sexta-feira, 4 de abril de 2025

JESUS LIVRA MULHER DE SER ASSASSINADA POR RELIGIOSOS (Jo 8,1-11) - Por frei Gilvander

JESUS LIVRA MULHER DE SER ASSASSINADA POR RELIGIOSOS (Jo 8,1-11) - Por frei Gilvander Moreira[1]

Reprodução Redes Virtuais

Por que Jesus não condena a mulher acusada de adultério, mas a livra de ser linchada por pessoas religiosas? Com o injusto título de “mulher adúltera”[2], no Evangelho de João, em Jo 8,1-11, temos Jesus acolhendo e defendendo uma mulher arrastada por religiosos fariseus e doutores da lei e ameaçada de morte. Não todos certamente, os doutores da Lei e fariseus ameaçavam assassinar, sob apedrejamento, uma mulher, conforme eles dizem, surpreendida em adultério. Se muitos doutores da lei e fariseus excluíam as mulheres segundo a lei da pureza e da impureza, logo eram inimigos delas. Por isso não podemos acreditar, sem mais, que estivessem falando a verdade. Acusar a mulher de adultério pode ter sido calúnia, difamação e injúria proferida por eles ou por alguém.

Quando o Evangelho de João menciona o termo “judeus”, pode estar se referindo  a  alguém do povo de cultura judaica[3], mas mais frequentemente parece se tratar de lideranças do judaísmo reformador. Esses são os fariseus que ameaçam a mulher e querem vencer Jesus em uma cilada.[4] Antes da década de 70 do século I da Era Comum, a religião judaica era plural, mas depois da guerra judaica em que o exército do império Romano, escravocrata, devastou a cidade de Jerusalém e destruiu o templo (anos 70), só sobreviveu o grupo do judaísmo rigorista, fundamentalista e moralista. Jo 8,1-11 foi escrito nas décadas de 80 ou 90 do 1º século. Isto indica que são estes judeus tradicionalistas que tramam para se apoderarem de Jesus, matá-lo, e linchar a mulher.

Parte dos fariseus da época de Jesus era constituída por lideranças populares comprometidas com a libertação do povo oprimido. Eles ensinavam o resgate das tradições como forma de resistência aos opressores e exploradores. O que antes era uma pluralidade de crenças, esperanças e práticas foi sendo reduzido a uma única forma. O que era diferente passou a ser demonizado (Jo 8,48), até assassinado “em nome de Deus” (Jo 16,2). Após a destruição de Jerusalém nos anos 70, os judeus chegaram a um acordo com os romanos. O judeu que se filiasse a uma sinagoga e nela pagasse o imposto teria seus direitos reconhecidos pelo Império. Mas quem não se adequasse... ficava excluído. As pessoas que aderiam às comunidades cristãs foram excluídas da sinagoga como a mulher que estava sendo ameaçada de morte por fariseus e doutores da lei.

No Primeiro Testamento bíblico, vários textos proféticos comparam o adultério com o rompimento da aliança com Deus e os líderes do Judaísmo rabínico interpretaram assim as comunidades cristãs que se afastavam da sinagoga. Eram como uma mulher casada que traísse o seu marido (Deus) e se ligasse a amantes. Assim se diz nos livros de Jeremias e de Oseias: “O Senhor me disse: - Você viu o que fez Israel, a infiel? Subiu em todo monte elevado e foi para debaixo de toda árvore verdejante a fim de prostituir‑se” (Jer 3,6). Israel, (...) você se prostitui, abandonando o seu Deus; você ama o salário da prostituição em cada local onde o trigo é malhado” (Os 9,1-2).

Após o ano 70 sobraram do judaísmo somente os fariseus rigoristas e os cristãos que eram respeitosos com o diferente e abertos, enquanto os fariseus fundamentalistas foram se tornando cada vez mais intolerantes. Chegaram ao ponto de se excomungarem mutuamente. Por isso o Evangelho de João acentua as brigas entre Jesus e os judeus.[5] Neste contexto, o conflito com a autoridade dos judeus provoca uma releitura do ensinamento e da práxis de Jesus. O fato concreto em Jo 8,1-11 é que a mulher estava na iminência de ser morta por eles.

Como era a Lei do adultério no tempo do Primeiro Testamento bíblico? Nos livros de Levítico (Lv 20,10) e Deuteronômio (Dt 22,23) está prescrita a pena de morte para as pessoas adúlteras, sem, no entanto, afirmar qual o tipo de pena a ser aplicada. No livro de Levítico há a prescrição: “Se um homem cometer adultério com a mulher de outro homem, com a mulher de seu próximo, o homem e a mulher adúltera serão punidos com a morte” (Lev 20,10).

Para configurar um adultério a outra mulher devia ser casada e judia. Se a mulher não fosse casada, não era adultério, mas fornicação. Na Bíblia, o adultério era punido com a morte do homem adúltero e da mulher adúltera, se o adultério acontece na cidade. No entanto, se o adultério ocorresse na zona rural, no campo, apenas o homem deveria ser punido com a pena de morte. Se fosse no campo, não teria como provar se houve o consentimento da mulher, pois se ela pedisse socorro, dificilmente alguém poderia escutar; na cidade, se a mulher gritasse pedindo socorro, alguém ouviria e teria como comprovar que a mulher estava sendo vítima.

No caso da mulher adúltera desse Evangelho de Jo 8,1-11, nada se diz sobre isso (onde, com quem e nem como foi). O importante para os seus adversários era condená-la e principalmente apoderar-se de Jesus. Jesus, percebendo a cilada de doutores da lei e de fariseus, se levantou e disse: “Quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra” (Jo 8,7). Eles “olharam no espelho” e foram embora, um a um. A mulher, no centro das atenções, reconhece Jesus como Senhor (Jo 8,11). Jesus, de pé, após dialogar com a mulher, lhe diz: “Eu também não te condeno. Podes ir, e não peques mais” (Jo 8,11). Observe um detalhe: Jesus disse para a mulher não voltar a pecar. Ele não disse para a mulher deixar de amar. Nas entrelinhas, Jesus diz: continua sua vida, mulher, amando, lutando e festando, sendo humana e digna de respeito, cuidado e amor.

O autor do Quarto Evangelho termina o capítulo 8 nos informando: “Eles – doutores da Lei e fariseus - pegaram pedras para atirar em Jesus. Mas Jesus se escondeu e saiu do Templo” (Jo 8,59). Ou seja, eles, de fato, queriam era condenar Jesus à pena de morte e apedrejá-lo, como fizeram com o diácono Estevão (At 7,55-60).

A narrativa da Mulher Adúltera está inserida dentro da narrativa da Festa das Tendas no Evangelho de João. De tantas maneiras ela está fora do lugar! É só uma isca para tentar atacar Jesus em uma armadilha de homens moralistas que se dizem religiosos. A passagem de Jo 8,1-11 nos séculos I e II não constava nos manuscritos do Evangelho de João, mas estava inserida em alguns manuscritos do Evangelho de Lucas. Alguns biblistas pensam que poderia ser atribuída a Lucas, pois parece ter um estilo mais lucano que joanino. Há, inclusive, um lugar em Lucas onde ficaria bem encaixada: (Cf. Lc 12,38 +). Isso, porém, não diminui o fato de se tratar de uma narrativa que tem valor bíblico, de inspiração incontestada e com valor histórico.

Em Jo 8,1-11, Jesus testemunha a vontade de Deus, que não quer a morte do pecador, mas sim que se converta e viva.[6] Em Jo 2,3 e 4 aparece claramente uma evolução na fé que mostra a desconfiança de Jesus a respeito dos judeus (Jo 2,23-4,42).

Importante observarmos que as mulheres têm participação de destaque nas Comunidades Cristãs do discípulo amado, o quarto evangelista. As mulheres no Evangelho de João: Maria, a mãe de Jesus, está no início e no fim. Em Jo 2,5, aparece a função da mãe de Jesus. Em Jo 4,1-42 se trata da samaritana que é apresentada como exemplo a ser seguida.

É bom conferir as diferenças entre as conversas de Jesus com Nicodemos e com a samaritana. Esta é mulher, anônima, desprezada socialmente e marginalizada. Ela não procura Jesus diretamente, mas é uma mulher com sede de vida, disposta a ter uma água que não seja a água parada no poço. Sente-se atraída pela proposta de Jesus, crendo, aceitando e reconhecendo nele o Messias. A conversa com a samaritana acontece em plena luz do dia.

No centro da confrontação entre Jesus e os judeus aparece outra mulher, essa da qual fala o evangelho deste domingo, aquela que corria o risco de ser apedrejada acusada de adultério.

Ao narrar o sétimo sinal, em Jo 11,20-29 o Evangelho de João fala de Marta e Maria, irmãs de Lázaro.  No centro de Jo está a confissão de Marta (Jo 11,27) que reconhece Jesus como Messias. A seguir, no final do ministério público de Jesus, Maria (de Betânia, que já tinha sido apresentada como irmã de Lázaro), com um gesto profético, unge os pés de Jesus (Jo 12,1-11). O seu gesto foi repetido pelo próprio Jesus na última ceia com seus discípulos (Jo 13,1-16). Na hora em que Jesus está na cruz, enquanto a maioria dos discípulos foge, um grupo de mulheres o acompanham. O evangelho fala que aos pés da cruz estavam firmes a mãe de Jesus, Maria, a mulher de Cléofas, e Maria Madalena.

Na madrugada da ressurreição, o Quarto Evangelho fala de Maria Madalena, a apóstola dos apóstolos, a que recebeu a primeira e a mais importante de todas as ordenações:[7] “Vai, porém, a meus irmãos e dize-lhes: Subo a meu Pai e vosso Pai; a meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). E Madalena, fiel discípula, foi e anunciou aos discípulos: “Vi o Senhor” (Jo 20,18). Maria Madalena é a mulher da busca incansável. A credencial para ser apóstolo é ter visto o Senhor ressuscitado e ter sido enviado a anunciá-lo.[8] Por isso, desde o começo da tradição apostólica, Maria Madalena recebeu o título de apóstola dos apóstolos.

Enfim, seguir Jesus implica andar na contramão, remar contra a correnteza de tantos fundamentalismos e da idolatria do fundamentalismo que tenta se sustentar em posturas moralistas e preconceituosas. Exige também rebeldia, coragem, audácia diante de costumes que deformam as consciências e de modas que aniquilam o infinito potencial humano existente em nós. Jo 8,1-11 critica com veemência as posturas hipócritas de pretensos líderes religiosos de muitas igrejas que usam e abusam de versículos bíblicos para tentar justificar posturas racistas, misóginas, machistas, patriarcais, o que abre espaço para a reprodução de discriminações e violências contra as mulheres, contra os negros e as pessoas que têm orientação sexual homoafetiva.

A biblista Nancy Cardoso no texto “Atire a primeira pedra, ai, ai, ai – Reflexões sobre Jo 8,1-11” nos recorda que “em 2023 o STF considerou inconstitucional os crimes de honra. Em 2024, foram 1450 feminicídios, a grande maioria por pessoa próxima e/ou familiar. Diz-se à boca pequena: “os homens não sabem porque matam, mas as mulheres sabem porque são mortas”. Até quando? Vamos aprender com Jesus a rabiscar no chão e murchar o machismo que mata, violenta e silencia. Porque…”

Concordo integralmente com o irmão Marcelo Barros ao escrever que: “Temos que sonhar com uma Igreja justa e igualitária em relação à mulher. Não basta apenas abrir os ministérios para as mulheres. É urgente voltarmos ao evangelho de Jesus e acabarmos com o sistema de duas classes na Igreja: as pessoas ordenadas e as não ordenadas. Só retomando a igualdade do discipulado de Jesus e a autonomia das comunidades para celebrar a ceia e os sinais do amor divino, superaremos a marginalização estrutural da mulher na Igreja. A Igreja precisa ser exemplo de novo modo de ser no mundo, para que consigamos vencer a violência doméstica, o feminicídio, o machismo, o patriarcalismo e tantas situações nas quais a mulher é vítima.”

Essa passagem do Evangelho de João é eloquente! Fala muito da compaixão e da misericórdia de Jesus! E fala muito também da justiça de Jesus, da sua coragem de desmascarar a hipocrisia social dos homens machistas e prepotentes que ali estavam representados. Ao impedir o feminicídio da mulher, Jesus, mais uma vez, se posiciona contra o poder opressor.  Não é por acaso, salvo engano, que a Igreja  ignorou essa passagem bíblica por muitos anos, demorou a introduzi-la na liturgia. Certamente, pela conivência com esse sistema patriarcal, machista, que discrimina e exclui a mulher.  A atitude de Jesus de Nazaré nos faz refletir que a Igreja precisa, urgentemente, voltar à fonte, que é o evangelho de Jesus, também em relação à luta, à defesa, à valorização, ao respeito devido à mulher nas diversas realidades da vida. Depois de tantos séculos de história e de ser movida e animada pela força das mulheres, a Igreja, dirigida por homens, ainda não é capaz de deixar-se iluminar plenamente por esta ação libertadora de Jesus diante da opressão da mulher. Que os esforços do Papa Francisco nesse sentido encontrem eco nos corações e nas mentes das lideranças!  Que tenham a coragem de "amar como Jesus amou"! 

 

04/04/2025.

Obs.: As videorreportagens nos links, abaixo, de alguma forma ATUALIZAM o assunto tratado, acima.

1 - NÃO AO PL QUE AMPUTA 5.500 HECTARES DA APA CHAPADA DO LAGOÃO, DOM GERALDO MAIA/DIOCESE DE ARAÇUAÍ/MG



2 - ANTIGO DOPS OCUPADO EM BH/MG PELOS MOVIMENTOS SOCIAIS. CADÊ O MEMORIAL DOS DIREITOS HUMANOS, Zema?



3 - MENSAGEM DA PARÁBOLA DO PAI AMOROSO DIANTE DE DOIS FILHOS (Lc 15,1-3.11-32) - Por frei Gilvander



4 - FREI GILVANDER NA CELEBRAÇÃO NO ACAMPAMENTO NOVO PARAÍSO, JEQUITAÍ/MG: 28 FAMÍLIAS na TERRA. Vídeo 4



[1] Doutor em Educação pela FAE/UFMG; Mestre em Ciências Bíblicas; Bacharel e Licenciado em Filosofia; Bacharel em Teologia; frei e padre da Ordem dos Carmelitas; e Agente de Pastoral e Assessor da CPT/MG (Comissão Pastoral da Terra – www.cptmg.org.br ) e do CEBI/MG (Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – www.cebimg.org.br ; e-mail: gilvanderlm@gmail.comwww.gilvander.org.brwww.youtube.com/@freigilvander – No instagram: @gilvanderluismoreira

[2] Os títulos e subtítulos das passagens bíblicas não existem nos manuscritos mais próximos dos originais. Foram atribuídos por tradutores somente após vários séculos.

[3] Cf. Jo 2,6.13; 4,9.22.

[4] Cf. Jo 1,19; 2,18; 5,10.15-17; 6,41; 7,47-48.

 

[5] Cf. Jo 6,41-51; 8,13-30/ 8,48-59; 10,31-39.

[6] Cf. Ez 18,23; Lc 15,7; Jo 8,11.

[7] Cf. Evangelho de Mírian de Magdala.

[8] Cf. 1 Cor 9,1-2; 15,8-11; Gl 1,11-16.

quarta-feira, 12 de março de 2025

COMO COMPREENDER A “TRANSFIGURAÇÃO” DE JESUS? (Lc 9,28-36). E NÓS? Por frei Gilvander

COMO COMPREENDER A “TRANSFIGURAÇÃO” DE JESUS? (Lc 9,28-36). E NÓS? Por frei Gilvander Moreira[1]

Reprodução Redes Virtuais

No Evangelho segundo Lucas, o episódio da "transfiguração" de Jesus (Lc 9,28-36), aparece na mesma ordem do texto de Marcos (Mc 9,2-9), imediatamente depois das cinco máximas sobre o seguimento de Jesus, nas quais se descrevem as atitudes dos discípulos e das discípulas de Jesus no caminho da doação de vida testemunhando um jeito libertador de conviver e lutar até a Cruz (cf. Mc 8,34-9,1; Lc 9,23-27).

Como elementos próprios da redação de Lucas, podemos destacar os seguintes: “uns oito dias depois” (Lc 9,28), em vez da datação de Marcos: “seis dias depois” (Mc 9,2); o motivo pelo qual Jesus sobe a montanha: “para orar” (Lc 9,28); as circunstâncias de sua experiência, isto é, de sua “transfiguração”: “enquanto orava” (Lc 9,29); a substituição do título "querido"[2] (Mc 9,7) por eleito[3] (Lc 9,35). Exclusivo da composição lucana são os versículos Lc 9,30-33.34b e 36bc. O contexto literário mostra que o episódio está intimamente relacionado com o final da máxima anterior, onde se fala de "ver o Reino de Deus" (Lc 9,27).

No Evangelho segundo Lucas, a "transfiguração" de Jesus está especialmente relacionada com a cena do batismo de Jesus. O Batismo marca o começo da missão de Jesus na Galileia, inaugurada por meio de uma voz celeste, que lhe proclama: "Tu és meu Filho querido, meu predileto” (Lc 3,21-22). Aqui se repete essa apresentação, estreitamente relacionada com a viagem a Jerusalém (Lc 9,51). Jesus vai à capital Jerusalém na qual deve cumprir sua missão (Lc 9,31) - cidade que "mata os profetas" (Lc 13,34) - porque seu êxodo (Lc 9,31) está relacionado com sua "assunção/subida"[4]. "Quando se completaram os dias de sua assunção (= subida), ele tomou resolutamente (sterissein, em grego) o caminho de Jerusalém” (Lc 9,51). A expressão "tomou resolutamente o caminho" tem, no original, também o sentido de "endureceu o rosto rumo a”, como se fosse alguém que vai sempre reto sem aceitar mudar de rumo, com firme e decisão inabalável.

 A voz que sai da nuvem declara que Jesus é mais que Messias; é "Filho” e "eleito" pelo Deus da Vida. Jesus é o "Filho" de Deus, o "Eleito" do Deus vivo, nosso Senhor. O primeiro anúncio da paixão (e da ressurreição) não termina na perspectiva da morte, mas inclui essencialmente a ressurreição de Jesus "no terceiro dia".

Outro aspecto desta passagem é a presença das figuras do Primeiro Testamento: Moisés e Elias. Em Mc 9,4 aparecem simplesmente "conversando com Jesus", porém sem especificar o assunto da conversa. Por outro lado, em Lucas falam concretamente "de sua partida", de seu êxodo, e diz que "apareceram cheios de glória". A menção de êxodo está indubitavelmente relacionada com a subida para Jerusalém, perspectiva geográfica de Lucas; porém a palavra, em si mesma, recorda o "êxodo" de Israel, a subida dos pobres escravizados fugindo da escravidão no Egito sob o imperialismo dos faraós para conquistar a terra prometida por Deus a Abraão e Sara, e à sua descendência que são todos os povos injustiçados.

Por que Lucas menciona os três discípulos Pedro, Tiago e João presentes na cena da “transfiguração”? Por que não somente Pedro? Se mencionasse somente Pedro, poderia estar reforçando a autoridade de Pedro. É provável que Lucas quisesse valorizar a autoridade comunitária, ao invés de reforçar uma autoridade pessoal.

Foi na montanha (Lc 9,28). A tradição que associa este acontecimento com o monte Tabor não é anterior a Orígenes (185-254). Lucas não tem particular interesse na localização geográfica, porque, na sua perspectiva, o monte é um "lugar de manifestação" de Deus. A idéia global de Lucas é interpretar o monte como lugar específico "de oração" (cf. Lc 6,12; 19,29; 22,39).

Jesus subiu "para orar" (Lc 9,28). Lucas fala do verdadeiro motivo da subida de Jesus precisamente ao monte; sobe “para orar", não para manifestar-se a seus discípulos. Jesus não é exibicionista, não quer aparecer, mas prefere ser fermento, sal e luz no mundo (Mt 5,13-16). Os grandes momentos da vida e as maiores opções de Jesus nascem de sua comunhão com o projeto do Pai, na oração. E para rezar, Jesus sobe ao monte. Foi em um "lugar elevado" onde Jesus recusou a tentação de se tornar o maior latifundiário do mundo (cf. Lc 4,5-8) para realizar seu programa de libertação dos oprimidos (cf. Lc 4,16-21). A indicação de Lc 9,32 sobre o estado dos três discípulos - "caíam de sono" - sugere que era noite.

"O aspecto do rosto de Jesus mudou de repente" (Lc 9,29). Lucas, consciente da mentalidade dos seus leitores pagão-cristãos, evita a terminologia de Marcos (metamorphothe = "se transformou", "se transfigurou") para não dar lugar a possíveis associações equivocadas com os mitos gregos que falam da metamorfose de certos personagens. É possível que Lucas faça referência à experiência de Moisés em Ex 34,29, onde se diz que o grande libertador, ao descer do Sinai, "tinha radiante seu rosto por ter falado com Deus". Jesus não foi o primeiro a se “transfigurar”. Moisés se “transfigurou”. Nós também podemos nos “transfigurar”, revelar o que há de mais humano-divino em nós.

Moisés e Elias apareceram” (Lc 9,30). Qual a função de Moisés e Elias neste episódio? Elias representa aqui os profetas, mas não é claro se Moisés representa a Lei ou se representa também os profetas. Moisés foi libertador, legislador, profeta, guia..., não foi apenas representante da Lei.

Os líderes libertadores do passado dão testemunho favorável a Jesus (Lc 9,30-31). Moisés e Elias – que, tradicionalmente, representam respectivamente a Lei libertadora e os Profetas, isto é, todo o Primeiro Testamento - se fazem presentes e conversam com Jesus sobre seu êxodo que iria acontecer em Jerusalém (Lc 9,31). Moisés é o líder da libertação do Egito; Elias é o restaurador do javismo no Reino do Norte no tempo do rei Acab, um grande idólatra. O profeta Elias libertou o povo da opressão da idolatria de Baal. O Primeiro Testamento testemunha que Jesus veio para libertar mediante a entrega total de sua vida.

"Vamos fazer três tendas" (Lc 9,33). Festa das Tendas era a festa da água e da luz. Recorda o tempo em que o povo vivia em Tendas no deserto[5]. A "Festa das Tendas" ou "dos Tabernáculos" era originalmente uma celebração de caráter agrícola - uma das antigas festas de Israel, conhecida também como "festa da colheita" (cf. Ex 23,16; 34,22); segundo Flávio Josefo: "a festa mais sagrada e a mais importante dos hebreus."[6] No tempo de Jesus havia sido convertida em uma festa de peregrinação, da qual participavam grandes caravanas de pessoas; a celebração durava sete dias, e durante esse tempo os peregrinos residiam em "tendas" ou em "cabanas" (cf. Lv 23,42-44[7]).

"Formou-se uma nuvem" (Lc 9,34). Essa nuvem é símbolo da presença e da glória de Deus, da "manifestação de Deus”[8], como com frequência aparece no Primeiro Testamento.[9]

"Saiu da nuvem uma voz" (Lc 9,35). Clara referência à palavra de Deus, que transmite uma revelação. Está mais para Diafania do que para Epifania. Esta significa aparição de Deus, mas com uma conotação de que surge de fora, que aparece de cima para baixo. Já Diafania parte do pressuposto de que Deus permeia, perpassa e inunda tudo, está em tudo, e irrompe de dentro para fora e debaixo para cima; logo não implica uma vinda de fora. Dá mais sintonia entre as dimensões humano-divina unidas.

"Este é meu Filho" (Lc 9,35). Esta apresentação é igual à do batismo de Jesus (Lc 3,22). "Meu eleito" (Lc 9,35). Uma voz "do céu" apresenta Jesus como Filho e como Escolhido. Observe que colocamos "do céu" entre aspas para indicar que a voz brota da transcendência existente na imanência.

O Pai dá testemunho de Jesus (Lc 9,34-36). Como um fio condutor, no início (batismo), no meio (transfiguração) e no fim desse evangelho (paixão) encontramos a declaração de que Jesus é o Filho de Deus (cf. 3,22; 9,35 e 22,70). O Pai declara que Jesus é o Escolhido. Esta palavra faz lembrar o Servo de Javé (cf. Is 42,1).

A "Transfiguração" de Jesus o revela como aliado da humanidade. O êxodo evoca a libertação dos povos de Deus da escravidão do Egito rumo à posse da vida e da liberdade na terra prometida, Palestina. Lá os povos oprimidos puderam sentir a presença do Deus, aliado fiel que liberta e salva.

A "transfiguração" de Jesus acontece na sua humanidade. Jesus se deixa transformar pela luz do amor ao próximo e aos últimos da sociedade! É capaz de sair de si mesmo para ir ao encontro do outro a partir do outro mais injustiçado e violentado. Aí estão sua humanidade e sua divindade: na manifestação do amor.

Se assim entendermos, podemos também nos reconhecer como pessoas que podem “transfigurar-se”, a partir da libertação do egocentrismo, da coragem de abrir-se ao outro lutando por vida em fraternidade socioambiental, de saber ouvir o clamor de Deus no grito de tantos irmãos e irmãs e da Mãe Terra tão ferida!

12/03/2025.

Obs.: As videorreportagens nos links, abaixo, ATUALIZAM o assunto tratado, acima.

1 - + 25 HOMENS FORTEMENTE ARMADOS FIZERAM BRUTAL ATAQUE A ACAMPADOS, ACAMPAMENTO VIDA NOVA, JORDÂNIA/MG



2 - HUMANIDADE SÓ TERÁ FUTURO SE APRENDER A SEGUIR JEITO DE CONVIVER DE POVOS INDÍGENAS (FREI GILVANDER)



3 - CARNAVAL COM BLOCO CABRA CEGA: ALEGRIA E LUTA CONTRA DESPEJO DA CASA-LAR DE CEGOS em BH/MG. Vídeo 2



4 - 50 FAMÍLIAS EM NOVA OCUPAÇÃO NO BARREIRO, EM BH/MG, CLAMAM POR MORADIA PRÓPRIA E DIGNA. Vídeo 1



5 - Dr. HÉLDER, do MPF, VISITA ACAMPAMENTO CIGANO CALON EM IBIRITÉ/MG E EXIGE A LIBERAÇÃO DO TERRITÓRIO



6 - LULA NO QUILOMBO CAMPO GRANDE (11 Acampamentos), MST, SUL DE MG, LIBERA TERRA PARA 12.297 ACAMPADOS



[1] [1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, Movimentos Sociais e Ocupações. 

E-mail: gilvanderlm@gmail.comwww.freigilvander.blogspot.com.br             www.gilvander.org.br

www.twitter.com/gilvanderluis             Face book: Gilvander Moreira III – Canal no You Tube: Frei Gilvander luta pela terra e por direitos

[2] (= ho agapetos, em grego).

[3] (ho eklelegmenos, em grego).

[4] (analempsis, em grego: Lc 9,51).

[5] Em uma escola de um Assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Rio Grande do Sul, as crianças Sem Terrinha da escola vivem uma semana por ano em tendas para recordar o tempo dos acampamentos dos pais e mães na luta pela terra.

[6] FLÁVIO JOSEFO, Antiguidades judaicas, VIII, 4, 1, n. 100.

[7] Cf. também R. DE VAUX, Ancient Israel, Nuova York, 1961, pp. 495-502.

[8] Cf. Flávio Josefo, Ant. III, 12, 5, n. 290; III, 14, 4, n. 310.

[9] Cf. Ex 16,10; 19,9; 24,15-18; 40,34; 2 Sm 22,12; 1 Rs 8,10-11; Ez 10,3-4; Sal 18,11; 2 Mac 2,8.

segunda-feira, 3 de março de 2025

Lc 4,1-13 – JESUS NÃO CAI NA TENTAÇÃO DA MÁGICA, NEM DO PODER E NEM DA IDOLATRIA. Por frei Gilvander

Lc 4,1-13 – JESUS NÃO CAI NA TENTAÇÃO DA MÁGICA, NEM DO PODER E NEM DA IDOLATRIA. Por frei Gilvander Moreira[1]

Irmã Dorothy, mulher imprescindível, pois dedicou toda  sua vida aos pobres e à defesa da Amazônia. Não caiu em nenhuma tentação. Reprodução Redes Virtuais

No Evangelho de Lucas, em Lc 4,1-13, está a narrativa das tentações de Jesus com algumas diferenças em relação aos Evangelhos de Mateus (Mt 4,1-11) e de Marcos (Mc 1,12-13). Que tipo de pessoa Jesus se torna para testemunhar um caminho de libertação e salvação dos oprimidos? 

Lucas retoma a ordem do Evangelho de Marcos, interrompida para colocar a genealogia de Jesus, mas conserva de Marcos somente "durante quarenta dias no deserto" e "o tentava".  Omite os detalhes com que Marcos termina sua narração global das tentações de Jesus. Em Marcos, a tentação é narrada de forma genérica e abstrata, enquanto que Lucas utiliza materiais provenientes da Fonte "Q"[2] para especificar a natureza concreta das tentações, igual a Mateus (cf. Mt 4,2b-10).

Talvez alguém pudesse imaginar que, por se tratar de experiência tão íntima do próprio Jesus, os discípulos e as discípulas podem ter sabido disso pelo próprio Jesus que partilhou com eles e elas como foi importante para ele discernir qual a vontade do Pai sobre sua missão e, portanto como ler e interpretar os textos sagrados da Bíblia. De fato, o modo como Lucas conta as tentações as aproxima do que Jesus vai sofrer no Horto das Oliveiras, na noite em que seria preso e entregue aos tribunais para sofrer pena de morte. Lucas termina o seu relato dizendo que o tentador se afastou dele ‘até o tempo oportuno”, que teria sido no Getsemani.

Específicas de Lucas são as seguintes expressões: "cheio do Espírito Santo", "durante todo esse tempo", "poder", "em um instante", o uso invariável do substantivo diabolos (= "diabo") em toda a narração, a motivação que apresenta o diabo em Lc 4,6b e a conclusão do episódio (Lc 4,13). Lucas transformou o plural "pedras", "pães" (Mt 4,3) para sua forma singular; omitiu a "montanha altíssima" de que fala Mt 4,8[3].

A diferença de ordem das tentações nas versões de Mateus e de Lucas nos leva a perguntar: Qual teria sido a ordem original no Evangelho "Q"? Qual dos evangelistas que alterou a ordem originária? O biblista K. H. Rengstorf[4] sugere que Lucas segue a ordem dos três pedidos no Pai Nosso: 1) "Proclamar que teu nome é santo"; 2) "Que chegue o teu reino"; 3) "Dá-nos cada dia o pão para nossa subsistência". É muito fecunda essa aproximação entre o relato das tentações e os pedidos que Jesus propõe no Pai Nosso.

Mateus teria colocado a tentação da "montanha" altíssima" na última posição, porque o tema da "montanha" é particularmente significativo na sua narração evangélica (por exemplo, o discurso da montanha: Mt 5-7; a aparição final de Jesus ressuscitado no monte: Mt 28,16-20; todo o evangelho que tenta apresentar Jesus como o novo Moisés) ou também porque, segundo Mateus, o ponto culminante seria recusar todo culto a Satanás para dedicar-se única e exclusivamente a serviço de Deus.

Mas Lucas preferiu colocar a tentação do pináculo do templo como a última, porque para ele o lugar mais importante está em Jerusalém. Segundo o biblista Bultmann, o episódio é uma criação das primeiras comunidades cristãs para explicar de forma apologética, porque Jesus não fez nenhum milagre/prodígio em proveito próprio nem se acomodou às dominantes ideias messiânicas do seu tempo.

As primeiras comunidades cristãs foram transmitindo diversos relatos de tentação, mas é provável que o relato de Marcos, da tentação, no deserto, constitua a base mais antiga do episódio, em Lucas. É absolutamente impossível provar a realidade histórica destas cenas de tentação, já que não temos o menor fundamento para emitir um juízo histórico. É mais provável que tenha significado simbólico.

As três cenas têm um denominador comum: todas corrigem uma idéia equivocada da missão de Jesus como "Filho" de Deus. O número de "três" tentações indica "toda a vida", “todas as tentações”. As três tentações de Jesus são uma síntese de todas as tentações que Jesus sofreu ao longo de sua missão libertadora.

 O biblista Dupont diz que "Jesus fala de uma experiência por ele vivenciada, porém a expressa em linguagem simbólica, perfeitamente apta para impressionar os seus ouvintes[5]". O biblista R. E. Brown chega à seguinte conclusão: "Mateus e Lucas, ou a fonte comum a ambos, não fazem injustiça aos fatos históricos ao concentrar o dramatismo destas cenas em um só episódio e ao desmascarar o verdadeiro autor das tentações, pondo nos seus lábios toda esta carga de sedução[6]". Seja linguagem figurativa ou "dramatismo", o que não pode ser é ingênuo literalismo. Mais do que se tratar de um fato histórico ou não, o sentido teológico é o mais importante.

A narração evangélica apresenta as tentações de Jesus como fenômenos que procedem de fontes externas; não há o mínimo de indício de que provenham de um conflito interior, mas são um símbolo da sedução contida na hostilidade, na oposição e inclusive na recusa ao projeto de Jesus.

As três cenas da tentação descrevem Jesus como Filho de Deus, obediente à vontade do Pai; por isso não cede à sedução de usar seus poderes ou sua autoridade de Filho para uma finalidade distinta da que constitui sua missão. Ao citar três tentações do povo no deserto, conforme o livro do Deuteronômio, faz-se um paralelo entre Jesus e os povos escravizados que se libertaram da escravidão no Egito sob o imperialismo dos faraós. Onde os povos do Primeiro Testamento falharam, Jesus sai vitorioso. E nós podemos vencer as tentações de hoje.

Observe o contexto literário: Lucas inseriu a narrativa das tentações depois da genealogia de Jesus para mostrar que Jesus é humano como qualquer pessoa e, enquanto ser humano, vem de Deus. Lucas tem uma visão dialética da história e trabalha muito com contrastes. Após ter superado as tentações, Lucas mostra Jesus iniciando sua missão pública e apresentando seu programa de libertação integral (Lc 4,16-19) na pequena sinagoga de Nazaré. Como irá colocar em prática esse programa? As tentações são propostas que Jesus rejeitou, porque por meio delas não é possível libertar os oprimidos, pois mágica, poder e idolatria não criam condições de vida e liberdade para todos e todas.

Segundo Lucas, Jesus foi tentado durante quarenta dias, número simbólico que lembra o tempo em que Moisés ficou na montanha (Ex 34,28), sem comer nem beber, a fim de escrever, na intimidade com Deus, o Decálogo da aliança para a nova sociedade. Lembra também o tempo em que o profeta Elias permaneceu no monte Horeb, depois do qual desceu para superar a idolatria imposta pelo rei Acab e pela rainha Jezabel e transformar completamente a sociedade do ponto de vista político e religioso (cf. 1Rs 19,8). Lembra, ainda, os quarenta anos dos hebreus no deserto, com suas tentações de voltar ao Egito, mesmo que fosse para sobreviver como escravo, desde que de barriga cheia, mas sob o imperialismo que massacre de inúmeras formas.

Na Primeira tentação (Lc 4,3-4) - “Se és Filho de Deus, mande que esta pedra se transforme em pão” -, Jesus não aceita se tornar o Messias da acumulação. O diabo é aquele que tem um projeto capaz de perverter o projeto de Deus e de Jesus. Ele quer um deus que seja garantia de prosperidade para uma minoria, um deus de palanque e de status. Jesus recusa ser o messias da abundância porque o projeto de Deus vai além de promessas eleitoreiras: "Não só de pão vive a pessoa humana" (Lc 4,4; cf. Dt 8,3). O texto do Deuteronômio fala do tempo em que o povo vivia no deserto e se contentava em sobreviver assim desde que tivesse pão para comer. A palavra de Javé, porém, tinha objetivos mais amplos: conduzir todos os povos escravizados à plena posse da terra para terem vida e dignidade. Jesus recusa-se a ser o messias da abundância para si, pois sua proposta é a partilha (Lc 11,41) e pão para todos (Lc 9,12-17). Dt 8,3 faz parte de Dt 8,1-6; recorda quando os povos oprimidos, ao marchar no deserto, murmuravam contra Moisés e Arão (Ex 16; Nm 11,7-8). A tentação de abrir mão da caminhada libertadora precisa ser superada. Se parar de caminhar e só pensar em comer, a escravidão volta. Padre Alfredinho, da Fraternidade do Servo Sofredor, gostava de dizer: “Os ricos se salvarão quando aprenderem a passar fome”.

Na segunda tentação (Lc 4,5-8) - “Eu te darei todo esse poder com glória..., se te prostrares diante de mim” -, Jesus não aceita se tornar o Messias do poder. Jesus é tentado a resolver o problema dos oprimidos tornando-se chefe político de estruturas injustas. Refutou com veemência Jesus: “Adorarás ao Senhor teu Deus, e só a Ele prestarás culto” (Lc 4,8 cita Dt 6,13)[7]. Todo tipo de idolatria oprime e mata de muitas formas.

O diabo faz exegese no seu modo de ler a Bíblia: descobrir nela a motivação para o poder e o sucesso messiânico. O evangelho diz que Jesus responde ao diabo com outro modo de ler a Bíblia e a experiência histórica dos povos que lutam por libertação, e esse é o da inserção amorosa e do serviço despojado do Servo Sofredor que vai até a cruz, doando a vida a todos/as, primordialmente aos injustiçados/as. A citação completa deste versículo do Deuteronômio mostra claramente que absolutizar-se no poder é repetir ação opressora dos faraós.

São dois modos de ler e interpretar a Bíblia que até hoje existem entre nós nas próprias Igrejas cristãs. Quem lê a Bíblia ou os evangelhos para legitimar pretensões de poder eclesiástico, sagrado e/ou político, faz o mesmo tipo de exegese do diabo no relato das tentações de Jesus.

A mosca azul do poder corrompe muitas pessoas. Jesus tem outros projetos mediante os quais testemunhará um caminho de libertação dos oprimidos. No Evangelho de Lucas, uma de suas principais características é o poder serviço (cf. Lc 22,27).

Na terceira tentação (Lc 4,9-12) - Em Jerusalém, no pináculo do Templo, “Se és Filho de Deus, atira-te para baixo ...” -, Jesus não aceitou se tornar o Messias do prestígio, do status. O diabo quer livrar Jesus da morte. Desta vez cita a Bíblia (Sl 91,11-12). Mas ser messias do prestígio constitui idolatria. "O diabo afastou-se para voltar no tempo oportuno" (Lc 4,13). Este "tempo oportuno" é o final da prática libertadora de Jesus, onde ele vai enfrentar os chefes dos sacerdotes, doutores da Lei e anciãos (cf. Lc 20,1). Eles personificam as tentações que Jesus venceu: crêem que Deus lhes garante a prosperidade. Acham que é o suporte político para as estruturas injustas que defendem e promovem; vivem envolvidos pela busca do prestígio. Jesus vai enfrentá-los. É sua última tentação. Eles o matam, mas a ressurreição é a prova de que o projeto de Deus, mistério de infinito amor, é mais forte que as forças de morte.

Em Lc 22,31-32 Jesus fala aos discípulos que Satanás o instigava para peneirar os discípulos como trigo. Lc 22,31-32 mais Lc 4,13 ("para voltar em tempo oportuno") nos dão elementos textuais para respaldar a tese de que Jesus foi tentado durante toda sua vida (principalmente no seu ministério público) até no momento da morte, e não somente em "40 dias" antes de entrar em campo para a missão. Para sermos filhos de Deus precisamos doar nossa vida aos injustiçados/as de ponta a ponta, a vida inteira.

As tentativas de estabelecer uma conexão entre a narração das tentações de Jesus, de Lucas, com 1 Jo 2,16, onde se menciona "a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o orgulho da vida", são simplesmente erradas. Também é equivocada a interpretação de que a vitória de Jesus se deve à sua condição de "sumo-sacerdote".

Jesus vence com a ferramenta "da palavra de Deus" (Ef 6,17), pois cita sempre uma passagem do Primeiro Testamento para inspirar um projeto genuinamente humano-divino.

Lucas apresenta as três tentações em uma ordem diferente do Evangelho de Mateus. Este inicia apresentando a tentação da transformação de pedras em pão (primeira tentação), do jogar-se do pináculo do templo e ser salvo pelos anjos (segunda tentação) e a tentação de contemplar em uma alta montanha os reinos com todo o esplendor (terceira tentação) (Mt 4,1-11 e Lc 4,1-13).

No evangelho de Lucas, a primeira tentação se dá no deserto, onde Jesus é tentado a transformar pedra em pão. A segunda acontece na montanha, em que contempla os reinos. A terceira, no pináculo do templo, onde Jesus é tentado a saltar dali para ser salvo pelos anjos. Há uma progressão nas tentações. O clímax do confronto entre Satanás e Jesus aconteceu precisamente em Jerusalém, onde acontecerá a execução do Justo e Inocente com a pena de morte, a pena capital. Assim, a cena na qual Jesus se encontra sobre o pináculo da “casa de seu Pai” se torna muito eloquente, porque no Evangelho de Lucas, “Jerusalém” é o ponto de chegada de Jesus para realizar a missão (Lc 17,11; Lc 19,28-38).

Para as primeiras comunidades cristãs, “Jerusalém” é o ponto de partida para a missão (Lc 24,52). Jerusalém tem uma importância particular, pois é a cidade do “destino” final de Jesus e de onde se irradia a libertação-salvação para todo o gênero humano e toda a Criação. Jesus caminha para Jerusalém como se buscasse alcançar uma meta (Lc 13,22). Lucas valoriza “Jerusalém” não somente como lugar físico, mas primordialmente como lugar teológico que representa a “cidade de Davi”,  o monte Sião, de onde o Deus da vida legisla. Lucas se refere a “Jerusalém” com o termo grego Ierousalëm, designação de Jerusalém não como lugar geográfico, mas de lugar sagrado do judaísmo e, talvez, como retornando a compreensão de que Jerusalém simboliza a aliança de Deus com os povos oprimidos, (a nova Jerusalém do Apocalipse 21 e 22). Aliança agora estendida e oferecida a toda a humanidade e até a todo o universo, onde se pode ouvir a voz divina que diz “Faço novas todas as coisas” (Ap  21,5). 

Enfim, Jesus não caiu nas tentações da mágica, nem do poder e nem da idolatria. Atualmente, em muitos países a tentação do fascismo, da extrema-direita, com projetos neonazistas, tenta seduzir a maioria do povo insuflando a ilusão de que por meio de ditadura militar-civil-empresarial será possível superar as injustiças socioambientais, políticas e econômicas que se abatem sobre os povos. Ledo engano! Feliz quem não cair na tentação do fascismo, nem do neonazismo da extrema-direita que ronda o mundo!

03/03/2025.

Obs.: As videorreportagens nos links, abaixo, ATUALIZAM o assunto tratado, acima.

1 - “POVO DEU UM PASSO À FRENTE E O MAR VERMELHO SE ABRIU”, Frei GILVANDER, NO QUILOMBO CAMPO GRANDE/MST



2 - PREFEITO DE ARAÇUAÍ/MG com PL PARA AMPUTAR APA CHAPADA DO LAGOÃO PARA ABRIR ESPAÇO PARA MINERADORAS



3 - INJUSTIÇAS SOCIOAMBIENTAIS BRUTAS EM MINAS GERAIS: Frei Gilvander entrevista Dr. Elcio Pacheco, adv



[1] [1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, Movimentos Sociais e Ocupações. 

E-mail: gilvanderlm@gmail.comwww.freigilvander.blogspot.com.br             www.gilvander.org.br

www.twitter.com/gilvanderluis             Face book: Gilvander Moreira III – Canal no You Tube: Frei Gilvander luta pela terra e por direitos

[2] Fonte “Q” é um Evangelho perdido com ditos e sentenças proferidas por Jesus. Conclui-se a existência deste Evangelho pela existência de passagens semelhantes nos evangelhos de Mateus e Lucas, mas que não existem no Evangelho de Marcos.

[3] Cf. J.DUPONT, Les tentations de Jésus au désert, pp. 43-72.

[4] Das evangelium nack Lukas, p. 63.

[5] Cf. J.DUPONT, Les tentations de Jésus au désert, pp. 113-115.

[6] Cf. R. E. BROWN, CBQ 23 (1961), p. 155.

[7] Dt 6,13 faz parte de Dt 6,1-15 e recorda os riscos que exercem os cultos cananeus (cf. Dt 12,30-31; Ex 23,23-33). As rebeliões do povo contra Moisés (e Deus) é um dos temas fortes do Primeiro Testamento: cf. 2Rs 16,3-4; 21,5-6; Jr 7,31; Sal 106 e etc.).