quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

FRATERNIDADE E MORADIA, TEMA DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2026, COM O LEMA “ELE VEIO MORAR ENTRE NÓS” (Jo 1,14)

FRATERNIDADE E MORADIA, TEMA DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2026, COM O LEMA “ELE VEIO MORAR ENTRE NÓS” (Jo 1,14)

CÍRCULO BÍBLICO elaborado por frei Gilvander Moreira[1]


1 – Acolher todos/as e todes. Canto inicial e oração inicial.

2 – FATO DA VIDA

No Brasil continua existindo e se reproduzindo uma brutal Injustiça Habitacional. Segundo a Fundação João Pinheiro (2023), o déficit habitacional brasileiro ultrapassa 5,8 milhões de moradias, concentrando-se nas regiões metropolitanas. O número de sem-moradia “cresceu 4,2% em comparação com 2019” (CF 2026, nº 30). Acima de 30% da população sobrevive em favelas e assentamentos precários. Cerca de 11 milhões de pessoas sobrevivem em favelas (IBGE, 2022), com infraestrutura inadequada. Há também desigualdade regional: as regiões Norte e Nordeste concentram 60% do déficit habitacional, apesar de terem apenas 42% da população. Em muitas capitais, famílias de baixa renda gastam mais de 50% do orçamento com aluguel. A população em situação de rua está crescendo muito. Estima-se que cerca de 330 mil pessoas esteja em situação de rua, em “2024, um aumento de 25% em relação a dezembro de 2023” (CF 2026, nº 43).

“Entre 2010 e 2022, o número de favelas dobrou e o número de habitantes [nelas] cresceu em 40%” (texto-base da CF 2026, nº 55). De 30 a 40% da população carrega o peso da cruz do aluguel ou da humilhação que é sobreviver de favor em casa de parente. Muita gente clama: “O aluguel come no nosso prato todos os dias. Muitas vezes temos que tirar alimento da boca dos nossos filhos para pagar aluguel.” “Sobreviver de favor em casa de parente é humilhação o tempo todo. Não temos liberdade pra nada. As crianças não podem brincar, pois incomodam quem é dono da casa. Não podemos convidar uma pessoa amiga para nos visitar. Vivemos amontoados.” “Uma pessoa/família sem moradia é como um pássaro que voa, voa, se cansa e não tem um ninho para se assentar.

3 – O que a Bíblia nos diz sobre o direito à moradia

O Lema bíblico "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (João 1,14) nos mostra que o Deus da vida, solidário e libertador, por amor assumiu nosso corpo como sua moradia. Largou o céu (Ap 21,1-5) e veio morar conosco. Logo, toda pessoa é sagrada, é “imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,27), é “templo do Espírito Santo” (1Cor 6,19).  E a dignidade humana é o princípio basilar da nossa Constituição Federal de 1988 que deve ser respeitado. A falta de moradia ou a precariedade da moradia avilta, viola e pisoteia a dignidade humana.

Na Bíblia, há inúmeras passagens proféticas que nos mostram que nós discípulos/as de Jesus Cristo, que nasceu sem-teto e ao final de sua missão nos alerta “eu era estrangeiro e vocês me receberam eu sua casa” (Mt 25,35), temos que lutar para que ninguém fique sem moradia digna e adequada, conforme nos exortou o papa Francisco: “Nenhuma pessoa sem moradia...”

"Não oprimirás o estrangeiro... porque fostes estrangeiros na terra do Egito" (Êx 23,9). “Ai daqueles que juntam casa com casa e emendam campo a campo, até que não sobre mais espaço e sejam os únicos a habitarem no meio de país...” (Is 5,8). Ou seja, a brutal cruz que é imposta sobre mais de 30% da população brasileira não é por acaso e não por irresponsabilidade pessoal ou preguiça do povo, mas trata, sim, de um projeto capitalista de acumulação de riqueza e poder nas mãos de uma minoria. Milhões são forçados a sobreviverem sem moradia digna e adequada para que uma minoria lucre muito com aluguel e com a especulação imobiliária. 

Solidariedade libertadora não pode se limitar a doação de roupas, alimentos ou pequenas ajudas, é preciso incluir necessariamente compromisso com a luta para que as pessoas sem moradia conquistem moradia digna e adequada. A conquista da moradia é base que sustentará a luta para se conquistar outros direitos.

A Bíblia apresenta a moradia não apenas como abrigo físico, mas numa visão integral como espaço de dignidade, segurança e desenvolvimento familiar. Isto é, para que a moradia seja digna e adequada é preciso estar em ambiental saudável, com acesso a saneamento, transporte público de qualidade, educação e saúde pública, cultura, lazer.

4 – MOMENTO DE REFLEXÃO

Não podemos normalizar a financeirização da moradia, que é um bem essencial à vida, um direito humano fundamental, inscrito no art. 6º da Constituição Federal, desde o ano de 2.000.

 

1)      Qual minha/nossa história sobre moradia? Nasci sem-casa? Vivo de aluguel? Ou em que tipo de casa vivo? E nossa responsabilidade ética sobre Moradia adequada para todos/as? Como é a situação de moradia do povo da minha comunidade, bairro e cidade?

2)      O que devemos fazer e como para que a Campanha da Fraternidade de 2026 sobre Moradia fortaleça a luta dos sem-teto por moradia adequada? Você conhece e participa de algum dos Movimentos Sociais que lutam por moradia (Por exemplo, Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), Movimento dos Sem Teto (MTST) ou outro movimento)?

 

5 – MÃOS À OBRA

1)      Que compromisso vamos assumir a partir deste Círculo Bíblico?

6 – Oração final e agradecimento a todos/as pela participação.

 



[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI e Ocupações Urbanas; autor de livros e artigos. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       Canal no You Tube: https://www.youtube.com/@freigilvander      –    No Instagram: @gilvanderluismoreira – Facebook: Gilvander Moreira III – No https://www.tiktok.com/@frei.gilvander.moreira

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

JESUS INICIA SUA MISSÃO PÚBLICA SE APROXIMANDO DOS ÚLTIMOS E COM ELES IRRADIA JUSTIÇA (Mt 4,12-23) - Por frei Gilvander

JESUS INICIA SUA MISSÃO PÚBLICA SE APROXIMANDO DOS ÚLTIMOS E COM ELES IRRADIA JUSTIÇA (Mt 4,12-23) - Por frei Gilvander Moreira[1]


Jesus chamando os primeiros discípulos. Reprodução Redes Virtuais

Nos dois primeiros capítulos do Evangelho de Mateus fala-se das origens de Jesus. Mateus 1-2 é para explicar para as comunidades cristãs oriundas principalmente da cultura judaico-semita Marcos 1,1, isto é, para dizer que “Jesus é o Cristo, Filho de Deus, Messias”, mas não messias conforme esperado pelos saduceus – “messias da ideologia da prosperidade” -, pelos fariseus – “messias legalista” - e nem pelos chefes dos sacerdotes - “messias da pureza cultual” - , mas um Messias que vem do meio do povo marginalizado, “gente da gente”, que só nasceu porque houve gente, principalmente mulheres, que rompeu com o lugar que a sociedade patriarcal e machista lhes impunha. Um Messias que provoca o pânico no poder estabelecido e nos Herodes de plantão, apenas por ter nascido. Um Messias que refaz o caminho do povo libertando-se da escravidão do imperialismo egípcio e que convoca seus seguidores e suas seguidoras a fazer o mesmo caminho libertador.

Inspirando-se na caminhada libertadora dos povos oprimidos no deserto em busca da terra prometida, em Mateus 3,1-12, temos a atuação do profeta João Batista, chamando à conversão e ao acolhimento do “reino dos céus que está próximo”, batizando e animando para a prática da justiça. Jesus embarca na missão proposta por João Batista, pede para ser batizado e é confirmado por “uma voz do céu” como Filho muito amado.

Em Mateus 4,1-11, Jesus, por “quarenta dias”, supera as grandes tentações e diz um não contundente à idolatria do poder, à visão mágica segundo a qual com um poder não humano se resolveria em um passe de mágica a fome do povo e refuta com firmeza também a idolatria religiosa que mente ao dizer que “pessoas ungidas” são protegidas de forma especial por Deus.

Em sintonia com o exposto acima, em Mt 4,12-23, Evangelho do Terceiro Domingo do Tempo Comum (Ano A), se narra como foi o início, onde e como Jesus iniciou sua missão pública. Antenado com os acontecimentos da realidade “ao saber que o profeta João Batista tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia, deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, à beira-mar, nos confins de Zabulon e Neftali” (Mt 4,12-13). Um acontecimento político, a prisão de um profeta, ato repressor do Estado, foi o que deu o estalo na consciência de Jesus de que era chegada sua hora de arregaçar as mangas e abraçar pra valer a bandeira empunhada pelo profeta João que acabara de ser preso e, segundo pesquisas arqueológicas e informações do historiador Flávio Josefo, provavelmente jogado algemado em uma prisão de segurança máxima.

Jesus poderia ter fugido como outros discípulos de João fugiram, mas, ao contrário, envolvido por uma ira santa, Jesus viu a voz de Deus o chamando naquela repressão político-militar que tentava abafar um movimento popular religioso que se dedicava lutar por justiça social e combater as desigualdades socioeconômicas.

Jesus não se faz neutro diante dos conflitos políticos e socioeconômicos da sociedade. Jesus se posiciona ao lado de quem luta por justiça, mesmo sabendo que poderá ser preso como foi o mestre João Batista. Jesus não aceita as desculpas religiosas levantadas por pessoas que se dizem religiosas e que são cúmplices das opressões políticas e das explorações econômicas.

Jesus não inicia sua missão pela capital, pela classe dominante, nem pela pequena burguesia eufemisticamente chamada de “classe média”, nem pelos religiosos de várias matizes. Jesus sabe que seria “bater em ferro frio”, pois em uma sociedade desigual, que cultua a mentira que é a meritocracia, “quem está na sombra” curtindo algum privilégio, não vai, por iniciativa própria, partilhar a sombra com quem se queima no sol escaldante. Jesus vai para a “beira-mar”, nos “confins...”, se aproxima e começa a conviver com trabalhadores manuais artesanais, pescadores, que conquistam o pão cotidiano com o próprio suor do trabalho.

Jesus tece aliança com as pessoas que estavam marginalizadas, na “Galileia das Nações/gentios”, considerados “povos das trevas”. Ao conviver e reconhecer a dignidade destas pessoas, Jesus é compreendido como “uma grande luz”. Esta convivência desperta seguimento e, por outro lado, desperta o ódio e a intolerância de quem ganha ao manter o povo explorado nos “confins”.

Este Evangelho acontece atualmente pelo mundo afora, por exemplo, com o padre Júlio Lancellotti no meio do povo em situação de rua na capital de São Paulo. Padre Júlio, luz para o povo da rua, mas execrado por quem insiste em violar e pisotear na dignidade de milhares de pessoas forçadas a sobreviver nas ruas por muitos motivos.

Qual a mensagem de Jesus neste início de missão? “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 4,17). Se Jesus tivesse absorvido a ideologia dominante, diria: “Abandonem o movimento de João Batista, pois vocês podem ser presos e terem o mesmo destino dele. Cultivem a pureza, pois o mundo está acabando, o julgamento está chegando.” Entretanto, ouvindo a voz divina nas entranhas dos acontecimentos, Jesus intui no meio de gravíssimo conflito e de crise existencial inclusive que era hora de fazer autocrítica, mudar o jeito de pensar e de agir, se libertar do que aprisionava e se irmanar na construção do reinado divino. Este era o apelo a ser seguido.

Jesus descobre que é ignorância agir sozinho e procura construir seu movimento inspirando-se em parte no movimento popular religioso de João Batista. No meio do povo trabalhador, convivendo, Jesus chama dois, Pedro e André, que eram pescadores artesanais. A partir do mundo deles Jesus propõe: Venha comigo e vamos juntos “pescar” pessoas para o reinado divino. Estes o seguem imediatamente. O mesmo se deu com outros dois irmãos, Tiago e João, que deixando o barco e seu pai, seguem Jesus.

A expressão “pescar homens...”, à primeira vista, tem tom pejorativo, pois insinua fazer proselitismo e fisgar o outro para “meu barco”, minha igreja, minha religião. E pior, se pensarmos que a pesca implica sempre na morte dos peixes. Mas exegeticamente não é este o sentido proposto pelo Evangelho de Mateus. Na maioria das pessoas bíblicas envolvendo acontecimento no mar, normalmente, o mar é considerado o lugar das forças do mal. Assim sendo, “pescar pessoas” retirando-as do “mar” indica salvar as pessoas de lógicas e estruturas opressoras e exploradoras, ou seja, libertá-las para participar de uma sociabilidade com justiça, respeito, amor e paz. Não é buscar oásis no mundo, mas transformar o mundo criando relações humanas e sociais justas, éticas, solidárias, de justiça e paz, de empatia pelo outro principalmente pelos mais enfraquecidos/as.

Assim, a partir dos últimos e com eles, Jesus ensina nas sinagogas da Galileia periferizada, anuncia o reinado divino e cura doenças e enfermidades.

Atualizando, podemos dizer que “de onde menos se espera” vem libertação, amorosidade, respeito, ética, empatia, solidariedade, amor gratuito... Podemos perceber este Evangelho de Mt 4,12-23 acontecendo no meio dos Povos Indígenas, no meio dos Povos Tradicionais, Quilombolas, no Povo em situação de rua, nos povos das favelas, de ocupações urbanas e camponesas, em mulheres vítimas de violência, em pessoas com orientação homoafetiva vítimas de homofobia, em pessoas de Terreiros de Candomblé, de Umbanda...

Enfim, no meio de pessoas discriminadas, muitas vezes a luz divina brilha e o amor divino é testemunhado. É preciso termos a sensibilidade de captar esta luz no meio de tantos que são empurrados para “as trevas”. Eis o caminho que liberta e salva. Jesus e os primeiros pescadores nos deram o exemplo. Feliz quem segue neste caminho de contramão do que é hegemônico e enaltecido pelos arautos do status quo opressor.

A opção revolucionária de Jesus pelos excluídos, desprezados, "impuros", indica para a defesa da vida, para a luta pela libertação de todos os males que ferem a dignidade de filhos e filhas de Deus. Seguir Jesus implica em comprometer-se com essa causa. Que tenhamos a coragem necessária de assumir verdadeiramente nossa missão de cristãos.

20/01/2026, dia de São Sebastião.