JESUS LIVRA MULHER DE SER ASSASSINADA POR RELIGIOSOS (Jo 8,1-11) - Por frei Gilvander Moreira[1]
Reprodução Redes VirtuaisPor que Jesus não condena a mulher acusada de
adultério, mas a livra de ser linchada por pessoas religiosas? Com o injusto
título de “mulher adúltera”[2],
no Evangelho de João, em Jo 8,1-11, temos Jesus acolhendo e defendendo uma
mulher arrastada por religiosos fariseus e doutores da lei e ameaçada de morte.
Não
todos certamente, os doutores da Lei e fariseus ameaçavam assassinar, sob
apedrejamento, uma mulher, conforme eles dizem, surpreendida em adultério. Se
muitos doutores da lei e fariseus excluíam as mulheres segundo a lei da pureza
e da impureza, logo eram inimigos delas. Por isso não podemos acreditar, sem
mais, que estivessem falando a verdade. Acusar a mulher de adultério pode ter
sido calúnia, difamação e injúria proferida por eles ou por alguém.
Quando o Evangelho de João menciona o termo “judeus”, pode estar se
referindo a alguém do povo de cultura judaica[3],
mas mais frequentemente parece se tratar de lideranças do judaísmo reformador.
Esses são os fariseus que ameaçam a mulher e querem vencer Jesus em uma cilada.[4]
Antes
da década de 70 do século I da Era Comum, a religião judaica era plural, mas
depois da guerra judaica em que o exército do império Romano, escravocrata,
devastou a cidade de Jerusalém e destruiu o templo (anos 70), só sobreviveu o
grupo do judaísmo rigorista, fundamentalista e moralista. Jo 8,1-11 foi escrito
nas décadas de 80 ou 90 do 1º século. Isto indica que são estes judeus
tradicionalistas que tramam para se apoderarem de Jesus, matá-lo, e linchar a
mulher.
Parte
dos fariseus da época de Jesus era constituída por lideranças populares
comprometidas com a libertação do povo oprimido. Eles ensinavam o resgate das
tradições como forma de resistência aos opressores e exploradores. O que antes
era uma pluralidade de crenças, esperanças e práticas foi sendo reduzido a uma
única forma. O que era diferente passou a ser demonizado (Jo 8,48), até
assassinado “em nome de Deus” (Jo 16,2). Após a destruição de Jerusalém nos
anos 70, os judeus chegaram a um acordo com os romanos. O judeu que se filiasse
a uma sinagoga e nela pagasse o imposto teria seus direitos reconhecidos pelo
Império. Mas quem não se adequasse... ficava excluído. As pessoas que aderiam
às comunidades cristãs foram excluídas da sinagoga como a mulher que estava
sendo ameaçada de morte por fariseus e doutores da lei.
No
Primeiro Testamento bíblico, vários textos proféticos comparam o adultério com
o rompimento da aliança com Deus e os líderes do Judaísmo rabínico
interpretaram assim as comunidades cristãs que se afastavam da sinagoga. Eram
como uma mulher casada que traísse o seu marido (Deus) e se ligasse a amantes.
Assim se diz nos livros de Jeremias e de Oseias: “O Senhor me disse: - Você viu o que fez Israel, a infiel? Subiu em
todo monte elevado e foi para debaixo de toda árvore verdejante a fim de
prostituir‑se” (Jer 3,6). “Israel, (...) você se prostitui, abandonando o seu Deus; você ama o salário
da prostituição em cada local onde o trigo é malhado” (Os 9,1-2).
Após
o ano 70 sobraram do judaísmo somente os fariseus rigoristas e os cristãos que eram
respeitosos com o diferente e abertos, enquanto os fariseus fundamentalistas
foram se tornando cada vez mais intolerantes. Chegaram ao ponto de se
excomungarem mutuamente. Por isso o Evangelho de João acentua as brigas entre
Jesus e os judeus.[5]
Neste contexto, o conflito com a autoridade dos judeus provoca uma releitura do
ensinamento e da práxis de Jesus. O fato concreto em Jo 8,1-11 é que a mulher
estava na iminência de ser morta por eles.
Como era a Lei do adultério no
tempo do Primeiro Testamento bíblico? Nos livros de Levítico (Lv 20,10) e Deuteronômio (Dt 22,23) está prescrita
a pena de morte para as pessoas adúlteras, sem, no entanto, afirmar qual o tipo
de pena a ser aplicada. No livro de Levítico há a prescrição: “Se um homem cometer adultério com a mulher
de outro homem, com a mulher de seu próximo, o homem e a mulher adúltera serão
punidos com a morte” (Lev 20,10).
Para configurar um adultério a outra mulher devia ser
casada e judia. Se a mulher não fosse casada, não era adultério, mas
fornicação. Na Bíblia, o adultério
era punido com a morte do homem adúltero e da mulher adúltera, se o adultério
acontece na cidade. No entanto, se o adultério ocorresse na zona rural, no
campo, apenas o homem deveria ser punido com a pena de morte. Se fosse no
campo, não teria como provar se houve o consentimento da mulher, pois se ela
pedisse socorro, dificilmente alguém poderia escutar; na cidade, se a mulher
gritasse pedindo socorro, alguém ouviria e teria como comprovar que a mulher
estava sendo vítima.
No
caso da mulher adúltera desse Evangelho de Jo 8,1-11, nada se diz sobre isso
(onde, com quem e nem como foi). O importante para os seus adversários era
condená-la e principalmente apoderar-se de Jesus. Jesus, percebendo a cilada de
doutores da lei e de fariseus, se levantou e disse: “Quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra” (Jo
8,7). Eles “olharam no espelho” e foram embora, um a um. A mulher, no centro
das atenções, reconhece Jesus como Senhor
(Jo 8,11). Jesus, de pé, após dialogar com a mulher, lhe diz: “Eu também não te condeno. Podes ir, e não
peques mais” (Jo 8,11). Observe um detalhe: Jesus disse para a mulher não
voltar a pecar. Ele não disse para a mulher deixar de amar. Nas entrelinhas,
Jesus diz: continua sua vida, mulher, amando, lutando e festando, sendo humana e
digna de respeito, cuidado e amor.
O autor do Quarto Evangelho termina o capítulo 8 nos
informando: “Eles – doutores da Lei e
fariseus - pegaram pedras para atirar em
Jesus. Mas Jesus se escondeu e saiu do Templo” (Jo 8,59). Ou seja, eles, de
fato, queriam era condenar Jesus à pena de morte e apedrejá-lo, como fizeram
com o diácono Estevão (At 7,55-60).
A narrativa da Mulher Adúltera está inserida dentro da
narrativa da Festa das Tendas no Evangelho de João. De tantas maneiras ela está
fora do lugar! É só uma isca para tentar atacar Jesus em uma armadilha de
homens moralistas que se dizem religiosos. A passagem de Jo 8,1-11 nos séculos
I e II não constava nos manuscritos do Evangelho de João, mas estava inserida em
alguns manuscritos do Evangelho de Lucas. Alguns biblistas pensam que poderia
ser atribuída a Lucas, pois parece ter um estilo mais lucano que joanino. Há,
inclusive, um lugar em Lucas onde ficaria bem encaixada: (Cf. Lc 12,38 +).
Isso, porém, não diminui o fato de se tratar de uma narrativa que tem valor
bíblico, de inspiração incontestada e com valor histórico.
Em Jo
8,1-11, Jesus testemunha a vontade de Deus, que não quer a morte do pecador, mas
sim que se converta e viva.[6]
Em
Jo 2,3 e 4 aparece claramente uma evolução na fé que mostra a desconfiança de
Jesus a respeito dos judeus (Jo 2,23-4,42).
Importante
observarmos que as mulheres têm participação de destaque nas Comunidades
Cristãs do discípulo amado, o quarto evangelista. As mulheres no
Evangelho de João: Maria, a mãe de Jesus, está no início e no fim. Em Jo 2,5, aparece a função da
mãe de Jesus. Em Jo 4,1-42 se trata da samaritana que é apresentada como
exemplo a ser seguida.
É bom conferir as diferenças entre as conversas de Jesus com Nicodemos
e com a samaritana. Esta é mulher, anônima, desprezada socialmente e
marginalizada. Ela não procura Jesus diretamente, mas é uma mulher com sede de
vida, disposta a ter uma água que não seja a água parada no poço. Sente-se
atraída pela proposta de Jesus, crendo, aceitando e reconhecendo nele o
Messias. A conversa com a samaritana acontece em plena luz do dia.
No
centro da confrontação entre Jesus e os judeus aparece outra mulher, essa da
qual fala o evangelho deste domingo, aquela que corria o risco de ser
apedrejada acusada de adultério.
Ao narrar
o sétimo sinal, em Jo 11,20-29 o Evangelho de João fala de Marta e Maria, irmãs
de Lázaro. No centro de Jo
está a confissão de Marta (Jo 11,27) que reconhece Jesus como Messias. A
seguir, no final do ministério público de Jesus, Maria (de Betânia, que já
tinha sido apresentada como irmã de Lázaro), com um gesto profético, unge os
pés de Jesus (Jo 12,1-11). O seu gesto foi repetido pelo próprio Jesus na
última ceia com seus discípulos (Jo 13,1-16). Na hora em que Jesus está na
cruz, enquanto a maioria dos discípulos foge, um grupo de mulheres o
acompanham. O evangelho fala que aos pés da cruz estavam firmes a mãe de Jesus, Maria, a mulher de Cléofas,
e Maria Madalena.
Na
madrugada da ressurreição, o Quarto Evangelho fala de Maria Madalena, a
apóstola dos apóstolos, a que recebeu a primeira e a mais importante de todas
as ordenações:[7] “Vai, porém, a meus irmãos e dize-lhes: Subo
a meu Pai e vosso Pai; a meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). E Madalena,
fiel discípula, foi e anunciou aos discípulos: “Vi o Senhor” (Jo 20,18). Maria Madalena é a mulher da busca
incansável. A credencial para ser apóstolo é ter visto o Senhor ressuscitado e
ter sido enviado a anunciá-lo.[8]
Por isso, desde o começo da tradição apostólica, Maria Madalena recebeu o
título de apóstola dos apóstolos.
Enfim,
seguir Jesus implica andar na contramão, remar contra a correnteza de tantos
fundamentalismos e da idolatria do fundamentalismo que tenta se sustentar em
posturas moralistas e preconceituosas. Exige também rebeldia, coragem, audácia
diante de costumes que deformam as consciências e de modas que aniquilam o
infinito potencial humano existente em nós. Jo 8,1-11 critica com veemência as
posturas hipócritas de pretensos líderes religiosos de muitas igrejas que usam
e abusam de versículos bíblicos para tentar justificar posturas racistas, misóginas,
machistas, patriarcais, o que abre espaço para a reprodução de discriminações e
violências contra as mulheres, contra os negros e as pessoas que têm orientação
sexual homoafetiva.
A
biblista Nancy
Cardoso no texto “Atire a primeira pedra, ai, ai, ai – Reflexões sobre Jo
8,1-11” nos recorda que “em 2023 o STF considerou inconstitucional os crimes de
honra. Em 2024, foram 1450 feminicídios, a grande maioria por pessoa próxima
e/ou familiar. Diz-se à boca pequena: “os homens não sabem porque matam, mas as
mulheres sabem porque são mortas”. Até quando? Vamos aprender com Jesus a
rabiscar no chão e murchar o machismo que mata, violenta e silencia. Porque…”
Concordo
integralmente com o irmão Marcelo Barros ao escrever que: “Temos que sonhar
com uma Igreja justa e igualitária em relação à mulher. Não basta apenas abrir
os ministérios para as mulheres. É urgente voltarmos ao evangelho de Jesus e
acabarmos com o sistema de duas classes na Igreja: as pessoas ordenadas e as
não ordenadas. Só retomando a igualdade do discipulado de Jesus e a autonomia
das comunidades para celebrar a ceia e os sinais do amor divino, superaremos a
marginalização estrutural da mulher na Igreja. A Igreja precisa ser exemplo de
novo modo de ser no mundo, para que consigamos vencer a violência doméstica, o
feminicídio, o machismo, o patriarcalismo e tantas situações nas quais a mulher
é vítima.”
Essa passagem do Evangelho de João é eloquente!
Fala muito da compaixão e da misericórdia de Jesus! E fala muito também da
justiça de Jesus, da sua coragem de desmascarar a hipocrisia social dos homens
machistas e prepotentes que ali estavam representados. Ao impedir o feminicídio
da mulher, Jesus, mais uma vez, se posiciona contra o poder opressor. Não
é por acaso, salvo engano, que a Igreja ignorou essa passagem bíblica por
muitos anos, demorou a introduzi-la na liturgia. Certamente, pela conivência
com esse sistema patriarcal, machista, que discrimina e exclui a mulher.
A atitude de Jesus de Nazaré nos faz refletir que a Igreja precisa,
urgentemente, voltar à fonte, que é o evangelho de Jesus, também em relação à
luta, à defesa, à valorização, ao respeito devido à mulher nas diversas
realidades da vida. Depois de tantos séculos de história e de ser movida e
animada pela força das mulheres, a Igreja, dirigida por homens, ainda não é
capaz de deixar-se iluminar plenamente por esta ação libertadora de Jesus
diante da opressão da mulher. Que os esforços do Papa Francisco nesse sentido
encontrem eco nos corações e nas mentes das lideranças! Que tenham a
coragem de "amar como Jesus amou"!
04/04/2025.
Obs.: As
videorreportagens nos links, abaixo, de alguma forma ATUALIZAM o assunto
tratado, acima.
1 - NÃO AO PL QUE AMPUTA 5.500 HECTARES DA APA
CHAPADA DO LAGOÃO, DOM GERALDO MAIA/DIOCESE DE ARAÇUAÍ/MG
2 - ANTIGO DOPS OCUPADO EM BH/MG PELOS
MOVIMENTOS SOCIAIS. CADÊ O MEMORIAL DOS DIREITOS HUMANOS, Zema?
3 - MENSAGEM DA PARÁBOLA DO PAI AMOROSO DIANTE
DE DOIS FILHOS (Lc 15,1-3.11-32) - Por frei Gilvander
4 - FREI GILVANDER NA CELEBRAÇÃO NO ACAMPAMENTO
NOVO PARAÍSO, JEQUITAÍ/MG: 28 FAMÍLIAS na TERRA. Vídeo 4
[1] Doutor em
Educação pela FAE/UFMG; Mestre em Ciências Bíblicas; Bacharel e Licenciado em
Filosofia; Bacharel em Teologia; frei e padre da Ordem dos Carmelitas; e Agente
de Pastoral e Assessor da CPT/MG (Comissão Pastoral da Terra – www.cptmg.org.br ) e do CEBI/MG (Centro Ecumênico de Estudos
Bíblicos – www.cebimg.org.br ; e-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.youtube.com/@freigilvander –
No instagram: @gilvanderluismoreira
[2] Os títulos e subtítulos das
passagens bíblicas não existem nos manuscritos mais próximos dos originais.
Foram atribuídos por tradutores somente após vários séculos.
[3] Cf. Jo 2,6.13; 4,9.22.
[4] Cf. Jo 1,19; 2,18; 5,10.15-17; 6,41;
7,47-48.
[5] Cf. Jo 6,41-51; 8,13-30/
8,48-59; 10,31-39.
[6] Cf. Ez 18,23; Lc 15,7; Jo 8,11.
[7] Cf. Evangelho de Mírian de Magdala.
[8] Cf. 1
Cor 9,1-2; 15,8-11; Gl 1,11-16.