela consciência da responsabilidade de sua função, decide fazer justiça à viúva. E o faz por duas razões: está cansado da amolação e quer evitar o escândalo de um tapa na cara em pleno tribunal ou em praça pública (Lc 18,5). Destemida na luta por justiça, a viúva tinha acampado na porta do tribunal e de lá estava decidida a não sair enquanto não lhe fosse conferida justiça. A oração da viúva era clamor por justiça.

Muito em breve, Deus fará justiça a seus eleitos (Lc 18,6-8a). A intervenção de Jesus visa aplicar a parábola aos ouvintes. Jesus chama a atenção para o gesto do juiz injusto que fez justiça para se ver livre da amolação da viúva. Se só por causa disso acabou fazendo justiça, quanto mais Deus, que se interessa pela causa das pessoas oprimidas! De fato, Deus é o protetor das viúvas (Ml 3,5), afirma e reafirma os profetas e as profetisas inúmeras vezes na Bíblia. As pessoas mais exploradas da sociedade escravocrata, as viúvas, portanto, têm a quem recorrer: “Não oprimam nenhuma viúva ou órfão… se clamar a mim, escutarei o seu clamor” (Ex 22,21-22), alerta Deus, mistério de infinito amor, por meio da profecia bíblica.

Jesus diz que Deus fará justiça “aos escolhidos”, ou eleitos. Essas pessoas eleitas são as perseguidas que não perdem a fé no mistério de amor que as envolve, encontram em Deus aquele que lhes faça justiça muito em breve. Esse clamor por justiça era peculiar aos primeiros cristãos e cristãs, envolvidos/as em perseguições por causa de sua fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo, ao reino divino (cf. Ap 6,10: “Até quando, ó Senhor santo e verdadeiro, tardarás a fazer justiça, vingando o nosso sangue contra os habitantes da terra?”). Deus vem ao encontro do pedido insistente dos oprimidos que perseveram na fé (dia e noite), fazendo-lhes justiça em breve (Lc 18,8a; cf. Eclo 35,18-19, onde está presente a mesma idéia da imediata intervenção de Deus em favor dos oprimidos). “A súplica do pobre penetra as nuvens e o pobre não sossega, enquanto ela não chegar até a Deus. Ele não desiste, até que o Altíssimo intervenha para fazer justiça aos justos. O Senhor não terá paciência com os injustos, enquanto não quebrar as costas dos cruéis... até quebrar o cetro dos injustos. A misericórdia é bem-vinda no templo da aflição, como as nuvens de chuva no  tempo da seca” (Eclo 35,17-24).

É difícil manter-se na luta por justiça (Lc 18,8b). Tal como agiu a viúva, assim deve ser a pessoa cristã: perseverar na luta por justiça e na oração incessante para que Deus intervenha, fazendo justiça aos injustiçados/as, salvando-os. Mas a parábola termina com uma interrogação desafiadora: Quando o Filho do Homem voltar, para fazer justiça, encontrará fé sobre a terra? Encontrará pessoas que se mantiveram fiéis a Jesus, na luta pela justiça do reinado divino e na oração perseverantes? A pergunta é uma admoestação severa: é difícil manter-se na luta. É preciso crer com garra, conservando-se prontos para a doação da vida no compromisso com as causas dos pobres, pois, tanto naquele tempo (cf. 2Ts 2,3; Mt 24,12[3]) como hoje, muitos são tentados a desanimar.

Finalmente, a expressão de Lc 18,8b pode ainda ser entendida assim: será que somos pessoas de fé, ao ponto de reconhecer a presença da justiça de Deus agindo já em nosso meio ainda sob os solavancos das injustiças? Ou temos fé só para a vinda do Filho do Homem no final dos tempos? Não será agora a hora de sentirmos que Deus está fazendo justiça às pessoas empobrecidas que não perdem a fé em Deus? Essa fé se expressa nas conquistas de lutas concretas por direitos e pelo bem comum, lutas travadas por pessoas e grupos organizados contra a impunidade dos grandes criminosos, assim como a injustiça e a violência que se abatem sobre os mais empobrecidos e violentados?

“Não estou nunca sozinho. Deus está sempre comigo”, me disse sorrindo o papai José Moreira de Souza quando eu, estando na Itália para estudar hermenêutica bíblica, disse a ele que estava preocupado porque ele estava vivendo sozinho lá na roça. Oxalá cultivemos a oração como encontro amoroso com Deus, mas colada com a luta por justiça, o que faz irromper sinais do reino divino no nosso meio.

Infelizmente, atualmente, um crescente número de pessoas alimentam suas devoções particulares, oram a Deus desejosos que se coloque a serviço de seus interesses e se esquecem de quem vive em situação de injustiça, de exclusão, de sofrimento. Esta prática é uma contradição gritante com o ensinamento e a práxis de Jesus Cristo. Jesus de Nazaré subverteu a ordem religiosa, social, política e econômica, defendendo a dignidade humana, colocando a vida acima da lei, dos ritos. É anticristão praticar a cultura do individualismo, da indiferença diante da realidade que provoca tantas mortes e violências.

A exemplo da viúva desta parábola, possamos cultivar espiritualidade libertadora, que nos anima para a luta necessária por condições dignas de vida para todas as pessoas e toda a criação, que nos faz “buscar o Reino de Deus e a sua justiça”. Eis o caminho bom e santo a ser seguido.

14/10/2025

Obs.: As videorreportagens nos links, abaixo, versam sobre o assunto tratado, acima.

1 - VIÚVA DO EVANGELHO QUE CLAMA POR JUSTIÇA: AVÓ MARLENE, NA OCUPAÇÃO-BAIRRO ELIANA SILVA/MLB Vídeo 14

2 - Helba, viúva do fiscal Nelson: "São muitas provas que condenaram Antério Mânica. 4 mandantes livres"


3 - Deuteronômio 24,17-22: "Deixe para o órfão, a viúva e o migrante". Rosa e Frei Gilvander – 2 - 3/9/2020


4 - Viúva do Evangelho e o Juiz no Acampamento Maria da Conceição, do MST, em Itatiaiuçu, MG. Vídeo 6


5 - Viúva e luta pela Justiça: Homilia de frei Gilvander/131a Festa N. Sra. Rosário/Airões/MG. Vídeo 7


6 - Ocupação Nelson Mandela, Serra/BH/MG: Viúva e mãe de 6 filhos clama por moradia digna . 29/12/14

7 - Chacina dos fiscais em Unaí: Entrevista com a viúva do Ailton, Marlene e filha Rayanne. 18/01/2013

             


[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI e Ocupações Urbanas; autor de livros e artigos. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       Canal no You Tube: https://www.youtube.com/@freigilvander      –    No instagram: @gilvanderluismoreira – Facebook: Gilvander Moreira III – No https://www.tiktok.com/@frei.gilvander.moreira

[2] Cf. Gn 21,1; Ex 22,22; Lev 18,25; Dt 10,18; Dt 24,17; Dt 24,21; Dt 27,19; Nm 16,29; Sl 68,5; Sl 94,6; Sl 109,9; Sl 146,9; Jó 22,9; Jó 24,3; Lm 5,3; Prov 23,10; Rt 1,14; Jr 49,11; Is 10,2; Os 9,9; Ez 22,7; Zc 7,10; Mal 3,5; Mt 25,36; Lc 1,43.68.77; Jo 14,18; Tg 1,27; e inúmeras outras vezes.

[3] “A maldade se espalhará tanto, que o amor de muitos se resfriará.”

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

DOS TRABALHADORES O VINHO BOM, NO 6O DIA: CRIAÇÃO DA NOVA HUMANIDADE (Jo 2,1-11) - Por Gilvander

DOS TRABALHADORES O VINHO BOM, NO 6O DIA: CRIAÇÃO DA NOVA HUMANIDADE (Jo 2,1-11) - Por Gilvander Moreira[1]



No dia 12 de outubro de 2025, o Evangelho proposto para a celebração nas comunidades cristãs é Jo 2,1-11, “Bodas de Caná”, que integra a seção Livro dos Sinais (Jo 1,19-12,50), o primeiro dos sete sinais que estão no Evangelho de João dos capítulos dois ao onze. Sinais e não milagres. Nos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas há relatos de muitos milagres, mas o Evangelho de João relata sete sinais, que é algo “como sinal de trânsito” que nos aponta para algo mais profundo.

Os sinais se manifestam em situações de carência – falta de vinho, falta de pão, falta de visão... – e devem ser compreendidos na perspectiva de encontrar respostas para aquelas perguntas sobre o contexto das comunidades do Quarto Evangelho. É possível que para escrever o Livro dos Sinais (Jo 1 –12) as comunidades cristãs do Quarto Evangelho tenham usado um “Evangelho dos sinais”, conhecido também por Marcos, mas perdido ao longo do tempo. Este “Evangelho dos sinais” conteria “milagres” de Jesus presentes nos dois evangelhos: a cura de um paralítico, a “multiplicação” dos pães, Jesus andando sobre as águas, a cura de um cego.

Conforme frei Carlos Mesters, “o Evangelho de João não tira fotografias, mas RAIO X com os olhos da fé, do coração: mostra os ossos invisíveis da fé que sustenta todos e tudo.” O Quarto Evangelho vê o mais profundo. “A essência é invisível aos olhos humanos”, já dizia o grande filósofo Aristóteles.

No Quarto Evangelho a liderança das mulheres se destaca (Cf. Jo 2,5: a mãe de Jesus; 11,20-29: Marta e Maria, irmãs de Lázaro; 12,3: Maria, irmã de Lázaro; 19,25-27: a mãe de Jesus, Maria, a mulher de Cléofas e Maria Madalena; 20,16-18: Maria Madalena). As comunidades do Quarto Evangelho mantinham o espaço para a importante participação das mulheres, característica respaldada também em Mc 15,40-41; At 16,11-15; Rm 16,1-16. Lugar onde se dá o encontro com Jesus, o poço é um ponto estratégico das aldeias na Palestina. Lugar de partilha dos recursos, do encontro entre as mulheres, das conversas matutinas.

Se no Evangelho de Mateus é o apóstolo Pedro que reconhece por primeiro Jesus como “o messias, o senhor, salvador”, no centro do Evangelho de João está a confissão messiânica de Marta (Jo 11,27: “Sim, Senhor. Eu acredito que tu és o Messias, o Filho de Deus que devia vir a este mundo.”), confissão igual à de Pedro em Mt 16,16.

Devemos enfatizar que para compreendermos Jo 2,1-11, “Bodas de Caná”, faz bem reconhecer a relevância das mulheres no Evangelho de João: Maria está no início e no fim. Em Jo 2,3 e 4 aparece claramente uma evolução na fé que vai desde a desconfiança de Jesus a respeito dos judeus (Jo 2,23-42). No centro da confrontação entre Jesus e os judeus aparece outra mulher, a que deve ser apedrejada por adultério. No centro de João está a confissão de Marta (Jo 11,27). No final do ministério público de Jesus, está outra mulher, Maria de Betânia. Com um gesto profético, ela unge os pés de Jesus (Jo 12,1-11). O seu gesto foi repetido pelo próprio Jesus na última ceia (Jo 13,1-16). Tem ainda outro grupo de mulheres (Jo 19,25-27). Maria Madalena é a mulher da busca incansável. A credencial para ser apóstolo é ter visto o Senhor ressuscitado e ter sido enviado a anunciá-lo (1 Cor 9,1-2; 15,8-11; Gl 1,11-16). Por isso, desde o começo da tradição apostólica, Maria Madalena recebeu o título de apóstola dos apóstolos. É bom conferir as diferenças entre as conversas de Jesus com Nicodemos e com a samaritana. Esta é mulher, anônima, desprezada socialmente e marginalizada. Ela não procura Jesus diretamente, mas é uma mulher com sede de vida, disposta a ter uma água que não seja a água parada no poço. Sente-se atraída pela proposta de Jesus, crendo, aceitando e reconhecendo nele o Messias. A conversa com a samaritana acontece em plena luz do dia.

Por que falta vinho na festa em CANÁ? (Cf. Jo 2,4) Por causa do vinho muito sangue foi derramado naquela região (cf. Jz 9,12-13; I Sam 8,14; I Rs 21) devido ao aprisionamento da terra nas mãos de poucos. A realidade é de escassez, de carência. A solução aparece a partir da intervenção de uma mulher, pelo trabalho dos servos (pequenos e insignificantes) e a solidariedade de Jesus. É na mão dos serventes que a água se torna vinho. Depois da festa em Caná, cidade da periferia da Palestina, Jesus vai à festa da Páscoa em Jerusalém e lá ele “estraga” a festa ao expulsar os vendilhões do Templo (cf. Jo 2,13-22). Este episódio, segundo os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, é o que precipita a decisão de assassinar Jesus. Mas já segundo Jo 11,45-54, o que precipitou a decisão de sacrificar Jesus foi a ressurreição de Lázaro, Jesus se revelando como fonte de vida. Quem gera vida deve ser assassinado, não pode ser tolerado, concluem os adversários “judeus”. Seis talhas de pedra significam as seis festas judaicas e recordam a Lei em “pedras”.

Na Bíblia casamento significa a realização do íntegro relacionamento entre Deus e o povo, as núpcias definitivas. Desde Oséias (Os 2,21-22). Jeremias também aponta para a esperança de um casamento íntegro (Jr 31,1-4) com esta novidade: será a mulher que seduzirá o marido (Jr 31,17-22). O casamento em Caná quer mostrar que Jesus é o verdadeiro noivo que veio para o tão esperado casamento, trazendo um vinho gostoso e abundante.

Numa Comunidade Eclesial de Base (CEB), alguém comentou: “Jesus transformou muito vinho. Foram 600 litros. Será que beberam tudo?” Uma mulher respondeu repentinamente: “O vinho novo é Jesus com seu projeto e nós continuamos tomando até hoje. É quem sustenta nossas vidas.”

Nas Bodas de Caná, Deus se faz presente no meio do povo e com esse povo celebra a vida, a partilha, suas alegrias e suas necessidades. E foi uma mulher, Maria, que, atenta, sensível e confiante na ação do filho, mostrou a Jesus a necessidade do momento: "Eles não têm mais vinho!" E disse ainda aos que estavam servindo: "Façam o que Ele mandar." 

Como Maria, estamos também atentos à realidade para reconhecer as necessidades do nosso tempo, de tantos irmãos e irmãs? Necessidades que podem ser supridas se colocarmos em ação o projeto de vida nova que Jesus propõe. Foi assim nas Bodas de Caná: Jesus inaugurou um tempo novo, tendo como protagonistas de transformação da realidade os pequenos. E houve abundância... "Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10).

 

08/10/25

 [1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI e Ocupações Urbanas; autor de livros e artigos. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       Canal no You Tube: https://www.youtube.com/@freigilvander      –    No instagram: @gilvanderluismoreira – Facebook: Gilvander Moreira III – No https://www.tiktok.com/@frei.gilvander.moreira


terça-feira, 7 de outubro de 2025

ELOY FERREIRA DA SILVA: 41 ANOS DO SEU MARTÍRIO EM DEFESA DOS CAMPONESES POSSEIROS NA LUTA PELA TERRA - Por frei Gilvander

ELOY FERREIRA DA SILVA: 41 ANOS DO SEU MARTÍRIO EM DEFESA DOS CAMPONESES POSSEIROS NA LUTA PELA TERRA - Por frei Gilvander Moreira[1]

Eloy Ferreira da Silva, mártir da luta em defesa dos camponeses posseiros em Minas Gerais.


Dia 16 de dezembro de 2025, celebraremos 41 anos do martírio de Eloy Ferreira da Silva. Necessário se faz resgatarmos quem foi Eloy e continua sendo, agora em vida plena e em nós na luta pela terra, pela reforma agraria e pela demarcação dos territórios dos Povos Indígenas e Tradicionais.

Como dirigente sindical, viveu intensamente o apoio à luta de organização e resistência dos posseiros do município de São Francisco e da região norte e noroeste de Minas Gerais. Eleito Delegado Sindical do Distrito de Serra das Araras, em 1978, ele liderou a resistência dos posseiros contra os invasores e grileiros de terra. Presidente do Sindicato dos Trabalhadores/as Rurais de São Francisco, desde 1981, Eloy Ferreira da Silva era uma das lideranças mais combativas no norte e noroeste de Minas Gerais, conhecido e respeitado em todo o estado.


As ameaças de morte que Eloy sofreu foram muitas. Foram constantes por parte dos grileiros e até do Juiz de Direito da cidade, que várias vezes o ameaçou psicologicamente.

Trabalhador rural não é covarde”, dizia Eloy, que denunciava as pressões, os despejos e as queimas de casas a todas as entidades que podiam dar algum apoio. Combatia toda violência que recaia sobre os camponeses posseiros: “Nossa arma é união, organização e a verdade”, Eloy sempre dizia.

Praxedes Ferreira da Silva, posseiro sobrinho de Eloy Ferreira da Silva, assassinado no município de São Francisco, em 28 de outubro de 1978. Eloy sentia a dor pelo assassinato do seu sobrinho Praxedes. Eloy se indignava diante de toda e qualquer injustiça e violência. Eloy não arredava o pé da luta pelos direitos dos camponeses posseiros. As ameaças seguiam aumentando. Até que dia 16 de dezembro de 1984, Eloy Ferreira da Silva foi barbaramente assassinado e se tornou mais um mártir da luta pela terra e pela Reforma Agrária.


Este assassinato atingiu não só o Eloy, mas também a organização do povo camponês. Atingiu um líder que doou sua vida como Jesus Cristo para que os pobres deixem de ser escravizados pelos poderosos.

Eloy era um homem de fé profunda. A todo momento ligava sua luta à libertação dos hebreus escravizados no Egito, sob o imperialismo dos faraós. “Deus está do nosso lado” era a fé que animava sua luta. Eloy buscava praticar a utopia cantada no Cântico de Maria no Evangelho de Lucas: “Os poderosos serão derrubados dos seus tronos e os pobres serão elevados. Os ricos serão despedidos de mãos vazias e os famintos serão saciados” (Lc 1,52-53).

Eloy Ferreira da Silva foi martirizado aos 54 anos, deixando a esposa e 10 filhos, também ameaçados pelos mesmos grileiros.


O norte e noroeste de Minas Gerais são territórios de ocupação muito antiga. Havia muitas áreas cheias de posseiros morando em terras devolutas. Nas décadas de 1970 e 1980, as grandes empresas e o latifundiário descobriram o norte e noroeste de Minas Gerais, regiões dos maiores latifúndios e dos maiores conflitos de terra do estado de Minas Gerais. A monocultura do eucalipto e a pecuária extensiva de gado cresceram muito sob o poder de fazendeiros e empresários mandando jagunços e capangas pisar em cima dos camponeses posseiros. Isso com a cumplicidade do Estado.

Na Fazenda Vereda Grande, no município de São Francisco, moravam 36 famílias de posseiros muito antigos. O maior latifundiário de Minas Gerais, Antônio Luciano, tentou se apoderar dessas terras, desviando o Rio Urucuia. Os posseiros impediram a entrada dos tratores e exigiram uma posição do Governo de Minas Gerais. O INCRA desapropriou a fazenda do pretenso dono em 1983. Mesmo com a desapropriação, o grileiro Antônio Luciano continuou a pressionar e ameaçar os posseiros.

Ao lado da posse da família de Eloy Ferreira da Silva, começa a fazenda Menino, megalatifúndio de 90 mil hectares, invadida por grileiros que ameaçavam a posse de 220 famílias camponesas posseiras. Junto com os posseiros, os sem-terra da região exigiram do governo que desarmasse os jagunços dos grileiros. Em vez disso, o delegado especial fiscalizava a organização dos posseiros e trabalhadores sem-terra. Os posseiros Januário Emídio dos Santos e José Natal Romão foram assassinados dia 14 de novembro de 1990, na Fazenda Menino, no município de Arinos, próximo de onde Eloy Ferreira tinha sido assassinado seis anos antes.

Exigir que na Fazenda Menino haja PAZ e TRABALHO para os Sem Terra da região é uma porção do legado extraordinário de luta pela terra que ELOY deixou para nós. Graças à luta de Eloy Ferreira da Silva na Fazenda Menino estão assentadas centenas de famílias de camponeses que estavam sem-terra.

A Comissão Pastoral da Terra (CPT/MG) divulgou um pequeno livro sobre a luta de Eloy Ferreira da Silva. ELOY: MORRE UMA VOZ, NASCE UM GRITO, livro lançado pela SEGRAC, de autoria de Luiz Chaves, Luiz Araújo e Jô Amado. Só em 1985 foram assassinados 16 lavradores na luta pela terra em Minas Gerais.

Dona Luzia, viúva de Eloy dizia; “Eloy vinha sempre lutando do lado dos pobres. Até deixou o que era dele mesmo mais afastado para se doar aos pobres. Ele ajudou, ajudou...”. E a batata quente da luta camponesa está em nossa mão. É dever ético continuarmos a luta pela terra, por reforma agrária, pela demarcação dos territórios dos Povos Indígenas de todas as Comunidades Tradicionais. Eloy Ferreira da Silva, presente em nós na luta por direitos, sempre!

É evidente o quanto é sofrida a luta pelo direito à terra, dom de Deus, direito de todos os camponeses e camponesas,  e o quanto é necessário intensificar a regularização fundiária e promover a Reforma Agrária, com desapropriação das terras ociosas, sem função social.

 

No vídeo “Assassinato de Eloy Ferreira da Silva - Tribunal Nacional dos Crimes do Latifúndio” está o relato do crime bárbaro que ceifou a vida de Eloy Ferreira da Silva, no link abaixo.



 



[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI e Ocupações Urbanas; autor de livros e artigos. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       Canal no You Tube: https://www.youtube.com/@freigilvander      –    No instagram: @gilvanderluismoreira – Facebook: Gilvander Moreira III – No https://www.tiktok.com/@frei.gilvander.moreira